Capítulo 13 – O Gosto do Abismo

1782 Words
"O desejo é um veneno que não se lava com água e sabão. Luccas Ashford não é apenas um erro; ele é a sabotagem do meu império. Eu o possuí como um animal, mas agora sou eu quem está na coleira, assistindo-o brincar com fogo enquanto minha sanidade queima no altar do ciúme." — Enzo Romano O vapor do banho quente no vestiário privativo do Aurora não foi suficiente para lavar a sensação da pele de Luccas da minha. Eu ainda sentia o tremor das coxas dele contra os meus quadris e o aperto úmido que quase me fez perder a alma naquela bancada. Vestir roupas limpas parecia uma piada de mau gosto; por baixo do tecido, eu estava marcado e irremediavelmente sujo pelo desejo. Saí do vestiário esperando encontrar a cozinha vazia, mas Luccas ainda estava lá, desafiando a minha paz de espírito. Ele estava encostado na mesma bancada onde, minutos atrás, eu o havia possuído com uma animalidade que eu desconhecia. Ele já estava vestido, mas seus cabelos estavam desalinhados e seus lábios, inchados pelos meus beijos, brilhavam sob a luz fria. — Você precisa ir, Luccas — eu disse, minha voz saindo fria e cortante como uma lâmina de cerâmica de alta precisão. Não o olhei nos olhos. Comecei a organizar especiarias na prateleira, fingindo que a ordem das coisas ainda importava para mim. Houve um silêncio pesado, preenchido apenas pelo zumbido dos exaustores, mas ele não se moveu um milímetro sequer. — "Você precisa ir"? — Luccas repetiu, e o tom de sua voz me fez parar. Havia um escárnio perigoso ali, uma brasa viva. — É isso o que você diz depois de se enterrar em mim até gozar chamando meu nome como um animal no cio? — Depois de me usar como se eu fosse a única coisa que te impedisse de explodir e sumir deste mundo? — ele questionou. Virei-me bruscamente, a fúria e o medo travando uma batalha sangrenta dentro do meu peito, me deixando sem fôlego. — O que você quer que eu diga? Que isso mudou o mundo? Que agora vamos sair de mãos dadas pela Quinta Avenida? — Que vou contar para o Chris que eu fodi o cunhado dele em cima do mármore onde preparo o jantar dos meus clientes? — Acorda, Luccas! Isso foi sexo. Foi uma descarga. Uma necessidade física que precisava ser expelida da minha carne. Luccas deu um passo à frente. Ele não recuou diante da minha carranca. Pelo contrário, ele parecia maior, mais seguro de si. — Uma necessidade? — ele riu, um som seco que me atingiu no meio da face como um tapa bem dado. — Eu vi os seus olhos, Enzo. Eu senti o jeito que você se agarrou a mim, como se eu fosse a sua única âncora na farsa que você vive. — Você pode mentir para o mundo com essa pose de "Chef Safado", mas não pode mentir para o meu corpo — ele sibilou. — Meu corpo sabe a diferença entre uma f**a vazia e o desespero cru que você sentiu hoje enquanto me devorava. — Chega! — bati com a mão na bancada de metal, o som ecoando no vazio da cozinha como um tiro de advertência. — Você é o irmão da Victoria. O assistente da Jasmine. Um risco que eu não posso e não vou mais correr em Manhattan. — O que aconteceu em Vegas foi um erro, e o que aconteceu hoje foi uma recaída estúpida. Não somos nada além de um desastre. Luccas parou a centímetros de mim. O cheiro de sexo ainda emanava de nós dois, uma mistura crua de fluidos, suor e pecado. Sentir o aroma da nossa entrega fez meu p*u latejar novamente contra o jeans, mesmo com toda a minha negação mental. — Você está certo, Enzo — ele sussurrou, e o brilho de determinação em seus olhos azuis me deu um calafrio na espinha. — Somos um desastre. Mas eu cansei de ser o único a queimar sozinho enquanto você finge que é feito de gelo. — Se você quer que isso seja apenas uma "descarga", então que seja. Mas não espere que eu fique aqui esperando por você. — Não espere que eu aguarde você decidir se tem culhão para assumir o que sente entre quatro paredes — ele disparou. — O que você está dizendo com isso? — estreitei os olhos, sentindo uma pontada de ansiedade corroer meu estômago. — Estou dizendo que, a partir de amanhã, eu sou apenas o assistente da Jasmine. E você é apenas o Chef arrogante que me dá ordens. — Se eu decidir sair com outra pessoa, ou se eu decidir experimentar Nova York com um homem de verdade... você ficará calado. — Você não tem o direito de dizer uma única palavra sobre quem eu escolho para colocar na minha cama — Luccas finalizou. A ideia de outro homem tocando a pele de Luccas, sentindo o aperto daquela entrada ou ouvindo seus gemidos, fez meu sangue ferver. Uma onda de ciúme possessivo, irracional e doentio subiu pela minha garganta, nublando a minha visão em tons de escarlate. — Você não vai tocar em ninguém — rosnei, segurando o braço dele com uma força que certamente deixaria marcas. Luccas olhou para a minha mão em seu braço e depois sorriu. Foi um sorriso vitorioso, c***l e carregado de triunfo. — Ou o quê, Enzo? Você vai me proibir? Com que autoridade? A de amante secreto ou a de covarde profissional? — Me solta agora — ele ordenou, com uma autoridade que me fez obedecer por puro choque térmico. Eu o soltei como se ele tivesse se transformado em brasas. Luccas ajeitou a roupa, deu as costas e caminhou para a saída. A porta giratória bateu, deixando-me sozinho com o cheiro da nossa luxúria e o vazio ensurdecedor da minha própria blindagem. Os dias seguintes foram um inferno pessoal. Luccas cumpriu cada palavra da sua promessa de me tratar como um estranho. Ele aparecia no Aurora para as reuniões, mas me tratava com uma polidez gélida que me deixava à beira de um colapso. Ele não me olhava nos olhos. Não buscava meu toque. Ele agia como se a noite na cozinha tivesse sido um delírio meu. O pior, no entanto, veio na sexta-feira, quando a realidade me atingiu como um trem de carga em alta velocidade. Jasmine organizava um coquetel para um novo cliente no lounge. Eu estava na cozinha, mas meus olhos vigiavam as câmeras. Vi Luccas conversando com um dos designers da equipe de Alex. Um cara jovem, bonito, que não parava de tocar o braço dele. A visão deles dois juntos fez minha mão tremer enquanto eu finalizava um carpaccio de salmão para o evento. A faca escorregou, cortando profundamente a ponta do meu dedo. O sangue vermelho vivo manchou a carne branca do peixe. Eu m*l senti a dor física. A dor era interna, um soco no estômago ver Luccas inclinar a cabeça para ouvir o estranho. Era o mesmo movimento que ele fazia quando eu sussurrava obscenidades e promessas pecaminosas no seu ouvido. — Chef, você está bem? — meu sub-chef perguntou, notando o sangue escorrendo pela bancada de inox. — Estou ótimo — sibilei entre dentes, enrolando um pano no dedo e saindo da cozinha com passos pesados. Eu não consegui me conter. Atravessei o salão com a dólmã suja de sangue e uma expressão de quem estava pronto para matar. Parei diante de Luccas e do designer, minha presença apagando o brilho das conversas ao redor com a minha aura de fúria. — Jasmine está te procurando, Luccas — menti descaradamente, minha voz saindo como um trovão baixo e ameaçador. — Agora. O designer me olhou de cima a baixo, confuso com a minha agressividade. Luccas, no entanto, apenas arqueou uma sobrancelha. Ele tomou um gole de seu drink, os olhos fixos nos meus, desafiando cada grama da minha autoridade fingida de patrão. — Ela pode esperar cinco minutos, Chef Romano — Luccas disse, enfatizando meu título como se fosse um insulto. — O Julian estava me contando sobre as festas no Brooklyn. Parece que perdi muita coisa ficando trancado em cozinhas. — Luccas... — comecei, o aviso implícito na minha voz vibrando com a promessa de uma punição severa. — Julian, me dê um segundo? — Luccas sorriu para o cara, um sorriso que deveria pertencer apenas a mim e a mais ninguém. — O Chef Romano parece ter um problema urgente com o cardápio. Ou talvez seja apenas um problema com o ego dele. O designer se afastou, e assim que ficamos sozinhos em um canto escuro do lounge, eu o prensei contra a parede com força. A proximidade era uma tortura. O cheiro dele, misturado ao gim do drink, me deixava completamente fora de órbita. — Você não vai com ele a lugar nenhum — sibilei, meu corpo colado ao dele, meu m****o reagindo à provocação. — Você é meu, Luccas. Entendeu bem? Meu — afirmei, minha voz falhando pela intensidade do desejo possessivo. Luccas empurrou meu peito, criando um espaço mínimo para me olhar com um desprezo que me rasgou de cima a baixo. — Eu não sou seu, Enzo. Você deixou isso bem claro. Você me usou e me descartou assim que gozou naquela bancada. — O Julian é interessante, é livre e, acima de tudo, ele não tem medo de me olhar na frente de todo mundo. — Ele não sabe como te tocar... ele não sabe o que você gosta... — eu estava desesperado, a linguagem ficando crua. — Eu senti você se derretendo para mim. Senti você implorando para eu não parar enquanto eu enfiava meu p*u fundo em você! — Aquele cara não vai te dar um décimo do prazer que eu te dou — despejei, com a respiração ofegante contra o rosto dele. — Ele pode não me dar o que você dá, Enzo — Luccas sussurrou, a voz carregada de uma mágoa corrosiva e letal. — Mas ele vai me dar o que você nunca terá coragem de oferecer: a verdade e o respeito. Agora, saia da minha frente. Luccas passou por mim, deixando-me parado no meio do meu restaurante, sentindo-me mais vulnerável do que nunca. A minha blindagem não estava apenas rachada. Ela estava derretida, e o metal líquido estava queimando tudo o que eu construí. Pela primeira vez em anos, eu não sabia o que fazer. O mestre do controle estava perdendo a única coisa que importava. E o pior era saber que a culpa era toda minha, por ser um covarde que não sabia lidar com a própria liberdade.
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