ZAFIRA
A voz do meu pai ecoa nos meus ouvidos. É incrível como, apesar do tempo desde a última vez que nos vimos, eu ainda conseguia identificá-la entre mil. Aquela voz... agora soa triste, abafada. Não é a voz do homem forte que eu sempre conheci. Algo está errado com ele. Eu consigo sentir.
— Pai... É tudo o que consigo dizer. Estou nervosa. Tantos anos sem falar com ele, e agora, do nada, ele me liga.
— Minha linda menina... você não sabe como me sinto feliz quando ouço a sua voz.
-Pai, por que...
— Desculpe por ter quebrado a minha promessa, filha. Ele interrompe com um suspiro. — Mas eu precisava falar com você... Preciso que você volte para casa.
As suas palavras me fazem arregalar os olhos.
— Voltar para casa? Pai, você sabe que eu não quero voltar.
— Eu sei, meu amor, mas... seu avô... Ele diz, com a voz ainda mais contida.
— O que aconteceu com o vovô? Pergunto, preocupada. Ele foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Apesar de ter sumido por três anos e sentir muita falta deles, nunca os esqueci.
— Meu amor... papai está morrendo. Ele não tem muito tempo. O último desejo dele é te ver... mais uma vez.
Sinto como se o meu coração estivesse se partindo em mil pedaços.
— Eu entendo... Sussurro, com milhares de pensamentos correndo pela minha cabeça. Mas apenas um prevalece: é hora de contar a verdade.
— Pai... amanhã é a festa de promoção do Mateus. Tenho pensado que é a hora certa de contar tudo a ele.
— Você vai contar a ele que é Zafira Ferragotti?
— Sim, pai. Eu sei que o Mateus me ama e tenho certeza de que ele entenderá por que escondi a minha verdadeira identidade dele.
— Certo, filha. Se decidir... você vem depois da festa?
— Sim. Mas eu quero que você esteja lá, pai. E traga muitos presentes para a família do Mateus. Digo, tentando parecer animada, mesmo que por dentro eu me sinta tremendo.
— Ouvi dizer que não estão te tratando bem. Diz ele asperamente. Eu sabia. Sempre soube que ele nunca me perderia de vista. Certamente algum guarda-costas está me seguindo sem que eu saiba.
— É verdade, pai. Mas eu amo o Mateus e gostaria de recomeçar com a família dele. Talvez, quando souberem quem eu realmente sou, me aceitem.
— O que você quiser, filha... só espero que você volte a tempo de ver o seu avô vivo.
Depois de desligar, volto para a mesa. Aparentemente, eles estavam falando de algo importante, porque assim que entro na cozinha, os três ficam em silêncio. Até o Mateus. Será que estão me escondendo alguma coisa? Ou será que sou eu que estou paranoica? Sei que a minha sogra e a minha cunhada não gostam de mim, mas não acho que elas seriam capazes de colocar o Mateus contra mim...
— Vamos, querida, sente-se. Quero te contar uma coisa. Diz Mateus, apontando para a cadeira ao lado.
— O que houve?
— Minha querida Zafira... Lamento informar que a festa da minha promoção foi cancelada. Será na semana que vem.
Eu sabia. Algo estava acontecendo. Não consigo acreditar. Eu realmente achava que o Mateus era diferente da família dele... Eu estava errada. Deixei a minha própria família por alguém que não vale a pena. Cancelar a festa? Ele nem sabe que eu organizei aquela festa. Por ele! Me sinto humilhada. Como se a minha dignidade tivesse sido destruída.
— Conte a verdade a ela, Mateus. Vamos acabar com esse jogo. Exclama a minha sogra, com aquele olhar cru*el que ela nunca se dá ao trabalho de esconder.
— A verdade? Pergunto, perplexa. — A que verdade sua mãe está se referindo, Mateus?
O covarde permanece em silêncio. Ele sempre foi assim: escondido atrás dela. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, a minha sogra interferiria no nosso casamento.
— Escute com atenção, querida... você sabe que eu te amo. Que você é a mulher da minha vida. Diz ele, inclinando-se para segurar as minhas mãos. Mas eu me afasto rapidamente. — Mas... Ele hesita.
— Você não tem qualificação para ser a esposa do vice-diretor do Grupo Ferragotti. A minha sogra cospe com absoluto desdém.
— Eu não tenho o quê? Sustento o seu olhar, sem conseguir mais esconder a minha fúria. Esta família esgotou a minha paciência. Se eles acham que podem esmagar Zafira Ferragotti, estão redondamente enganados.
— Você não tem qualificação... olha só para você. Cospe a sua mãe com desgosto, me examinando da cabeça aos pés. — Você é uma ninguém. Uma empregada que faz as nossas tarefas, uma simples dona de casa que provavelmente nem terminou o ensino médio. Mateus precisa de alguém do seu nível, alguém que possa se igualar à elite com quem ele agora conviverá.
Não acredito no que estou ouvindo. Encaro Mateus, procurando um sinal de discordância no seu rosto. Quero pensar que ele não compartilha dessa opinião... mas seu silêncio diz muito. Ele está confuso, sim, mas também é um covarde. Sempre foi.
— Mateus... me diga que você não pensa o mesmo. Sussurro, mesmo sabendo que estou pedindo demais. Uma parte de mim ainda se apega à esperança... uma esperança que morre com a próxima frase.
— Escute-me, amor... você sempre será a minha esposa, eu te amo, mas... olhe para você. Não posso te levar a nenhum evento como esse. Diz ele, evitando me olhar diretamente.
Ele tem razão. Eu sei. Desde que me casei com ele e me dediquei completamente a servir a sua família, negligenciei tudo. Minha imagem. Minha essência. Esqueci quem eu era. Zafira Ferragotti. A herdeira. A empresária. A mulher que nunca se ajoelhou para ninguém. Fiz isso por amor. Por um amor que agora cospe na minha cara.
E se soubessem... se soubessem que a posição que Mateus alcançou foi graças a mim, graças às conexões que forjei silenciosamente, às portas que abri para ele, não estariam tentando me expulsar... estariam me implorando.
Mas é tarde demais. Zafira, a to*la apaixonada, morreu naquele momento.
— Escute-me, Zafira... Ele tenta me alcançar.
— Não me toque! Grito para ele, cheia de raiva e dor. — Você é um miserável. Assim como a sua mãe. Assim como a sua irmã. Eu dei tudo a você, TUDO, e em troca vocês me deram migalhas.
Lágrimas correm incontrolavelmente. Sinto-me quebrada. Traída.
— Era isso que você merecia. Diz a sua mãe, com um sorriso venenoso. — Só migalhas. Você não é ninguém. Mateus só agiu por caridade ao se casar com você. Você não é bonita. Você não tem dinheiro. Você não é nada.
As palavras dela me atingiram como chicotadas. E nesse momento, a campainha toca. A minha cunhada corre para atender. Não estávamos esperando ninguém... pelo menos eu não estava.
E então ela aparece: Vivian Morales.
Deslumbrante, com o seu cabelo impecavelmente penteado, o seu vestido de grife e aquele sorriso artificial que eu sempre achei insuportável. Filha de Alberto Morales, sócio do Grupo Ferragotti. Amiga de infância do Mateus. E, claramente, a candidata perfeita para me substituir.
Com as minhas roupas surradas e um rosto sem uma gota de maquiagem, não consigo competir com ela. Talvez na minha época, com o meu estilista, meus vestidos e minhas joias, eu pudesse tê-la enfrentado. Mas agora...
— Olá, querida família. Ela cumprimenta com fingida doçura, e quando me vê, franze o nariz. — Vocês nunca vão se vestir decentemente? Você parece mendiga.
O comentário dela não me magoa. O que me devasta é a expressão do Mateus. A sua frieza. A sua falta de reação. Ele, o homem por quem deixei o meu mundo, o homem que se tornou alguém graças a mim, não move um músculo na minha defesa.
— Deixe-a em paz, Vivian. Intervém a minha cunhada. — Não se preocupe. Em breve você será a dona desta casa. Não precisará mais vê-la.
— O que... o que estão dizendo? Pergunto, perplexa. — Mateus...
Mas ele não diz nada. Nada. Um covarde até o fim.
De repente, a sua mãe se aproxima de mim, me agarra pelos cabelos e me joga violentamente no chão. A humilhação é total. E como se não bastasse, a minha cunhada me entrega alguns papéis.
São os papéis do divórcio.
Uma cláusula se destaca: um milhão de dólares em troca do meu silêncio e do meu desaparecimento da vida dos Torres. Eles querem me comprar. Tiraram tudo o que eu era e agora querem me silenciar.
— O divórcio? Mateus... você quer se divorciar de mim? Pergunto, com a voz embargada e as lágrimas lutando para escapar dos meus olhos. Não consigo entender. Ele não era um mau marido, pelo contrário... Tenho certeza de que ele ainda me ama. Mas ele sempre colocou o dinheiro acima de tudo... até de mim. — Diga alguma coisa, seu desgraçado! Grito, sem conseguir conter a raiva.
Ele me encara por alguns segundos, como se tentasse se convencer do que está prestes a dizer.