Marcelo On
Muitos dias se passaram desde a minha conversa com o Cristian e a cada dia que passa eu penso cada vez mais que preciso esquecer o que aconteceu e seguir em frente. Ele é hétero e logo vai arrumar uma namorada e eu não quero ficar sofrendo ao vê-lo feliz por aí com alguém.
Essa última semana foi especialmente complicada já que, por conta dos ensaios para o festival escolar, nós estamos interagindo bastante, mas eu não posso me deixar levar.
Eu fiquei muito intrigado com a sensação de nostalgia que tive quando encontrei com o Ítalo e por isso decidi que estava na hora de ligar pra ele e ver no que daria. Quem sabe ele é o cara certo pra mim e, assim eu vou conseguir me desligar do Cristian.
Não combinei nada com as meninas no sábado então acho que vou ligar pra ele e ver se podemos fazer alguma coisa. Vai ser bom sair um pouco da rotina.
Tomei coragem e liguei pra ele perto do meio dia, ele pareceu ficar muito contente com a minha ligação e disse que passaria perto das dezoito horas em casa pra me buscar.
Passei o dia todo ansioso, pois eu queria muito falar sobre ele com as garotas, mas resolvi que vou esperar para ver no que vai dar primeiro e depois eu comento com elas sobre isso.
Separei as melhores roupas que eu tinha, afinal ele parece ser um cara bem de vida pelo carro bacana que dirigia naquele dia, então eu preciso estar bem vestido se ele for me levar em algum lugar chique.
Não ligo pra esse lance de dinheiro e status social, claro que dinheiro sempre ajuda, isso não se pode negar, mas pra mim não é o que importa quanto se trata de sentimentos.
Eu estava terminando de me vestir quando a campainha tocou e, era ele. Eu fui até a porta e a abri, dando espaço para que entrasse. Ele estava muito lindo e, ao contrário do que pensei, ele não estava usando social como no outro dia. Estava com um visual bem leve e jovial, com uma calça jeans, camisa preta e tênis.
- Oi ítalo. Eu só vou colocar o tênis e já podemos ir.
- Oi... Você está mais bonito ainda hoje, sem toda aquela maquiagem borrada.
- Obrigado, mas não é pra tanto. Fique à vontade, eu já volto.
Fui até o quarto, coloquei o meu tênis e já ia saindo quando me lembrei de algo importante que estava faltando. Sei que é superstição, mas ele sempre funciona então, é claro que vou usá-lo hoje. Voltei para a sala e ele estava olhando as fotos da família.
- Desculpa perguntar, mas pelo que reparei você mora sozinho. Seus pais estão...
- Não! Meus pais estão bem vivos se for essa a sua dúvida. Eles se mudaram por causa do trabalho do meu pai e eu preferi ficar aqui. Podemos ir?
- Claro, vamos lá. Gostei do colar.
- Eu só uso em ocasiões especiais. Ganhei de alguém que me ajudou muito no passado e mesmo eu não me lembrando quase nada dessa pessoa, eu cuido dele com muito carinho.
- Fico muito feliz em saber que sair comigo hoje é uma ocasião especial.
Ele me levou em um restaurante não muito chique e eu achei isso muito legal da parte dele, afinal eu realmente não iria me sentir bem e nem iria saber como me portar em um lugar cheio de frescuras.
Nós conversamos bastante e eu contei o motivo de eu ter acabado fazendo aquelas fotos, deixando a parte do Cristian de fora, claro. Ele achou tudo muito divertido e também contou um pouco sobre a sua vida.
- Então você mora sozinho desde os quinze anos. Qual é a história por trás disso? Claro, se quiser falar sobre isso né.
- Não tem nada de mais. Eu sempre fui muito independente e o meu pai não reagiu muito bem quando eu contei pra eles que era homossexual. O clima em casa ficou bem estranho e para não gerar mais conflitos desnecessários eu pedi para que eles me emancipassem e comecei a morar sozinho depois disso. Minha mãe mexeu uns pauzinhos e, com jeitinho, fez o meu pai colocar um apartamento que ele mantinha alugado, no meu nome. Eu sou orgulhoso, mas também não sou burro, é claro que eu aceitei. Na época eu não tinha condições de pagar aluguel, resumindo, eu estudei e trabalhei bastante, me dediquei e agora tenho meu próprio negócio e posso ter o que eu quiser.
- Nossa que incrível. Você não tem mais contato com a sua família?
- Só com meu irmão mais novo e minha mãe, mas isso também é muito raro. Eles estão morando em outra cidade por causa dos negócios do meu pai. E você? Como foi quando contou aos seus pais, ou eles ainda não sabem?
- Eu já contei e, como todos os pais, eles ficaram tristes com minhas escolhas, mas com o tempo eles se acostumaram e agora minha mãe até reclama que eu nunca tenho novidades para contar pra ela.
- Acho que logo ela vai parar de reclamar então.
- Quem sabe...
O clima ficou meio estranho com essa declaração e ele, percebendo que eu fiquei sem graça pediu a conta. Depois que saímos de lá ele disse que tinha um lugar muito bonito que queria me mostrar. Ele dirigiu por alguns minutos e quando chegou em um determinado lugar parou o carro e tirou, do porta luvas do carro, uma bandana que uso em mim como venda.
- O que vai fazer? Por que parou aqui?
- Calma, eu não vou fazer nada estranho, eu só quero que você coloque isso nos olhos para venda-los. Eu juro que não vou fazer nada de estranho, mas se você ver o caminho não vai ter graça. Posso?
- Tá legal, eu vou confiar em você hein!
Ele vendou os meus olhos e voltou a dirigir. Pelo que senti do caminho, estávamos subindo e depois de uns dez minutos ele parou o carro e desceu.
- Já posso tirar a venda?
- Ainda não. Eu te ajudo a descer, confia em mim. Você vai adorar ver isso.
Ele me ajudou a descer e me conduziu até o lugar que queria e quando ele tirou a venda eu fiquei encantado com aquela visão espetacular. Eu já havia ido naquele lugar antes e achei fantástico, mas durante a noite fica ainda mais lindo.
O lugar em questão é um ponto turístico, mas quem mora aqui acaba se acostumando e nem dá muita atenção. Fazia muitos anos que eu não subia aquele morro, tanto que está tudo bem diferente de como eu me lembrava. As pessoas vêm bastante durante o dia, pois no alto do morro tem uma rampa onde eles saltam para praticar voo livre.
Andei até a beirada da rampa e pude sentir o vento forte e gelado que soprava e um frio na barriga de olhar para baixo e só ver escuridão, mas quando se olha para o horizonte é fascinante. Todas aquelas luzes minúsculas reluzindo ao longe, aquele silêncio e o céu estava perfeito também, as estrelas pareciam estar caprichosamente mais brilhantes do que nunca naquela noite.
- Nossa, eu nem me lembro de quando foi à última vez que estive aqui. Você estava certo, eu adorei isso Ítalo.
- Esse lugar é realmente lindo, mas com você aqui comigo ele ficou ainda melhor.
- Não fala essas coisas assim que eu fico sem graça...
Eu não sabia como reagir em situações assim. Eu nunca namorei e nem saí assim com ninguém antes, então eu não sei o que falar e ele, percebendo o meu constrangimento partiu para a solução mais prática nesses casos e que me deixou mais sem graça ainda depois.
Ele se aproximou e tranquilamente se apossou dos meus lábios, me envolveu com seus braços colando nossos corpos e eu pude sentir que, assim como o meu, o seu coração batia muito rápido. O calor do seu corpo e o seu perfume são muito gostosos e senti como se não fosse à primeira vez que eu sentia aquele calor aconchegante, mas o sabor do seu beijo é diferente de qualquer um que eu já provei até hoje.
Assim como quando beijei o Cristian pela última vez, senti o meu corpo todo se arrepiar e a minha respiração foi ficando cada vez mais pesada a cada enroscar de nossas línguas. Ele findou o beijo e eu me afastei um pouco, ambos estávamos ofegantes e ele, visivelmente parecia querer mais que isso, mas eu não posso deixar as coisas esquentarem mais que isso logo no primeiro encontro.
- Acho melhor me levar pra casa por hoje.
- Você não gostou? Eu fiz algo de errado?
- Não é isso Ítalo. A noite foi maravilhosa, mas acho que temos que parar por aqui. Não quero ir rápido demais, entende?
- Claro! Desculpa se eu te assustei, mas você é tão encantador que eu não consegui resistir.
Depois daquilo ele me levou de volta. Ficamos um tempo conversando no carro em frente de casa e para evitar que as coisas esquentassem outra vez achei melhor dar a noite por encerrada. Me despedi dele com um beijo demorado e um belo sorriso, ele esperou até que eu entrasse e depois foi embora.
Essa noite foi incrível, ele é lindo, gentil e muito carinhoso. Com todos esses atributos fica difícil resistir e talvez seja a forma mais fácil de esquecer o que sinto pelo Cristian, se bem que fica um pouco difícil com eles sendo parecidos. Talvez seja por causa da sua leve semelhança física que eu me sinto tão confortável quando estou com ele. Ambos têm os cabelos e olhos escuros e um jeito gentil e cativante de falar.
Vai ser complicado dormir com todos esses pensamentos e principalmente com essa vontade incontrolável que estou de compartilhar o que aconteceu hoje com as meninas. Tenho que me controlar, pois só vou falar pra elas se e quando eu me acertar com ele.
Apesar da ansiedade, eu dormi bem e quando acordei pela manhã e peguei o celular foi inevitável não sorrir, havia uma mensagem do Ítalo, mas quando abri para ler fiquei um pouco inseguro. Ele dizia que surgiu um imprevisto e ele teria que viajar a trabalho, por isso teria que ficar uns dias fora, mas que quando voltasse entraria em contato pra gente sair outra vez.
Sei que posso estar errado, mas receber essa mensagem me deixou com um pé atrás. Ele é um cara bonito, rico e pode ficar com qualquer garota ou garoto que quiser. Ele pode ter achado que eu sou muito careta por ter barrado suas investidas e resolveu dar uma desculpa para se afastar e depois dizer que não quer mais nada.
Respondi que tudo bem e que iria ficar aguardando o seu contado. Se ele não quiser mais nada comigo eu vou saber em alguns dias e se for pra ser ele, vai ser. Vamos deixar o destino agir e ver no que vai dar.
Marcelo Off
=======xXx=======
Cristian On
Duas semanas se passaram e está difícil ficar perto dele e controlar a vontade que tenho de tomar posse daquela boca deliciosa que parece ficar sempre me chamando. Eu pensei em várias situações para usar como desculpa para me declarar pra ele, mas nenhuma parecia boa, até que o professor chegou falando sobre o festival cultural da escola.
Acácio - Eu já estou na sala cambada, voltem para os seus lugares. Hoje vamos ocupar essa aula para resolver o que vamos fazer para o festival cultural desse ano. Como sou o professor responsável por essa turma, nós vamos ocupar as minhas aulas, a partir de hoje, para organizar o que for preciso. Primeiro de tudo, nós temos que decidir qual vai ser o tema e depois vamos distribuir as funções de cada um. Então, qual são suas sugestões?
Gabriel - Poderíamos fazer uma casa m*l-assombrada, eu adoro tocar o terror.
Liam - Que tal um café cosplay? Isso sempre faz sucesso também.
Nina - Poderia ser também apresentações de teatro variadas.
Cristian - E se juntássemos tudo isso? Na escola onde eu estudava antes, nós fizemos algo parecido e foi um sucesso. Podemos fazer um café m*l-assombrado com todos fantasiados e em alguns momentos fazemos encenações de algum clássico da literatura ou algum conto de fadas.
Samira - Adorei a ideia. Podemos encenar só alguns trechos mais marcantes. Eu acho que ficaria ótimo.
Acácio - Todos estão de acordo? Então está decidido, agora vamos distribuir as funções de cada um.
Nina - Eu posso fazer os roteiros para as apresentações, sou muito boa nisso.
Samira - Eu posso fazer parte das encenações, eu adoro atuar.
Cristian - Eu fiz um papel nas apresentações na minha outra escola, então posso encenar também, se ninguém se opuser, é claro.
Mário - Por mim não tem problema, mas eu acho que todo mundo vai concordar comigo que só tem uma pessoa que pode representar o papel da princesa nessas encenações.
Liam - Isso mesmo. Só concordamos se a nossa Hime fizer esse papel.
Cristian - Eu acho que eles estão falando de você Marcelo.
Marcelo - Eu? Não, nem pensar. Tem tanta garota bonita pra fazer esse papel, por que tem que ser eu?
Gabriel - Desculpa Hime, mas você é voto vencido. A maioria ganha e a maioria vai votar para que você seja a princesa. Pode colocar aí professor Acácio, o Cristian vai representar o Príncipe e o Marcelo a Princesa.
Marcelo - Qual é pessoal... Cristian? Tudo bem por você mesmo?
Cristian - Vai ser uma honra atuar ao seu lado, minha doce Hime.
Marcelo - Ah cara, fala sério... Já que não tem jeito eu concordo então né.
Acácio - Não esperava que fosse ser tão fácil e rápido decidir isso. Então, Nina prepare os roteiros e avise quantas pessoas vai precisar, além do casal de príncipes ali para as encenações e o restante do pessoal fica encarregado dos cenários, roupas e do menu do café. Mãos à obra, temos só duas semanas para deixar tudo pronto.
Todos estavam muito empolgados e ansiosos para que chegasse logo o dia do festival, mas ninguém estava tão ansioso quanto eu. Essa ideia do café com teatro foi perfeita e sendo a Nina a encarregada dos roteiros, sei que tudo vai fluir a meu favor.
A Nina é mesmo incrível, pois no dia seguinte ela já estava com os roteiros todos prontos, só faltava decidir qual seria a ordem das apresentações para começar os ensaios.
Ela escolheu três gêneros e disse que queria que as apresentações fossem nessa ordem. Começaria com o drama de Romeu e Julieta depois uma comédia com Chapeuzinho Vermelho e por último, o romance com A Bela Adormecida. Parece que ela leu os meus pensamentos, pois essa última encenação seria a chave para tudo.
Eram encenações relativamente pequenas com algumas narrações da Samira e o restante eram só diálogos entre nós dois. Ensaiamos todos os dias na escola durante as aulas do Acácio e nos intervalos também. Nossa convivência está ótima, só que cada vez está mais difícil pra mim. Cada vez que ele sorri eu sinto meu rosto esquentar e tenho que me controlar para não fazer nada imprudente. Eu só quero que chegue logo o dia do festival para ver como ele vai reagir.
Cristian Off