A Primeira Jornada (Parte 2 )

1066 Words
O coração de Ayla batia acelerado quando atravessou o portão azul. Atrás dela, ainda podia ouvir o aceno animado de Pietro e sentir os olhares atentos de Helena e Ricardo. Mas, a cada passo, o som da rua ia ficando distante, e uma nova realidade se abria diante de seus olhos. O pátio da escola era grande, com chão de cimento gasto e algumas árvores que faziam sombra nos cantos. Havia crianças correndo, rindo, algumas sentadas nos bancos de madeira, outras disputando uma bola improvisada com meias velhas. O barulho era intenso: vozes infantis misturadas, passos apressados, gargalhadas, e até alguns choros discretos de crianças que, como Ayla, estavam pela primeira vez longe dos pais. A menina segurava firme a mão de Dona Clarice. A professora caminhava devagar, como se entendesse a importância daquele instante. — Está vendo, Ayla? — disse com um sorriso suave. — Aqui todas as crianças aprendem juntas. Algumas já sabem ler e escrever, outras ainda estão começando… mas todas, sem exceção, têm algo a ensinar umas às outras. Ayla olhava ao redor, maravilhada. Tudo parecia imenso, como se tivesse entrado em um mundo novo. O cheiro de giz vindo das salas, a pintura descascada das paredes, os desenhos coloridos colados nos murais — tudo aquilo era uma festa para seus olhos curiosos. Quando chegaram à sala de aula, Dona Clarice abriu a porta de madeira que rangia ao se mover. Lá dentro, carteiras de madeira alinhadas, um quadro n***o grande ao fundo e alguns mapas do Brasil e do mundo pendurados. Um vaso simples com flores de papel feito pelas crianças enfeitava a mesa da professora. Os alunos, que já estavam acomodados, se viraram para olhar a nova coleguinha. O silêncio tomou conta por alguns segundos. Ayla sentiu o rosto corar. — Crianças — anunciou Dona Clarice — hoje temos uma nova amiga. O nome dela é Ayla. Quero que todos a recebam com carinho. Alguns sorriram, outros apenas a observaram com curiosidade. Uma menina loira de tranças levantou a mão. — Professora, ela vai sentar do meu lado? — perguntou, empolgada. — Ainda não sei, Mariana. Vamos ver onde ela se sente confortável. Dona Clarice então levou Ayla até uma carteira vazia na segunda fileira. Ao se sentar, a menina alisou a madeira gasta da mesa, notando as marcas de lápis e arranhões deixados por outras crianças. Era como se estivesse tocando na história de todos que já haviam passado por ali. A primeira lição começou logo depois. Dona Clarice escreveu no quadro com o giz branco: **“A, E, I, O, U”**. — Quem se lembra das vogais? — perguntou. Mãos se ergueram no ar, e um coro animado de vozes repetiu as letras. Ayla observava atentamente, sentindo uma excitação dentro do peito. Era como se estivesse desvendando um segredo do mundo. Quando a professora pediu que cada um repetisse em voz alta, chegou a vez de Ayla. Ela respirou fundo, a voz saiu baixinha, mas clara: — A… E… I… O… U. Alguns colegas sorriram, e Dona Clarice bateu palmas de leve. — Muito bem, Ayla! Você aprendeu rápido. O coração da menina se encheu de orgulho. Pela primeira vez, sentiu que podia fazer parte daquele universo, que também poderia aprender como os outros. Durante a manhã, Dona Clarice contou uma história com ilustrações coloridas sobre um passarinho que queria aprender a voar. Ayla ouviu com atenção, seus olhos brilhando a cada palavra. Sentia-se como o passarinho da história: pequena, mas cheia de vontade de descobrir o céu. Quando o sinal do recreio tocou — um sino velho pendurado perto do pátio —, todas as crianças correram para fora. Ayla hesitou por um instante, sem saber o que fazer. Foi então que Mariana, a menina das tranças, se aproximou. — Vem comigo! — disse, puxando-a pela mão. — Vou te mostrar o pátio. Ayla a seguiu, com passos tímidos. Logo estavam perto de um grupo de meninas que brincavam de roda. Ayla foi incluída sem resistência, e, em poucos minutos, já girava e cantava junto com elas. O riso leve que escapava de seus lábios mostrava que o medo havia se transformado em alegria. Enquanto isso, Pietro, que estudava em outra turma, avistou a irmã no recreio. De longe, observou com um sorriso orgulhoso. Sentiu-se aliviado ao ver que Ayla não estava sozinha, que havia encontrado mãos amigas para segurá-la. No meio da brincadeira, Ayla parou por um instante para olhar ao redor. Crianças corriam de um lado para o outro, algumas jogavam bola, outras dividiam pedaços de lanche trazidos de casa. A menina percebeu que havia muitas diferenças entre elas: algumas tinham roupas novas, outras vestiam roupas tão remendadas quanto as dela; algumas pareciam cheias de energia, outras estavam sentadas sozinhas, cabisbaixas. Ayla então perguntou a Mariana, com ingenuidade: — Por que algumas crianças ficam sozinhas? Elas não querem brincar? Mariana deu de ombros. — Às vezes elas são tímidas… às vezes os outros não chamam. A resposta ficou ecoando na mente de Ayla. Ainda tão pequena, já começava a perceber que o mundo era feito de encontros e também de distâncias, de abraços e de silêncios. O recreio passou rápido. Quando o sino tocou novamente, todos voltaram para as salas. Dessa vez, Ayla entrou mais confiante, com passos firmes. Já não se sentia uma estranha; sentia-se parte daquele lugar. Dona Clarice percebeu isso e sorriu discretamente. Sabia que havia algo especial naquela menina — uma luz silenciosa que atraía atenção sem esforço. Ao final da manhã, quando a aula terminou, Ayla saiu correndo até o portão. Lá estavam Helena, Ricardo e Pietro, esperando ansiosos. — Mamãe! Papai! — gritou, correndo para os braços da mãe. — Eu aprendi as vogais! Helena a ergueu no colo, girando-a com alegria. — Eu sabia que você ia se sair bem, minha filha. Ricardo, emocionado, colocou a mão no peito. — Ela está crescendo… tão rápido. Pietro a abraçou em seguida, orgulhoso. — Eu vi você brincando com as meninas! Você já fez amigas, não foi? — Sim! — respondeu Ayla, sorridente. — Eu tenho uma amiga chamada Mariana! A família caminhou de volta para casa, ouvindo Ayla contar, entre risos e gestos animados, cada detalhe de sua primeira manhã. Para Helena e Ricardo, aquelas palavras simples eram como tesouros, porque mostravam que, apesar da pobreza, estavam dando à filha a chance de um futuro. ---
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