- Não acredito que você fez uma nevasca se formar dentro da sala e ainda trancou todos lá dentro, Cristal! – Mamãe grita comigo, fazendo uma pequena nuvem se formar em cima da cabeça dela pelo nervosismo. – O que tinha na cabeça? E se alguém ficar doente ou tivesse baixa resistência?! Que m***a, Cristal!
- Elsa, querida! Calma, vai congelar a sala. – Minha madrasta, uma dona de padaria que mamãe conheceu assim que nos mudamos, estava vestida com um casaco de frio bem quente, já prevendo que mamãe ia congelar tudo por estar com raiva. Ela pega na mão da mulher com luvas e a puxa devagar para que se sente ao seu lado no sofá recém congelado. – Por que não ouvimos o lado dela?
Reviro os olhos, me ajeitando na poltrona que mantenho fora do controle de tempo de mamãe, e continuo lixando minhas unhas. Nancy era irritantemente legal e sempre tenta ficar do meu lado quando a rainha do gelo decide surtar por algo que eu fiz. Não é que eu não goste dela, pelo contrário, eu sinto que ultimamente é só com ela que eu consigo conversar sobre tudo o que acontece com minhas emoções, mas as vezes, eu só quero que tudo se exploda.
- Ouvir o lado dela, baby? Não tem um lado dela! O professor disse que ela praticamente começou um debate e simplesmente congelou tudo.
- Parece familiar, mamãe? – Solto baixinho com ironia, mas acho que mamãe chegou ao limite e a lixa congela e se quebra na minha mão, me assustando e me fazendo olhar para ela surpresa.
- Chega! Cristal eu sinceramente me cansei dessa sua irritação e sei lá mais o que! Não sei o que posso mais fazer!
- Me mande para casa! É isso que eu quero! Chega de fingir que nos encaixamos nesse mundo cheio de escuridão, desconfiança e medo!
- Não! Você não sabe... de nada! Você prometeu e não cumpriu e eu tô cansada dessa sua hostilidade a troco de nada.
- Elsa...
- Você quer ir para casa? Para o reino? Ótimo, mas vai começar o ano escolar na escola de Auradon e de lá, você só vai ser expulsa para ilha dos vilões. - Abro a boca com a informação, mas não tenho nem uma represália, nenhuma resposta e vejo as lágrimas de gelo que mamãe derruba antes de se virar para sair. – Arrume suas coisas, vai passar o resto do inverno no castelo.
Fico parada depois que ouço a porta do quarto delas se fechar. Não achei que ela realmente fosse fazer algo e isso me deixou pela primeira vez com culpa. Eu não preciso ser assim, mas algo dentro de mim sempre me trai e agora, eu vou ter problemas de verdade se não me comportar. O que fazer? m*l percebo que Nancy está tentando falar comigo, mas formei um casulo de gelo e escuridão ao meu redor e ela não consegue passar e nem quero. Essa parte de mim... nunca quero mostrar a ninguém. A parte f**a e escura que tenho que conter a cada segundo. A parte que machuca e que eu tento nunca deixar que saia.
- Cristal! Pare! Cristal! Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem! – A voz de Nancy aos poucos passa pelo meu escudo e quando deixo tudo cair em estalactites negras ao meu redor, ela suspira e passa por cima de tudo com cuidado e assim que chega até me mim, se abaixa, ficando em minha frente. – Posso te abraçar?
Nancy tinha tudo para sair correndo, há tempos, mas não o fez. Fico feliz por minha mãe ter encontrado alguém tão boa assim, pelo menos ela não ficará sozinha quando...
Fico no abraço por um tempo até que consigo abrir um sorriso para Nancy, que retribui com carinho e pergunta se quero ajuda para arrumar tudo, o que aceito de imediato. Não queria passar o tempo que me resta aqui brigada com minha mãe, mesmo porque depois de um banho e percebendo que estou pronta e o motorista está pronto para me levar de volta para Potentia, eu sei o que vai acontecer. Não vou voltar.
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A verdade é que me diverti como nunca pelo resto do tempo que eu tinha.
Tia Ana e tio Kris são os melhores e mesmo que mamãe tenha mandado que me deixassem de castigo por um tempo, no dia seguinte já estava montando a pista de patinação de gelo no pátio do palácio e me divertindo com Olaf, vendo a Rainha de Arendelle caindo de b***a no chão várias e várias vezes. Tenho que admitir, tia Ana é persistente e quando comentei isso com tio Kris, ele gargalhou e depois de bagunçar meu cabelo como sempre, disse que aquilo era teimosia e que eu puxei dela. Congelei a cerveja dele de proposito, mas sai rindo porque se eu tinha puxado qualquer coisa de tia Ana, eu me orgulhava.
Um dia antes de partir para escola, enquanto arrumava minha mala de novo, alguém bate a porta, me tirando de meu devaneio.
- Cristalina? Precisa de alguma coisa? – Tia Ana entra devagar, vendo que congelei o quarto. Aconteceu durante a noite, em um dos meus pesadelos, mas ao contrário das outras vezes, onde eu descongelei tudo antes que pudessem ver, meu humor não me deixou desfazer, me sentindo mais segura daquela forma. Vejo minha tia procurando um jeito de sentar e com uma risada, descongelo minha cama em um balançar de mãos, a vendo se acomodar. – Outro pesadelo?
Deixo minha mala pronta perto da porta e me deito na cama, colocando minha cabeça no colo de minha tia, que começa um carinho em meus cabelos, me confortando.
- Acho que foi o nervosismo por começar em um lugar novo. Não sei.
- Querida, eu sei o que pretende, e te imploro para que não o faça. – Tia Ana me pega de surpresa, e olho para cima, a vendo deixar seu olhar perdido em um floco de neve grande tomando uma parte da parede. – Sei que você se fecha, mas não consigo entender por que você faz isso. Não deixa ninguém se aproximar, não abre o coração.
Não respondo, só fecho os olhos, aproveitando o carinho. É complicado até mesmo para mim entender, mas eu deixo essa parte bem fechada e não quero abri-la. Não posso e não vou.
- Desculpe, tia. – Não percebo o momento que durmo, mas pelo menos, não tenho pesadelos e agradeço por Ana ficar comigo.
No dia seguinte, descendo as escadas com Sven ao meu lado, não consigo deixar de sorrir. Encontrando meus tios e me despedindo de alguns ajudantes, entrego minha bolsa para o motorista e me viro para me despedir.
- Até agora não entendo como uma rena desse porte pode andar livremente e conseguir chegar ao terceiro andar do castelo. – Digo recebendo um abraço de urso de tio Kris que ri.
- Ora Cristal, eu quis me despedir! – Meu tio como sempre estranho faz a “voz” de Sven, o que costumava me deixar com vergonha alheia, mas foi algo que me conquistou aos poucos e hoje em dia nem ligo. Voltando a voz normal e me soltando, ele dá alguns tapinhas carinhosos em seu fiel rena. – Sabe que ele te adora. Desde que vocês decidiram visitar os trols no meio de uma festividade.
- Não sei do que está falando! – Desconverso, mesmo que eu saiba bem do que ele está falando, sem Sven eu teria me perdido. Fiquei de castigo por dois meses, ainda mais por ter conquistado a rena com cenouras, convencendo a me levar de fininho. Faço carinho em Sven que se abaixa para facilitar. – Vou sentir sua falta! Rena definitivamente é melhor que gente, sabe?
- Você não presta, princesa! – Reviro os olhos para Olaf que está na minha perna esperando um abraço.
- Só você ainda me chama assim! Acho que depois de tanta m***a que eu fiz, fui deposta dessa posição.
- Língua, Cristal! – Minha tia Ana que até agora estava quieta vendo as interações, finalmente se pronuncia, chamando minha atenção. Dou um sorriso, mas vejo que ela chora, e me pego de repente engolindo um bolo que sobe pela minha garganta. Um abraço dela e preciso olhar para cima, respirando fundo. – Não faça isso. Eu imploro.
Me separo com um sorriso triste, e sei que ela entende, que só um milagre vai me fazer mudar de ideia. Tio Kris acha que a tristeza é pela minha partida e nos puxa de novo para um abraço.
Já para entrar no carro, me viro, olhando ao redor, guardando na mente a felicidade que passei ali. Respiro fundo mais uma vez e abro um sorrio maior, olhando para os que ficam.
- Amo vocês.
- Amamos você também, querida. – Tia Ana sorri e acena.
Olho pela janela até que o carro passe pela ponte mágica que liga os reinos e quando o portal se fecha atrás de mim, me sento corretamente, limpo minhas lágrimas que deixei cair e solto o ar. O clima dentro do carro muda subitamente e o motorista ao perceber, olha pelo retrovisor surpreso.
- T-tudo bem senhorita? – A fumaça que sai de sua boca e o tremor em sua fala, me faz diminuir o frio, ele não tem culpa da minha mudança de humor repentina.
- Sim, desculpe. Pode ligar o aquecedor se quiser.
Ele volta a se concentrar na estrada, enquanto eu olho para o lado de fora. Uma floresta verdejante, com pássaros cantando e o clima agradável do começo da primavera e tudo que eu consigo ver é o meu reflexo. A minha pele morena, ficando mais pálida, meus cabelos ondulados, de castanhos mudam para o branco e meus olhos piscam entre o pretos, brancos brilhantes e o mel. Minha cabeça está cheia, mas sei o que fazer e não vou hesitar. Meus planos não vão ser estragados por um monte de filhos de segunda e terceira geração de encantados.