Estou a quatro dias isolada nesse quarto e nem sinto mais as dores, a queimadura curou e a minha cabeça, não dói mais. Rose fala comigo pela porta fechada todos os dias, pelo menos umas três vezes, as outras duas também vem, mas só uma vez, o que eu acho mais do que o suficiente, mas não consigo dizer isso para minha bolinha rosa de alegria. Para minha surpresa, os cinco meninos de ouro também vêm e falam comigo pela porta, o que me surpreende, mas já desisti de entender esse povo daqui. Mesmo com toda essa atenção que julgo ser desnecessária, uma presença me faz falta. Não que eu fique pensando nessa possibilidade, mas Jimin não veio me ver e isso me causa um aperto no peito que não sei explicar e que não gosto.
As pontas dos meus dedos voltaram ao normal, assim como os meus olhos e a sensação gélida dentro de mim. Meu cabelo está preto ainda, mas não tentei mudar e até me acostumei com ele assim.
Finalmente abro a porta do quarto quando Rose vem me desejar boa tarde e isso a pega de surpresa por um momento, mas no próximo instante estou sendo esmagada por braços finos e um corpo magro. Não consigo afastá-la, o que leva a nós duas a ficar deitadas na cama juntas. Ela me conta tudo o que eu perdi e algumas fofocas que eu não faço questão de saber, ainda assim, fico quieta e presto atenção na minha bolinha de felicidade.
Como deixo a porta aberta, todos os que passam por ali, podem entrar, o que resulta no meu quarto cheio de gente. Ella e Jenny, sentadas na minha cama, tentando me dividir com Rose que não me larga. Jungkook, Yoongi e Namjoon estão dividindo o sofá de dois lugares, pequeno demais para eles e Jin está sentado na cadeira ao lado da minha cama, com Hoseok em seu colo.
Minha tarde é cheia de risadas, apertos e elogios a minha nova cor de cabelo, mesmo que isso cause uma pequena discussão sobre quem preferia meu cabelo branco e quem prefere o agora.
- O que importa é que ela fica linda de qualquer jeito. – Jungkook eleva a voz, dando fim a discussão, mas o que levanta zoações sobre nós dois. Ele olha para mim e percebe que eu fico confusa. – Eles não sabem que a gente terminou.
- Vocês terminaram?! – O grito em uníssono dos nossos amigos, me faz encolher nos braços de Rose, que me aperta mais sorrindo. E mais uma discussão começa... e ao olhar ao redor, para aquela confusão, só consigo pensar que minha mãe iria adorar me ver assim de novo. Cercada.
Só que as vezes, ficar cercada é exatamente meu medo.
Eu iria sair da enfermaria aquela noite, assim que a Fada Madrinha me liberasse, então aproveitei a tarde que me restou, para dormir mais um pouco, já que marcaram uma festa do pijama no meu quarto quando isso acontecesse e mesmo não querendo saber como os garotos iam escapar do lado deles para vir para o nosso, eu não me importei, só ouvindo Jenny dizendo para eles levarem pijamas de inverno, causando uma pequena confusão.
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O sonho sempre começava comigo correndo na floresta branquinha e terminava sozinha na floresta sombria.
Odiava isso.
Por que eu sempre tenho que terminar sozinha? Por que todos vão embora? Dói!
E por isso eu decidi mudar e afastar os outros antes que eu faça algo de r**m de novo. Não quero ver ninguém sofrer. E no meu pesadelo, dessa vez consigo ver dez pessoas me dando as costas e dói.
O quarto está congelado quando abro os olhos e me sento rápido demais, me causando até uma tonteira. Olho para baixo, e dessa vez não só os meus dedos estão cinza, como minha mão inteira, está. Tento controlar minha respiração e tranquilizar minha mente, mas não consigo, o terror está tomando conta de mim. Quase consigo sentir a escuridão me vencendo. Alguém bate na porta, mas não posso deixar que me vejam assim e nem que cheguem perto de mim, uso mais gelo para travar a porta e sei que as batidas agora ficam mais insistentes, meu nome é falado e eu me desespero.
Abro a janela e olho para baixo, só vendo o jardim no final. Preciso concentrar mais e tentar várias vezes, antes de conseguir fazer um escorrega, e o esforço me dá dor de cabeça, mas não paro, principalmente quando escuto a porta sendo arrancada. Por sorte o gelo ainda é grosso e vai demorar um pouco para eles conseguirem passar. Quando chego no chão, não tenho forças para desfazer o escorrega, e ao tocá-lo, o gelo parece se corromper e enegrece até que se quebre e estilhace no chão. Não fico para ver mais, e saio correndo, entrando na floresta e mesmo que meu medo de acontecer exatamente o que acontece no sonho, não paro de correr.
Fico olhando para água do lago sem desviar. Estou encostada na arvore perto da margem do lago e m*l percebo que a lua já está alta. Minha mente já se acalmou e me sinto no controle de novo, mas não consigo deixar aquela sensação h******l de terror e solidão de lado. Meus pensamentos me sabotam e me fazem acreditar que ninguém vai querer alguém como eu por perto, seja como colega, amiga ou até mesmo namorada.
Minhas lágrimas m*l caem e já cristalizam, e no meu colo e no chão à minha frente tem várias gotas de cristal espalhadas e vendo aquilo, tento me convencer a parar, porque já chorei demais.
Ouço por perto galhos e folhas secas quebrando, e o que acredito que sejam passos, se aproximam, mas não olho para trás e nem me interesso saber se é alguém não hostil. Para minha surpresa, os passos param perto de mim e a pessoa se senta encostada na arvore do meu lado. Um vento suave me traz o cheirinho adocicado de flores e mel, o que me surpreende e me faz olhar para ele.
Os olhos cor de mel, que secretamente desejei ver por todo esse tempo, me encaram de volta com tranquilidade e um sorriso discreto. Ficamos nos encarando por um bom tempo, sem querer estourar aquela bolha de quietude e paz que nos encontramos naquele momento, mas eu pisco e me forço a quebrar o contato, voltando meu olhar para o lago.
- Tenho a irritante impressão de que você é a única pessoa nesse mundo que pode me fazer recuar. – A risada baixa e curta que ele deu, me fez bufar e revirar os olhos, porque ele parecia já saber disso.
- E isso é r**m porque...
- É como um ponto fraco. Um que eu nunca tive e nunca quis ter. – Só de admitir aquilo em voz alta já me deixa desconfortável.
- Achei que Rose tivesse esse lugar. – n**o imediatamente, o que o faz levantar as sobrancelhas.
- Rose é meu ponto forte. Se alguém tocar nela, eu vou congelar a p***a do mundo inteiro sem nenhum remorso. – Toco no chão e congelo ao meu redor para dar ênfase ao que eu digo. – É diferente.
Um novo silencio começa, só com os sons da floresta atrás de nós e com o barulho da água a nossa frente. Ouço o suspiro forte que ele deixa sair e sei que ele quer perguntar, mas teme ouvir a resposta, assim como eu não quero dizer em voz alta a explicação que teria que dar. Ele se aproxima e pega uma das minhas lágrimas congeladas que estava em minha calça, soltando o ar ruidosamente, a curiosidade parece vencer.
- Por que eu seria seu ponto fraco? Você nem gosta de mim ou de me ter por perto.
Meu sorriso triste, o deixa sem jeito e ele volta a se encostar no tronco.
- Você e eu sabemos que isso que acabou de falar é mentira, Jimin. – Deixo sair, o vendo pegar uma pedra e jogar no lago.
- Diga. – Nossos olhos se encontram de novo por um curto momento, e ao mesmo tempo, desviamos. – Fale, para que eu possa entender como eu me tornei seu ponto fraco.
- Porque toda vez que eu olho para você e te vejo sorrir, sinto meu coração bater tão forte a ponto de doer, por isso odeio te ter por perto. Porque eu sei que toda vez que eu tentar te afastar, seu sorriso lindo e seu brilho vão diminuir e odeio isso. Porque depois de tudo o que eu fiz e falei, eu tenho motivos para acreditar que basta uma palavra minha e você estará lá para me ouvir e eu odeio saber disso. – As lágrimas caem e não as impeço, sabendo que Jimin não se importa com minha fraqueza. – É por isso que eu te afasto. Toda vez que você olha para mim, que te sinto perto de mim, parece que estou fraca, sem defesas, completamente despida, de corpo e alma! Odeio que me faça me sentir assim, Jimin. Então eu te pergunto, por que continua aqui?
O sorriso que ele abre, com direito a olhos fechados e tudo, só me fazem querer chorar mais alto e correr para longe. Isso, até ele responder, com a voz embargada e com a primeira lágrima escapando.
- Porque você precisa.
Jimin pula para o meu lado e me abraça com força enquanto choro e ele me acompanha, entre soluços e resmungos não compreensíveis. Não sei quanto tempo mais se passa, tenho noção que já deve ser de madrugada, mas não faço nada para me mexer para fora do abraço quentinho de Jimin e ele também não parece querer sair. Ficamos abraçados, olhando para lago, enquanto mantenho minha cabeça em seu ombro e ele ainda tem o braço por meu corpo, nos mantendo juntos.
- Sinto muito. – Digo depois de muito tempo em silêncio. E mesmo percebendo a tensão em seu corpo, ele não me solta.
- Tudo bem. – A resposta não me surpreende.
- Não, não está. – n**o, mas não me levanto. Não acho que consigo dizer isso para ele, olhando em seus olhos. – Eu sinto muito pelas grosserias, pelas vezes que o ignorei, pelas provocações que não deveria ter feito, você as entendendo ou não. Me desculpe, por brigar com seu melhor amigo e principalmente por ter ajudado a quebrar seu coração. Aquilo foi covarde e baixo até mesmo para meus padrões de maldade.
- Eu... – Ele me aperta mais no abraço e solta o ar. – Desculpo por tudo isso.
- Eu fiz de proposito, Jimin. – Levanto meu rosto para fitar o dele, mas ele não me encara, então só continuo. – Na noite da festa, eu sabia que você estava vendo e ouvindo, mas para ser sincera, meu alvo não era você, era...
- Taehyung. – Ele completa para minha surpresa e assente. – Eu sei. Quer dizer, eu achei, por um breve momento, que você não tinha nos visto e só estava fazendo o que queria, mas então quando eu me afastei, Taehyung ainda tinha os olhos verdes brilhantes e no escuro da floresta naquela noite, era certo que você o visse.
- Eu queria atingir ele indiretamente, magoando você, mas para ser sincera, me senti m*l assim que deitei minha cabeça no travesseiro naquela noite. – O suspiro que dou forma um nuvem gelada no formato de um coração partido a nossa frente, o que o faz soltar uma risada. – Nós não estamos mais juntos.
- Kookie conversou comigo e nós estamos bem. O problema aconteceu porque Tae ouviu parte da conversa e foi tirar satisfação com você e deu no que deu.
- Eu o provoquei, mas sendo justa, Taehyung me falou muita coisa que me magoou de verdade antes e durante a briga. – Admito, vendo que Jimin ainda mantem a postura tensa, mas concorda comigo.
- Taehyung sabe atingir as pessoas de verdade e na maioria das vezes se arrepende assim que percebe o que falou. – Mesmo não me olhando, ele parece concentrado em cada palavra que eu falo. – Ele me contou tudo e acho que você se enganou com uma coisa.
- Quanto a que?
- Taehyung, não gosta de mim como você deu a entender que acha que ele gosta. Somos almas gêmeas platônicas. Nada vai acontecer entre nós. Estávamos destinados a nos encontrar, mas não a nos apaixonar. Nós nos amamos, mas não romanticamente, desse jeito. Também não olho mais para Jungkook como antes, acredite. – Depois de respirar fundo, Jimin finalmente parece relaxar um pouco e olha para mim, com um sorriso. – E, eu nunca vou olhar para mais ninguém do jeito que eu olho para você, Cristal.