Capítulo 27 – O Dia em Que Henrique Ajoelhou Diante do Amor

986 Words
Henrique passou horas dirigindo sem rumo, repetindo os lugares onde já tinha procurado, até o corpo entrar no modo automático — uma mistura de desespero, culpa e uma força quase animal que vinha de um único pensamento: Eu preciso encontrar ela. Por fim, exausto, estacionou o carro no acostamento de uma estrada que levava às montanhas. Ele encostou a cabeça no volante e fechou os olhos, tentando lembrar de algo, qualquer coisa que pudesse indicar onde Isadora estaria. Foi então que lembrou de uma foto antiga. Isadora, anos antes, tirada numa varandinha de madeira com vista para montanhas. Um sorriso tímido. Um casaco largo. A legenda: “Meu lugar preferido no mundo.” Henrique levantou a cabeça. — Não… não pode ser… — murmurou. Mas podia. E ele dirigiu com o coração batendo tão forte que m*l conseguia respirar. A Pousada A estradinha que levava à pousada era estreita, sinuosa, cercada de árvores altas. O céu estava cinza, prestes a chover. Quando Henrique estacionou em frente ao chalé 5, as mãos tremiam tanto que ele m*l conseguia desligar o carro. Ele subiu os três degraus de madeira correndo e bateu na porta. Nada. Bateu de novo, a voz falhando: — Isa… por favor… abre a porta. Silêncio. Ele apoiou a testa contra a madeira, sentindo o corpo inteiro tremer. — Por favor, amor… não faz isso comigo… eu encontrei você. Me deixa falar. O trinco girou. A porta abriu devagar. E Isadora estava ali. Com os olhos vermelhos, o rosto cansado, o corpo envolto por um casaco de lã. Parecia menor. Mais frágil. Mais distante. Mas viva. Henrique quase caiu de joelhos só de vê-la. A Confissão — Henrique… — ela começou, mas a voz se quebrou. Ele ergueu as mãos, implorando. — Não fala nada ainda. Eu preciso… eu preciso falar antes de perder a coragem. Isadora cruzou os braços, como quem se protege em silêncio. Henrique deu um passo à frente, com lágrimas escorrendo sem controle. — Isa… eu te machuquei. Mais do que eu imaginei possível. Ela desviou o olhar. Ele continuou: — Eu estava tão perdido, tão quebrado, tão preso no meu próprio medo… que não percebi que estava destruindo você para tentar me salvar. A voz de Henrique falhou. — Eu confundi as coisas. Confundi sentimentos. Confundi ajuda com afeto… porque a Maya me viu fraco, me segurou quando eu não consegui lidar. Mas isso… não justifica nada. Ele passou a mão pelos cabelos. — Eu não fui justo com você. Te coloquei em segundo lugar quando você sempre foi meu primeiro. Não porque eu te amasse menos… mas porque eu deixei o medo mandar em mim. Isadora engoliu a seco. — Qual medo? — O de decepcionar você — ele respondeu, sem hesitar. — O medo de não ser suficiente. O medo de falhar. O medo de admitir que eu estava perdido. Henrique deu mais um passo, o olhar preso ao dela. — E em vez de falar com você, eu deixei outra pessoa ver partes de mim que eram suas. Só suas. Isadora fechou os olhos, sentindo as palavras como facadas e curativos ao mesmo tempo. O Ajoelhar Então Henrique fez algo que Isadora nunca tinha visto: Ele caiu de joelhos aos pés dela. Sem orgulho. Sem defesa. Sem desculpas prontas. — Me perdoa. Por favor. Eu não estou pedindo para esquecer. Nem para voltar agora. Só… não vai embora sem me deixar tentar consertar o que eu quebrei. As mãos dele tremiam. — Eu achei que estava perdendo você… mas a verdade é que eu estava perdendo a mim mesmo. E eu não quero mais viver assim. Isadora respirava com dificuldade — um misto de dor, amor e confusão. — Henrique… eu fui embora porque eu não tinha mais forças. — Eu sei — ele chorou. — E a culpa é minha. — Eu precisava de silêncio. — E eu preciso de você. Ele ergueu o rosto, desesperado. — Eu amo você, Isa. Não é uma frase bonita. Não é uma promessa. É a única coisa que eu tenho certeza no meio do caos que eu mesmo criei. Silêncio. Os dois apenas se encararam, com a respiração presa. A Verdade Que Ela Não Disse Isadora sentou na beira da cama, sem conseguir mais ficar de pé. Henrique ficou ajoelhado no chão, esperando qualquer coisa — palavra, gesto, punhalada. Isadora finalmente falou: — Eu ainda te amo. Henrique fechou os olhos, aliviado e ferido ao mesmo tempo. — Mas eu não sei se sei amar isso que estamos virando. Ele engoliu seco. — Então me deixa mudar. — E se você não conseguir? — Eu vou tentar até o fim. Porque sem você eu… — a voz dele falhou novamente — …eu não sei onde eu fico. Isadora olhou para ele, vulnerável como nunca. — E a Maya? Henrique respirou fundo. Olhou no fundo dos olhos dela. — Eu posso sentir algo por ela… mas eu só sou inteiro com você. A frase que Isadora precisava — e temia — ouvir. O Quase-Recomeço Ela se levantou, devagar. Henrique também. — Vem cá — ela disse, com a voz baixa. Ele se aproximou, inseguro. Isadora encostou a testa na dele. — Eu não voltei ainda — ela avisou. — Mas eu deixo você tentar me trazer de volta. Henrique fechou os olhos, lágrimas escorrendo novamente. — Eu vou te trazer — ele sussurrou. — Nem que eu precise reconstruir cada pedaço do que destruí. Ela segurou o rosto dele com cuidado. — Então começa ficando aqui hoje. Sem promessas. Sem Maya. Sem triângulos. Só nós dois. Só… nós. Henrique assentiu, quebrado e esperançoso. — Só nós. E, naquela noite, sem beijos, sem carícias, sem decisões… os dois deitaram lado a lado, separados por um oceano, mas ainda assim tentando atravessar. Pela primeira vez em muito tempo, Henrique estava exatamente onde precisava estar. Ainda confuso. Ainda dividido. Mas ali. Por Isadora.
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