Sam
Eu troquei de roupa dezenas de vezes. Eu queria estar bonita, mas casual, e confortável comigo mesma. Mas nada no meu guarda-roupas era bonita e confortável. Pelo que parecia, eu teria que escolher um ou outro.
Eu fui de vestido, porque eu adoro vestidos. Principalmente os de tecido leve e de alcinha. No verão ,Nova York fica quente como o inferno, e vestidos assim são a minha salvação nós dias quentes.
Este em especial, tem a saia rodada, a cintura é firme e colada a minha pele, e sua Alaca é fina e ajustável. Ele tem um tom de azul claro que me lembra o céu, e é um dos meus favoritos. No cabelo fiz um r**o de cavalo e escolhi uma armação mais confortável para o meu óculos.
Eu não vivo sem meus óculos. Se comparada a um morcego, ele encherga melhor que eu.
Ele me mandou uma mensagem curta e direta, e não havia muito o que responder.
"Rua Elm, 345. As quinze horas. Pode ser?"
— Nathan.
"É claro."
— Sam.
Se eu fosse esperta eu teria feito uma cena melhor, ter sugerido outra data ou horário para prolongar a conversa. Mas, eu não sou tão esperta assim.
Anna, pelo contrário, ela já estaria namorando Nathan. Ela é habilidosa com as pessoas e sempre se sai bem.
Mas, isso é sobre mim e não sobre ela.
Os seguranças da enorme propriedade da família Fitzpatrick barraram a entrada do meu carro. George deu seu nome e cargo para eles, e também pegaram o número da placa do carro.
Eles são tão preocupados com sua segurança assim?
Eu achei que o pai de Nathan fosse um empresário do ramo dos fármacos. Mas acho que posso estar enganada. Quem que tem uma empresa de remédios tem seguranças armados na frente de sua casa?
George olha para mim com preocupação.
— Tem certeza que é essa casa?
— Eu tenho sim.
Ligo o celular a fim de mandar uma mensagem para Nathan, avisando que já cheguei.
"Estão me barrando na entrada. Seus seguranças são fogo. Tem como você vir aqui?"
— Sam.
A resposta leva segundos para chegar, é quase no mesmo instante.
"Estou indo."
— Nathan.
— O meu amigo está vindo. — Digo, para suavizar a preocupação de George.
— Esses caras parecem militares, não é? Será que o pai do seu amigo é um gerenal ou coisa assim?
— Eu não sei, eu achei que ele fosse dono de uma rede de farmácias. — Ou é isso que dizem na escola.
Leva cinco minutos para que Nathan surja no meu campo de visão. Eu nunca vi ele sem o uniforme escolar, e agora, que ele está usando um calção preto e uma blusa branca de algodão, não parece aquele garoto fechado que fica de cara emburrada o tempo todo.
— Eu vou sair, George. Eu mando uma mensagem quando quiser ir embora. — Coloco minha mochila nos ombros e abro a porta do carro. — Até mais tarde.
— Se cuide, menina.
O carro da a ré e então sai da propriedade. Agora, não tenho mais como correr.
Tomo uma longa respiração antes de ir até Nathan. Ele está conversando com um dos seguranças e sua expressão não é das melhores.
— Eu avisei o meu pai, ele concordou com a visita dela. — Diz ele. — Tinham que fazer esse papelão?
— São as normas de segurança, chefinho. Seu pai me mataria se algo estivesse fora dos registros. — O homem nota a minha presença e então vira o rosto para mim. Em sua bochecha há uma cicatriz longa e proeminente, do tipo quelóide, abaixo do seu olho direito até o queixo. — Pode me mostrar seu documento, senhorita?
— Ela não precisa...
— Tudo bem. — Digo, já abrindo o menor zíper da mochila onde está a minha carteira. Dentro dela há meu documento nacional e é esse que eu mostro a ele. — Viu? Eu entendo que seu pai se preocupe com a sua segurança.
Mesmo que ela seja exagerada.
— Bem, vejo que é você mesma. Está liberada mocinha, aproveite a estádia. Viu chefinho? É mais fácil se cooperar.
Uma mão vai ao meu antebraço e então estou sendo puxada para propriedade a dentro.
Ele está me tocando, por mais bobo que isso seja. Sei que não é um toque de carinho, mas sim de pura irritação. Ele queria sair dali e achou que me arrastar fosse a melhor opção.
Mas, para quem nem olhava em minha direção, um toque já é um avanço enorme.
Não deu tempo de admirar a enormidade da casa, ou que ela tenha uma arquitetura clássica. Entramos dentro da mansão e Nathan só parou quando entramos em a sala enorme.
Ele solta o meu braço e eu empaco no chão.
Nathan está visivelmente irritado. Sua pele está vermelha e seus olhos estão sobressaltados, sua respiração está rápida e ele não consegue ficar parado por muito tempo.
— Nathan, se prefere que eu volte outro dias eu posso...
— Não. — Ele é seco, soa mais como um rosnado do que uma palavra. — Desculpe. — Suas mãos vão aos cabelos escuros e ele respira fundo. Vejo quando sua caixa torácica se expande e retrai enquanto ele normaliza sua respiração. — Eu odeio isso, mas você não tem nada haver com os meus problemas. — Ele deixa os braços cair ao lado do corpo e então se vira para mim. Há um pedido de desculpas explícito em seus olhos. — Eu machuquei você?
— Hum?
— O seu braço. — Ele se aproxima rapidamente, pegando meu braço em um só movimento.
Há marca de dedos nítidos marcados em minha pele e uma vermelhidão sugestiva.
— m***a. Desculpe, Sam. Eu sinto muito.
— Não está doendo, não se preocupe. — Tento me soltar do seu aperto, mas ele não solta.
— Eu causei isso, eu tenho que me preocupar. Vem, vou fazer uma compressa morna para você.
Nathan segura meus ombros e me empurra gentilmente para fora da sala. Ele me guia pela enorme casa — que mais parece um labirinto —, até a cozinha.
Há uma senhora no fogão e o cheiro de chocolate é forte no ambiente.
— Dolle, você sabe onde está as bolsas terminacas?
Nathan adentra a cozinha, indo para os armários do lado oposto a entrada.
— Terceira porta no balcão.
Ele segue sua instrução, indo diretamente para aquela parte do armário.
— Quem é a moça bonita? É a sua amiga?
— O nome dela é Sammy. — diz ele baixinho — Não a contamine, por favor.
— Ela quem vai escolher ser contaminada ou não.
Como é que é?
Me contaminar?
Estou tão perdida nessa conversa que não ouço quando ela me faz uma pergunta direta. Última estou muito perdida em meus próprios pensamentos.
— Desculpe, eu não ouvi.
— Você gosta de bolo de chocolate?
Ah, então era isso.
— Eu amo bolo de chocolate, principalmente quando tem morangos frescos no recheio. — Sou sincera, porque se esse cheiro maravilhoso for de um bolo de chocolate, eu vou querer um pedaço.
Quando se trata de açúcar eu sou pior do que formiga.
— Que bom, vou preparar um lanche delicioso para vocês. — Ela solta uma piscadela para mim.
— Muito obrigada senhora Dolle.
— É só Dolle, querida.
Nathan passa em minha frente, com uma panela de ferro em mãos.
— Não deixe ela te enfeitiçar, ela é uma bruxa malvada que devora criancinhas. — Ele vai até o fogão e deixa a panela sobre uma das bocas.
— Ele tem razão, só não o devorei porque ele se agarraria as minhas tripas como xiclete, não, como um verme. — Ela debocha dele e para a minha surpresa, pela primeira vez na vida eu vejo Nathan sorri.
Caramba, isso é uma novidade, mas meu e******o coração parece não ligar, pois ele acelera diante daquela covinha em sua bochecha.
Ele tem que ter algum defeito, ninguém é tão perfeito.
— Você se deliciaria, um Nathan Fitzpatrick deve ter um sabor inigualável.
— Rá, eu duvido disso.
Eu me aproximo da ilha, me sentando nas banquetas conjuntas ao balcão.
— Ela se machucou?
— Erro meu. — Ele admite. — Carlos barrou ela na entrada. Eu queria tanto que meu pai o demitisse. Eu odeio ele.
— Nathan, você tem visitas. — ela o adverte.
— Ela vai me odiar de qualquer forma. Não adianta muito eu ser alguém que não sou. — Ele fecha as mãos em punho e então abaixa a cabeça.
— Ignore ele, Sammy. Nathan é muito nervosinho.
— Pfft. Eu não sou nervosinho. — Ele rebate.
— Você é sim.
Eu gosto disso, gosto dessa normalidade que vejo. Eles juntos parecem muito com meus avós brigando comigo. É bom saber que ele tem alguém para o fazer rir.
Mas, aquelas palavras ficaram presas em minha mente. Ela vai me odiar de qualquer forma. Como que eu vou odiar ele? Eu nem o conheço direito e ao que parece meu coração o adora. É como um cachorrinho que se anima toda vez que vê o dono.
Essa metáfora foi h******l, mas fez todo o sentido.
— Não deixe esquentar demais, é só para amornar.
— Eu sei. Credo, eu sou perfeitamente capaz de fazer isso.
— Humrum.
Sorri, porque consigo ver que ela descorda dele e Nathan também notou isso. Ele revira os olhos, irritado.
— Vocês estudam na mesma escola? — Pergunta ela.
— Sim, somos da mesma classe. — respondo.
— Então vocês poderiam ser amigos, não acha? Seria bom que Nate tivesse alguém para almoçar, estudar e não sei, fazer o que adolescentes fazem.
— Não seja modesta, Dolle. Não é como se alguém na Andreas High School fosse querer almoçar comigo.
Engulo em seco.
Isso não é verdade, mas dizer isso em voz alta é preciso? Uma parte minha diz que sim, diz que eu tenho que ser aberta a isso.
— Eu sentaria com você, se quisesse. — Fecho as mãos em punhos.
— E por que a princesinha da Andreas me ajudaria? — há deboche em meu tom de voz.
— Primeiro que eu não sou a princesinha da Andreas. Segundo, eu não gosto que se refira a mim assim. E terceiro, você se deprecia demais.
Ele arregala os olhos, supreso.
— Para quem não falava nada até ontem, você é bem linguaruda.
— E você é irritadinho sim.
Foi como ter socado seu rosto, pois Nathan foi para trás e seu rosto se contorceu em uma careta. Dolle gargalhou, leve e distraída.
Eu encarei Nathan por todo minuto que ele olhou para mim como se eu fosse uma alien. Eu não me importo que algo tenha rompido, ou que minhas chances tenham se evaporado.
Eu nunca supus nada sobre ele, mesmo que ele seja notavelmente introvertido. Eu nunca sequer fiz um comentário r**m a respeito deles diferente de toda a nossa turma. Mas, eu me recuso a escuta-lo me chamando de princesinha da Andreas.
— Traga ela mais vezes, eu gostei dela. — Comentou Dolle, o que fez Nathan revirar os olhos.
Algo me diz que esse assunto ainda não acabou e que ele vai retalhar a qualquer momento. Eu fico ansiosa por isso, não vou mentir, mas quero ver até onde isso pode ir.