Máscaras Caídas

996 Words
A terceira noite na casa de campo trouxe neve. Fina, silenciosa, cobrindo os pinheiros como um véu branco. Sofia dormia, exausta de correr na floresta o dia inteiro. Eu estava na cozinha, preparando chá, quando ouvi vozes abafadas vindo da varanda. Dante estava falando sozinho. Saí devagar, segurando duas xícaras. Ele estava sentado no banco de madeira, os cotovelos nos joelhos, olhando para o lago congelado. Não usava casaco. Só a camisa fina, os braços marcados por cicatrizes que eu nunca tinha notado. — Você vai pegar pneumonia — murmurei, entregando-lhe o chá. Ele não respondeu. Só aceitou a xícara, os dedos roçando os meus por um segundo. — Minha avó morreu aqui — disse, de repente. — No inverno. Sozinha. Ninguém soube por dias. — Por que ela veio? — Porque fugiu. Do meu avô. Ele era… violento. Ela criou meu pai aqui, escondida. Ensinou-o a caçar, a pescar, a sobreviver. Mas não a perdoar. — Seu pai odiava seu avô? — Sim. Até o dia em que se tornou igual a ele. Houve um silêncio pesado. A neve caía mais forte. — Meu pai matou três homens antes dos vinte anos. Meu avô, sete. Eu… — ele parou, como se engolisse algo amargo — matei meu primeiro aos dezesseis. Um homem que tentou estuprar minha prima. Meu sangue gelou. — Você era um garoto. — Neste mundo, garotos viram armas rápido demais. — Ele olhou para mim, os olhos azuis cansados. — Isabella foi a primeira pessoa que me disse que eu podia ser diferente. Que o sangue não precisava definir quem eu era. — E você acreditou nela? — Por um tempo. Até que o sangue a levou também. Ele levantou a manga esquerda. Havia uma tatuagem: “ISABELLA” em letras góticas, envolta por uma coroa de espinhos. — Eu a enterrei com esta aliança — disse, mostrando um anel de prata no dedo mindinho. — Nunca a tirei. Nem para dormir. — Por que me conta isso? — Porque você me viu chorar. — A voz dele era quase um sussurro. — Naquela noite, depois do atentado… eu chorei no carro. E você fingiu que não viu. Isso… me destruiu e me salvou ao mesmo tempo. Fiquei em silêncio, sentindo o calor do chá nas mãos. — Eu também perdi tudo — disse, por fim. — Meus pais morreram num acidente de carro. Lúcia tinha treze anos. Eu, dezoito. Desde então, trabalho para mantê-la viva. Às vezes, me pergunto se ainda sou eu mesma… ou só uma sombra fazendo o que precisa ser feito. Dante virou-se para mim, os olhos fixos nos meus. — Sombras não salvam crianças no meio de tiroteios, Elena. Sombras não enfrentam monstros por amor. Você é real. E é por isso que eu tenho medo. — Medo do quê? — De que um dia você veja quem eu realmente sou… e fuja. Estendi a mão, tocando a dele pela primeira vez sem medo. — Eu já vi quem você é, Dante. Vi o homem que chora no escuro. Vi o pai que fica horas na porta do quarto da filha. Vi o homem que me ensinou a atirar para que eu pudesse proteger o que ele mais ama. — Fiz uma pausa. — Esse homem não me assusta. Ele me dá esperança. Ele virou a mão, entrelaçando os dedos aos meus. A pele dele estava fria, mas o aperto era firme. — Esperança é perigosa. — Então somos dois tolos. Ele sorriu — um sorriso verdadeiro, raro, que iluminou seus olhos por um segundo. — Minha avó dizia que a verdade só é suportável quando compartilhada. — Então compartilhe mais. E ele compartilhou. Falou da infância, das regras do clã, do peso de ser herdeiro de um império de sangue. Falou de Isabella, não como mártir, mas como mulher — teimosa, apaixonada, cheia de planos que a morte interrompeu. Falou de Sofia, do silêncio dela, do medo de que ela nunca voltasse a falar. — E se ela nunca disser “pai” de novo? — perguntou, a voz quebrando. — Então você vai provar com atos. Todo dia. Até que ela acredite. A neve continuava a cair. O lago estava completamente branco. Parecia que o mundo tinha parado só para ouvir aquelas confissões. Na manhã seguinte, Sofia acordou com febre. — Lena… — chamou, fraca, os olhos vidrados. Corri até ela. A testa estava quente. Dante já estava no quarto, as mãos grandes segurando um termômetro. — É só gripe — disse, mas a tensão em seu rosto contava outra história. Passamos o dia cuidando dela. Eu preparei sopa, ele trocou toalhas úmidas na testa dela. À noite, Sofia acordou assustada. — Sonhei com mamãe — sussurrou. Dante sentou-se na beirada da cama, segurando a mão dela. — O que ela disse? — Ela disse… “fica com Lena”. As lágrimas encheram os olhos de Dante. Ele beijou a testa da filha, a voz rouca. — Então é o que vamos fazer. Mais tarde, na varanda, ele me entregou um envelope. — É a escritura da casa. Está no seu nome. — Por quê? — Porque se algo acontecer comigo, quero que você e Sofia tenham um lugar seguro. Um lugar que não cheire a sangue. — Nada vai acontecer com você. — Promessas são frágeis, Elena. Mas esta casa… esta casa é real. Olhei para a floresta coberta de neve, para as janelas iluminadas onde Sofia dormia em paz. — Então vamos torná-la nosso lar. Dante me puxou para perto, o corpo dele quente contra o frio da noite. — Você sabe que não posso te dar normalidade. — Eu não quero normalidade. Quero você. Com todas as suas cicatrizes, seus segredos, seu sangue. Quero construir algo que valha a pena proteger. Ele encostou a testa na minha, o hálito formando nuvens no ar. — Então construímos. E, sob a neve silenciosa, pela primeira vez, não éramos babá e mafioso. Éramos família.
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