Lições de Sobrevivência

1202 Words
O convite veio ao amanhecer. — Vista-se. Calça, tênis, blusa justa. Nada de vestidos hoje — Dante disse, parado na porta do meu quarto, os braços cruzados, o olhar firme. — Você tem uma hora. — Para quê? — Para aprender a não morrer. O porão da mansão era maior do que eu imaginava. Paredes de concreto nu, espelhos do chão ao teto, alvos de papel, armas em prateleiras trancadas. Cheirava a pólvora velha, suor e disciplina. Dante estava no centro, camiseta preta marcando cada músculo das costas. Girava uma pistola no dedo, como se fosse um brinquedo. — Primeira regra — disse, sem me olhar. — Armas não são ferramentas. São extensões da sua vontade. Se você duvidar por um segundo, está morta. — Eu nunca segurei uma arma na vida. — Hoje vai mudar. Jogou uma pistola para mim. Pesei-a nas mãos — fria, pesada, mortal. — É leve. Um Glock 19. Ideal para mãos pequenas. — E se eu atirar em alguém por acidente? — Então você terá feito a sua primeira escolha. — Ele finalmente me encarou. — Aqui, não há acidentes. Só decisões. A primeira lição foi postura. — Pés afastados, joelhos flexionados. Braços firmes, cotovelos travados. Não é elegância. É estabilidade. Posicionou-se atrás de mim, as mãos grandes corrigindo meus braços. O calor do corpo dele atravessou a blusa fina, fazendo minha pele arrepiar. — Respira. Aponta. Aperta o gatilho com calma. Não puxa. Aperta. Disparei. O tiro saiu alto, violento. A bala perfurou o alvo… bem longe do centro. — Péssimo — Dante disse, sem piedade. — Mas honesto. — Obrigada? — Honestidade salva vidas. Ilusão mata. A segunda lição foi distância. — À queima-roupa, você não mira. Você aponta e atira. O instinto substitui a mira. Ele se aproximou, tão perto que senti a respiração dele no meu pescoço. — Imagine que eu sou o inimigo. Imagine que estou segurando uma faca. O que você faz? — Atiro. — Errado. Primeiro, você desvia. Depois, atira. Sempre crie espaço. Sempre. De repente, girou, agarrando meu pulso com força. Minha reação foi instintiva — chutei a canela dele e me virei, apontando a arma para seu peito. Dante sorriu. Um sorriso verdadeiro, raro, que iluminou seus olhos azuis por um segundo. — Boa. Muito boa. — Você me assustou! — O mundo real não avisa quando vai te matar. Por que eu deveria? A terceira lição foi silêncio. — Tiros chamam atenção. Às vezes, você não pode atirar. Às vezes, precisa matar em silêncio. Entregou-me uma faca de lâmina curta, cabo de madeira escura. — Segure assim. Use o punho, não os dedos. O golpe vem do quadril, não do braço. Demonstrou num manequim. Um movimento rápido, preciso, direto ao coração. — Você conseguiria fazer isso em alguém? Pensei no homem mascarado no corredor. Pensei em Sofia tremendo nos meus braços. — Sim. — Então você está pronta para a quarta lição. A quarta lição foi confiança. — Feche os olhos. — O quê? — Feche. Agora. Obedeci. A escuridão foi total. — Ouça. Passos. Leves, quase imperceptíveis. — Quantos? — Dois. Talvez três. — Correto. Agora, diga onde estão. — Um à esquerda. Dois à direita. Silêncio. Depois, o som de aplausos secos. — Abra os olhos. Eram dois dos seguranças de Dante, parados nos cantos do porão. — Como você soube? — perguntei. — Porque você aprendeu a ouvir o que importa. O resto é ruído. No final da aula, estávamos ambos suados, ofegantes. — Por que está fazendo isso? — perguntei, limpando a testa. — Por que me ensinar a lutar? Dante encarou a parede de espelhos, como se visse algo além do reflexo. — Porque a próxima vez que atacarem esta casa, não será para me matar a mim. Será para levar Sofia. E eu não estarei lá. — Você vai sair? — Tenho negócios a resolver. Inimigos a eliminar. Ele se virou, os olhos fixos nos meus. — Enquanto eu estiver fora, você é a única coisa entre minha filha e a morte. Eu preciso saber que você não vai hesitar. Que vai atirar antes de pensar. Que vai matar antes de chorar. Engoli seco. — E se eu falhar? — Você não vai falhar. — A voz dele era quase um juramento. — Porque agora você sabe: esta família é sua também. Naquela noite, fiquei acordada, segurando a faca que ele me deixou. Não como arma. Como promessa. Dois dias depois, ele me levou a um campo de treinamento isolado. — Hoje, você aprende a dirigir em fuga. O carro era um sedã preto modificado, motor roncando como um animal selvagem. — Pise fundo. Não olhe para trás. Se alguém te seguir, use os espelhos, não os olhos. Dirigi por horas, fazendo curvas fechadas, freadas bruscas, manobras de evasão. — Bom — ele disse, quando parei, ofegante. — Agora, faça de novo. Mas imagine que Sofia está no banco de trás. Meu coração apertou. — Ela nunca vai estar nessa situação. — Espero que não. Mas se estiver, você vai ser a razão pela qual ela volta para casa. Na semana seguinte, ele me ensinou a identificar venenos, a detectar escutas, a criar rotas de fuga em qualquer ambiente. — A mente é sua melhor arma — dizia. — O resto é apenas ferramenta. Mas havia algo mais. Algo que ele não dizia, mas que eu sentia. Cada lição era também um pedido: Fique. Sobreviva. Fique comigo. Uma tarde, enquanto praticávamos tiros rápidos, ele parou de repente. — Por que você não fugiu? — perguntou, sem olhar para mim. — Depois do ataque. Você poderia ter levado Sofia e desaparecido. Ninguém te encontraria. Carreguei a arma, os olhos fixos no alvo. — Porque ela não é minha para levar. Ela é sua. E você… — hesitei — você merece uma chance de ser pai dela. Não só chefe. Dante ficou em silêncio por um longo momento. — Eu não sei ser pai. — Então aprenda. Assim como eu estou aprendendo a atirar. Ele me olhou então, e vi algo nos olhos dele que nunca tinha visto antes. Vulnerabilidade. Naquela noite, encontrei Sofia no jardim, brincando com um carrinho de brinquedo. — Lena! — ela gritou, correndo para mim. Abraçou minhas pernas, os cachos balançando. — Papai disse que você vai me proteger sempre. — Vou sim, pequena. — Mesmo se ele não estiver aqui? — Mesmo assim. Ela sorriu, confiante. Naquele momento, entendi. Eu não estava aprendendo a matar. Estava aprendendo a amar em um mundo que só entendia violência. Mais tarde, Dante me encontrou na varanda. — Amanhã, viajo. Três dias. Talvez quatro. — Cuidado. — Você também. — Ele hesitou, como se lutasse contra si mesmo. — Se algo acontecer… use o botão vermelho no meu escritório. Aciona alarme, fecha todas as portas, libera os homens de plantão. — E se eu precisar de você? — Eu volto. — A voz dele era baixa, quase um juramento. — Mesmo que o inferno inteiro tente me impedir. Olhei para ele, o homem que mandava matar com um gesto, que governava com medo… e que agora me ensinava a sobreviver. — Prometa. — Prometo. E, pela primeira vez, acreditei nele.
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