A permissão veio na forma de uma chave de carro e um silêncio pesado.
— Você tem duas horas — Dante disse, sem olhar para mim. Estávamos no escritório dele, as paredes ainda cheirando a fumaça de charuto e decisão. — Um dos meus homens vai te levar. Ele espera do lado de fora. Não faça nada i****a.
Meu coração parou.
— O hospital?
— Sua irmã. Sim.
Não consegui falar. Apenas assenti, os olhos ardendo com uma gratidão que eu não tinha direito de sentir. Depois de tudo — o ataque, a desconfiança, o jantar dos lobos — ele estava me dando isso. Não por piedade. Por respeito.
— Por quê? — perguntei, a voz quase inaudível.
Dante finalmente me encarou. Os olhos azuis estavam cansados, mas firmes.
— Porque você não fugiu quando teve a chance. Porque protegeu Sofia mesmo sabendo que eu poderia te matar por suspeita. E porque… — ele fez uma pausa, como se engolisse algo amargo — ninguém merece perder a família duas vezes.
O carro era preto, blindado, silencioso. Marco, o homem ao volante, não disse uma palavra. Só ligou o motor e saiu da mansão como uma sombra.
Eu apertei as mãos no colo, sentindo o tecido do vestido novo — presente de Marta, “para que você não pareça uma refém”, ela dissera. Meu corpo inteiro tremia, não de medo, mas de esperança.
Lúcia estava viva. E eu ia vê-la.
O hospital cheirava a antisséptico e desespero contido.
Subi as escadas até o quarto 314, cada passo ecoando como um sino. Quando abri a porta, ela estava deitada, pálida, os olhos fundos, mas vivos. Ao me ver, seus lábios se abriram num sorriso fraco.
— Lena…
Corri até ela, ajoelhando-me ao lado da cama, segurando suas mãos finas como galhos secos.
— Estou aqui, Lu. Estou aqui.
— Eu soube… que você conseguiu o emprego. O tratamento… começou ontem.
As lágrimas escorreram antes que eu pudesse impedir.
— Sim. Tudo vai ficar bem.
— Como é a casa? — ela perguntou, curiosa. — A família é legal?
Engoli seco.
— É uma mansão enorme. A mãe viaja muito, o pai… trabalha com importação. A filha é uma menina linda, mas muito quieta. Eu cuido dela.
— Importação? De quê?
— Coisas caras. Relógios, talvez. Não pergunto muito. — Forcei um sorriso. — Só sei que o salário é bom. E é isso que importa, certo?
Ela apertou minha mão.
— Você está diferente. Mais forte.
— Ou mais cansada.
— As duas coisas, talvez.
Ficamos em silêncio por um momento, ouvindo o bip suave do monitor cardíaco. Era estranho estar ali, tão longe da mansão, tão perto da vida real. Por um instante, esqueci os tiros, os olhos frios de Dante, o sangue no mármore.
— Lembra do acidente? — Lúcia sussurrou.
— Todos os dias.
Há três anos, nossos pais morreram em uma curva molhada. O carro capotou. Eu sobrevivi com arranhões. Lúcia, com treze anos, levou uma pancada na cabeça que danificou parte do pulmão. Desde então, precisa de medicamentos caros, oxigênio às vezes, e agora, um tratamento experimental.
Eu tinha dezoito. Larguei a faculdade. Aceitei qualquer trabalho. Limpei banheiros, servi mesas, cuidei de idosos. Até que vi o anúncio: “Babá para criança especial. Salário alto. Discrição exigida.”
— Você nunca reclama — ela disse.
— Porque reclamar não paga suas contas, Lu.
— Mas você merece descansar.
— Descanso é pra quem tem alguém cuidando delas. Eu sou esse alguém.
Quando voltei ao carro, Marco já estava ligando o motor.
— Cinco minutos — ele disse, sem emoção.
Assenti, olhando pela janela uma última vez. Lúcia acenou da cama, fraca, mas presente. Viva.
Durante o caminho de volta, meu celular vibrou. Uma mensagem desconhecida:
“Você acha que está protegida? Ele vai te usar e descartar. Assim como fez com a esposa.”
Meu sangue gelou.
Apaguei a mensagem, mas as palavras ficaram gravadas na mente.
Na mansão, Dante me esperava no saguão.
— Tudo bem com ela?
— Sim. Obrigada.
— Alguém perguntou sobre mim?
— Não. Ela acha que você trabalha com importação.
Um quase sorriso tocou os lábios dele.
— Inteligente.
— Eu só quero que ela durma em paz. Não preciso que ela tenha pesadelos com a verdade.
Dante assentiu, como se entendesse melhor do que ninguém.
— Seu elo mais fraco é também o seu maior motivo para lutar. Cuidado para não deixar que usem isso contra você.
— Eles já estão tentando.
Mostrei a mensagem anônima. Ele leu, os olhos endurecendo.
— Moretti. Ele sabe que você tem uma irmã. E sabe que você faria qualquer coisa por ela.
— O que vamos fazer?
— Vamos protegê-la. Hoje. — Dante deu um passo à frente. — Eu dou a ela segurança extra no hospital. Um novo quarto. Ninguém entra sem autorização. Em troca… você me promete uma coisa.
— O quê?
— Que não vai deixar o medo por ela te impedir de lutar por Sofia. Por mim. Por nós.
Olhei para minhas mãos. Mãos que tinham segurado Lúcia no hospital após o enterro dos nossos pais. Mãos que tinham trabalhado até sangrar para mantê-la viva. Mãos que agora tremiam diante de uma escolha impossível.
— Eu prometo.
Naquela noite, fiquei acordada, ouvindo o vento bater nas janelas blindadas.
Lúcia era meu passado. Sofia era meu presente. E Dante… Dante era o futuro que eu não sabia se merecia.
Mas enquanto eu respirasse, ninguém tocaria nelas.
No corredor, encontrei Dante parado diante do quarto de Sofia, como sempre.
— Ela perguntou por você — ele disse, sem se virar.
— Sofia?
— Sim. Disse “Lena” três vezes hoje.
Meu coração doeu.
— Ela me aceitou.
— Ela te escolheu. — Dante finalmente me olhou. — Assim como eu.
E, pela primeira vez, a palavra família não soou como uma prisão.
Soou como um lar.