O Elo Quebrado

988 Words
A permissão veio na forma de uma chave de carro e um silêncio pesado. — Você tem duas horas — Dante disse, sem olhar para mim. Estávamos no escritório dele, as paredes ainda cheirando a fumaça de charuto e decisão. — Um dos meus homens vai te levar. Ele espera do lado de fora. Não faça nada i****a. Meu coração parou. — O hospital? — Sua irmã. Sim. Não consegui falar. Apenas assenti, os olhos ardendo com uma gratidão que eu não tinha direito de sentir. Depois de tudo — o ataque, a desconfiança, o jantar dos lobos — ele estava me dando isso. Não por piedade. Por respeito. — Por quê? — perguntei, a voz quase inaudível. Dante finalmente me encarou. Os olhos azuis estavam cansados, mas firmes. — Porque você não fugiu quando teve a chance. Porque protegeu Sofia mesmo sabendo que eu poderia te matar por suspeita. E porque… — ele fez uma pausa, como se engolisse algo amargo — ninguém merece perder a família duas vezes. O carro era preto, blindado, silencioso. Marco, o homem ao volante, não disse uma palavra. Só ligou o motor e saiu da mansão como uma sombra. Eu apertei as mãos no colo, sentindo o tecido do vestido novo — presente de Marta, “para que você não pareça uma refém”, ela dissera. Meu corpo inteiro tremia, não de medo, mas de esperança. Lúcia estava viva. E eu ia vê-la. O hospital cheirava a antisséptico e desespero contido. Subi as escadas até o quarto 314, cada passo ecoando como um sino. Quando abri a porta, ela estava deitada, pálida, os olhos fundos, mas vivos. Ao me ver, seus lábios se abriram num sorriso fraco. — Lena… Corri até ela, ajoelhando-me ao lado da cama, segurando suas mãos finas como galhos secos. — Estou aqui, Lu. Estou aqui. — Eu soube… que você conseguiu o emprego. O tratamento… começou ontem. As lágrimas escorreram antes que eu pudesse impedir. — Sim. Tudo vai ficar bem. — Como é a casa? — ela perguntou, curiosa. — A família é legal? Engoli seco. — É uma mansão enorme. A mãe viaja muito, o pai… trabalha com importação. A filha é uma menina linda, mas muito quieta. Eu cuido dela. — Importação? De quê? — Coisas caras. Relógios, talvez. Não pergunto muito. — Forcei um sorriso. — Só sei que o salário é bom. E é isso que importa, certo? Ela apertou minha mão. — Você está diferente. Mais forte. — Ou mais cansada. — As duas coisas, talvez. Ficamos em silêncio por um momento, ouvindo o bip suave do monitor cardíaco. Era estranho estar ali, tão longe da mansão, tão perto da vida real. Por um instante, esqueci os tiros, os olhos frios de Dante, o sangue no mármore. — Lembra do acidente? — Lúcia sussurrou. — Todos os dias. Há três anos, nossos pais morreram em uma curva molhada. O carro capotou. Eu sobrevivi com arranhões. Lúcia, com treze anos, levou uma pancada na cabeça que danificou parte do pulmão. Desde então, precisa de medicamentos caros, oxigênio às vezes, e agora, um tratamento experimental. Eu tinha dezoito. Larguei a faculdade. Aceitei qualquer trabalho. Limpei banheiros, servi mesas, cuidei de idosos. Até que vi o anúncio: “Babá para criança especial. Salário alto. Discrição exigida.” — Você nunca reclama — ela disse. — Porque reclamar não paga suas contas, Lu. — Mas você merece descansar. — Descanso é pra quem tem alguém cuidando delas. Eu sou esse alguém. Quando voltei ao carro, Marco já estava ligando o motor. — Cinco minutos — ele disse, sem emoção. Assenti, olhando pela janela uma última vez. Lúcia acenou da cama, fraca, mas presente. Viva. Durante o caminho de volta, meu celular vibrou. Uma mensagem desconhecida: “Você acha que está protegida? Ele vai te usar e descartar. Assim como fez com a esposa.” Meu sangue gelou. Apaguei a mensagem, mas as palavras ficaram gravadas na mente. Na mansão, Dante me esperava no saguão. — Tudo bem com ela? — Sim. Obrigada. — Alguém perguntou sobre mim? — Não. Ela acha que você trabalha com importação. Um quase sorriso tocou os lábios dele. — Inteligente. — Eu só quero que ela durma em paz. Não preciso que ela tenha pesadelos com a verdade. Dante assentiu, como se entendesse melhor do que ninguém. — Seu elo mais fraco é também o seu maior motivo para lutar. Cuidado para não deixar que usem isso contra você. — Eles já estão tentando. Mostrei a mensagem anônima. Ele leu, os olhos endurecendo. — Moretti. Ele sabe que você tem uma irmã. E sabe que você faria qualquer coisa por ela. — O que vamos fazer? — Vamos protegê-la. Hoje. — Dante deu um passo à frente. — Eu dou a ela segurança extra no hospital. Um novo quarto. Ninguém entra sem autorização. Em troca… você me promete uma coisa. — O quê? — Que não vai deixar o medo por ela te impedir de lutar por Sofia. Por mim. Por nós. Olhei para minhas mãos. Mãos que tinham segurado Lúcia no hospital após o enterro dos nossos pais. Mãos que tinham trabalhado até sangrar para mantê-la viva. Mãos que agora tremiam diante de uma escolha impossível. — Eu prometo. Naquela noite, fiquei acordada, ouvindo o vento bater nas janelas blindadas. Lúcia era meu passado. Sofia era meu presente. E Dante… Dante era o futuro que eu não sabia se merecia. Mas enquanto eu respirasse, ninguém tocaria nelas. No corredor, encontrei Dante parado diante do quarto de Sofia, como sempre. — Ela perguntou por você — ele disse, sem se virar. — Sofia? — Sim. Disse “Lena” três vezes hoje. Meu coração doeu. — Ela me aceitou. — Ela te escolheu. — Dante finalmente me olhou. — Assim como eu. E, pela primeira vez, a palavra família não soou como uma prisão. Soou como um lar.
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