O silêncio tomou conta da Academia Blackthorn.
O campo de batalha ainda estava coberto por fumaça, penas negras e espadas quebradas. Alguns alunos ajudavam os feridos, enquanto as bruxas usavam magia para reconstruir os escudos que protegiam a escola.
Paloma permanecia ajoelhada ao lado de Kael.
O sangue que escorria de seu peito havia diminuído, mas o corte continuava profundo.
Ela segurava sua mão com força.
Paloma: — Você quase morreu por minha causa...
Kael abriu lentamente os olhos.
Seu olhar encontrou o dela.
Kael: — Eu faria isso quantas vezes fosse preciso.
O coração de Paloma acelerou.
Ela não sabia por quê, mas aquelas palavras pareciam despertar lembranças escondidas dentro de sua alma.
Liam aproximou-se acompanhado de Morgana.
Liam: — Precisamos levá-lo para a enfermaria.
Kael tentou levantar.
Kael: — Estou bem.
A dor em seu rosto dizia exatamente o contrário.
Paloma: — Pare de fingir que não sente nada.
Kael sorriu discretamente.
Kael: — Você sempre foi mandona.
Paloma cruzou os braços.
Paloma: — Você continua dizendo coisas como se me conhecesse há anos.
O sorriso dele desapareceu.
Kael: — Porque conheço.
Na enfermaria, o cheiro de ervas medicinais tomava conta do ambiente.
A curandeira da academia, Helena, examinava o ferimento de Kael.
Ela franziu a testa.
Helena: — Esta espada estava envenenada.
Paloma sentiu um frio no estômago.
Paloma: — Ele corre perigo?
Helena olhou para Kael antes de responder.
Helena: — Se fosse qualquer outra pessoa... sim.
Kael fechou os olhos enquanto uma luz azul envolvia seu peito.
O corte começou a cicatrizar lentamente.
Mesmo assim, ele continuava extremamente pálido.
Helena: — Ele precisa descansar.
Morgana concordou.
Diretora Morgana: — Todos para seus dormitórios.
Paloma permaneceu parada.
Diretora Morgana: — Inclusive você.
Ela hesitou.
Paloma: — Posso ficar só mais um pouco?
Morgana observou os dois em silêncio.
Depois assentiu.
Diretora Morgana: — Apenas alguns minutos.
Quando todos saíram, a enfermaria ficou completamente silenciosa.
Paloma puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama.
Kael parecia dormir profundamente.
Ela observou seu rosto por alguns instantes.
Sem a expressão séria de sempre, ele parecia diferente.
Mais jovem.
Mais vulnerável.
Sem perceber, levou a mão até seus cabelos e afastou uma mecha que caía sobre seus olhos.
Nesse instante...
Kael segurou delicadamente sua mão.
Kael: — Achei que você já tivesse ido.
Paloma sorriu sem jeito.
Paloma: — Você fingiu que estava dormindo?
Kael: — Talvez.
Ela revirou os olhos.
Paloma: — Você é impossível.
Kael não respondeu.
Continuava segurando sua mão.
O silêncio entre os dois não era desconfortável.
Pelo contrário.
Parecia que não precisavam dizer nada.
Depois de alguns segundos, Kael quebrou o silêncio.
Kael: — Você sente isso também?
Paloma: — O quê?
Kael: — Essa sensação de que nossas almas já se encontraram antes.
Ela abaixou os olhos.
Paloma: — Sinto...
Kael respirou fundo.
Kael: — Então não sou o único.
Naquela mesma noite, Paloma não conseguiu dormir.
As palavras de Kael ecoavam em sua mente.
Ela decidiu caminhar pelos corredores para tentar organizar os pensamentos.
A academia estava iluminada apenas pela luz da lua.
Enquanto caminhava, ouviu uma melodia suave.
Parecia alguém tocando piano.
Curiosa, seguiu o som até uma antiga sala.
Ao abrir a porta, encontrou Liam.
Ele tocava um enorme piano de cauda.
A música era melancólica.
Quando percebeu sua presença, parou imediatamente.
Liam: — Desculpe. Achei que todos estivessem dormindo.
Paloma: — Você toca muito bem.
Liam sorriu.
Liam: — A música ajuda quando as lembranças ficam pesadas.
Ela aproximou-se.
Paloma: — Você também parece carregar muitas.
Liam ficou em silêncio.
Depois respondeu.
Liam: — Algumas lembranças nunca deveriam voltar.
Paloma sentou-se ao lado dele no banco do piano.
Os dois ficaram observando o luar atravessar as enormes janelas.
Paloma: — Posso fazer uma pergunta?
Liam: — Claro.
Paloma: — Você também me conhecia antes de eu chegar aqui?
Ele demorou alguns segundos para responder.
Liam: — Conhecia.
Ela fechou os olhos.
Paloma: — Então por que ninguém me conta a verdade?
Liam olhou para ela com tristeza.
Liam: — Porque descobrir antes da hora pode destruir você.
Antes que Paloma insistisse, um forte vento invadiu a sala.
As velas se apagaram.
As teclas do piano começaram a tocar sozinhas.
Uma voz feminina ecoou pelo ambiente.
— A Lua de Sangue está próxima...
Liam levantou imediatamente.
Sua expressão mudou completamente.
Liam: — Não...
O piano explodiu em centenas de pedaços de madeira.
No espelho da sala surgiu uma frase escrita com sangue.
"A Escolhida pertence às Trevas."
Paloma deu um passo para trás, assustada.
Liam segurou sua mão.
Liam: — Precisamos sair daqui!
No mesmo instante, um vulto atravessou o espelho e desapareceu pelo corredor.
Antes de sumir completamente, uma gargalhada feminina ecoou pela academia.
Paloma sentiu sua marca arder novamente.
Ela ainda não sabia, mas aquela voz pertencia à pessoa que conhecia todos os segredos de sua vida... e que faria de tudo para trazê-la para o lado das trevas.
Continua...
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