O salão principal permaneceu em absoluto silêncio.
Paloma ainda respirava com dificuldade depois da estranha visão provocada pela pena n***a. Seu coração batia tão forte que ela podia senti-lo ecoando em seus ouvidos.
O rapaz de cabelos negros continuava parado ao fundo, sem desviar os olhos dela.
Havia algo naquele olhar que a fazia sentir medo... e, ao mesmo tempo, uma estranha sensação de conforto.
Como se já o tivesse encontrado antes.
Em outro lugar.
Em outra vida.
— Está tudo bem? — perguntou a diretora Morgana, aproximando-se.
Paloma piscou algumas vezes, tentando recuperar o fôlego.
— Eu... acho que sim.
Mentira.
Nada estava bem.
Ela acabara de chegar à Academia Blackthorn e já tinha visto uma visão impossível.
Morgana pegou a pena n***a do chão antes que qualquer outro aluno pudesse tocá-la.
Seu semblante endureceu por um breve instante.
— Levem todos para suas aulas.
Os estudantes obedeceram imediatamente, mas antes de saírem continuavam lançando olhares curiosos para Paloma.
Alguns cochichavam.
— É ela...
— Não pode ser...
— Depois de tantos anos...
As palavras chegavam fragmentadas até seus ouvidos.
Paloma tentou entender.
— Eles estão falando de mim?
Morgana sorriu de forma educada.
— Você descobrirá tudo no momento certo.
— Eu odeio quando respondem perguntas com mais mistérios.
A diretora soltou uma leve risada.
— Então terá dificuldades para viver aqui.
Enquanto caminhavam pelos corredores, Paloma observava cada detalhe da academia.
As paredes eram cobertas por enormes quadros antigos.
Alguns retratavam guerreiros com espadas flamejantes.
Outros mostravam criaturas aladas.
Ela parou diante de um retrato em especial.
Uma jovem de cabelos escuros.
Os mesmos olhos castanhos.
O mesmo formato do rosto.
Parecia...
Ela.
— Quem é essa garota?
Antes que Morgana pudesse responder, um dos quadros começou a se mover.
A jovem pintada virou lentamente a cabeça.
Sorriu.
E sussurrou:
— Finalmente voltou.
Paloma deu um salto para trás.
— O quadro falou!
Morgana permaneceu completamente calma.
— Alguns retratos guardam fragmentos de memória.
— Isso é normal para você?
— Aqui dentro... sim.
Paloma fechou os olhos por um instante.
Talvez estivesse sonhando.
Era a única explicação.
Depois de atravessarem vários corredores, chegaram diante de uma porta enorme de madeira escura.
Acima dela havia uma placa prateada.
Dormitório Feminino.
— Este será seu quarto.
Assim que entrou, encontrou outras três garotas organizando suas malas.
A primeira tinha cabelos ruivos encaracolados e um sorriso enorme.
— Você deve ser a novata!
Ela correu até Paloma.
— Sou Sophie.
A segunda era loira, usava óculos redondos e parecia muito tímida.
— Meu nome é Alice.
A terceira apenas ergueu os olhos do livro que lia.
Seus cabelos negros contrastavam com a pele extremamente clara.
— Íris.
Voltou imediatamente à leitura.
Sophie sorriu.
— Não liga. Ela é assim com todo mundo.
Paloma riu pela primeira vez desde que chegara.
Talvez não estivesse completamente sozinha.
Mais tarde, Sophie insistiu em mostrar toda a academia.
Passaram pela enorme biblioteca.
Pelos jardins.
Pela torre do relógio.
Até chegarem ao lago.
A água era incrivelmente escura.
Quase n***a.
— Nunca venha aqui depois da meia-noite — disse Sophie.
— Por quê?
Ela deu de ombros.
— Dizem que as sombras chamam pelo nome das pessoas.
Paloma riu nervosamente.
— Você gosta de assustar os novatos?
— Não estou brincando.
O sorriso desapareceu do rosto de Sophie.
Naquele instante, Paloma ouviu passos atrás dela.
Virou-se.
Era o rapaz de cabelos negros.
O mesmo do salão principal.
Vestia completamente preto.
As mãos estavam nos bolsos.
Os olhos permaneciam fixos nela.
Sophie empalideceu.
— Kael...
Ele ignorou completamente a garota.
Continuou olhando apenas para Paloma.
— Você não deveria estar aqui.
A voz dele era calma.
Profunda.
Paloma cruzou os braços.
— Acho engraçado. Todo mundo fala comigo como se já me conhecesse.
Kael permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Depois respondeu:
— Porque conheço.
Ela franziu a testa.
— Impossível.
— Para você.
Paloma respirou fundo.
— Nós já estudamos juntos?
Ele sorriu de lado.
Um sorriso triste.
— Não exatamente.
— Então de onde me conhece?
Kael aproximou-se lentamente.
Ela percebeu que seus olhos escondiam uma dor impossível de explicar.
— Passei séculos procurando por você.
Seu corpo inteiro congelou.
— Isso não tem graça.
— Não estou tentando fazer você rir.
Antes que pudesse responder, uma voz interrompeu a conversa.
— Kael!
Outro rapaz apareceu correndo pelo jardim.
Seus cabelos loiros brilhavam sob o sol.
Os olhos azuis transmitiam uma tranquilidade inesperada.
Ao contrário de Kael, ele sorria com facilidade.
— Achei que encontraria você aqui.
Então seus olhos encontraram os de Paloma.
O sorriso desapareceu.
Ele ficou completamente imóvel.
Como se tivesse visto algo impossível.
— Ela...
Kael fechou a expressão.
— Sim.
O rapaz loiro respirou fundo antes de caminhar até Paloma.
— Meu nome é Liam.
Ela apertou sua mão.
No instante em que seus dedos se tocaram...
Outra visão surgiu.
Ela viu asas brancas gigantes abrindo-se no céu.
Uma espada dourada.
Lágrimas.
E Liam gritando seu nome enquanto tudo ao redor era consumido pelas chamas.
Paloma puxou a mão imediatamente.
Cambaleou para trás.
— O que está acontecendo comigo?
Liam parecia tão assustado quanto ela.
— Você também viu?
Kael fechou os olhos por um momento.
Como se aquilo fosse inevitável.
— A profecia começou.
Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, o sino da academia ecoou por todo o campus.
Mas, escondida entre as árvores, uma figura encapuzada observava os três em silêncio.
Seus olhos brilhavam em vermelho.
E sua voz saiu em um sussurro carregado de ódio.
— Finalmente encontrei você... Paloma.
Continua...
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