CAPÍTULO — Juninho
Narrado por Juninho
Saí da casa da Mariana com a cabeça cheia demais pra um dia que já tinha sido longo. O portão do prédio fechou atrás de mim com aquele barulho seco de metal batendo, e por um segundo eu fiquei parado ali, olhando a rua, como se tivesse esquecido pra onde ia. A Zona Sul sempre teve esse efeito estranho em mim. Tudo parecia mais calmo, mais organizado, mais distante da realidade que eu vivo. Gente passeando com cachorro, casal andando de mãos dadas, barulho de carro passando devagar demais pra quem tá acostumado com pressa.
Respirei fundo.
Ali eu era o Juninho irmão da Mariana.
No morro, eu era outra coisa.
Entrei no carro e liguei o som baixo, mais por hábito do que por vontade. A conversa com a Mari ainda ecoava na minha cabeça. Principalmente uma parte. Uma parte que eu tentei ignorar, mas não adiantava.
“A Layla sempre gostou de você.”
Ela jogou aquilo como quem não joga nada demais, mas pra mim foi como um tiro. Um tiro silencioso, daqueles que não fazem barulho, mas acertam em cheio. Eu passei o caminho inteiro tentando me convencer de que aquilo não era verdade, ou que, mesmo se fosse, não mudava nada. Porque não podia mudar nada.
Não comigo.
A estrada até o morro foi ficando mais conhecida, mais caótica, mais barulhenta. As luzes diminuíram, os prédios ficaram mais baixos, os muros mais pichados, as ruas mais estreitas. Meu corpo automaticamente mudou de postura. Aqui eu não ando distraído. Aqui eu observo tudo. Cada esquina, cada moto que passa devagar demais, cada carro parado no lugar errado.
Quando subi a primeira ladeira da Maré, foi como se eu tivesse atravessado um portal invisível. A quebrada tava viva. Criança correndo, som alto em algumas casas, gente conversando sentada na calçada. Tudo normal. Tudo do jeito que sempre foi.
Estacionei perto da boca principal e desci. Alguns moleques já me viram de longe.
— Salve, Juninho!
— Firmeza, cria?
Respondi com a cabeça, sem muito papo. Aqui, todo mundo sabe quem eu sou. Não preciso falar muito.
Subi mais um pouco, passei pela viela lateral e cheguei no ponto onde a rapaziada fica. Movimento controlado, dinheiro rodando, rádio chiando baixo com informação entrando o tempo todo. Tudo funcionando do jeito que tem que ser.
— E aí, chefe — um dos meninos falou. — Movimento tranquilo hoje.
— Mantém assim — respondi. — Qualquer coisa, me chama.
Fui andando até o fundo, onde o Vitinho costuma encostar quando quer observar sem ser observado. Ele tava lá, como sempre, postura firme, braços cruzados, olhar atento. Quem olha de fora vê só um cara parado. Quem conhece sabe que ele tá lendo o morro inteiro em silêncio.
— Chegou cedo hoje — ele falou, sem nem virar o rosto.
— Resolvi umas parada na rua — respondi, encostando do lado dele.
Vitinho me olhou de canto. Ele me conhece. Conhece meu jeito, meu silêncio, minha respiração. Ele percebeu na hora que eu tava diferente.
— Tu tá com a cabeça longe — ele disse.
— Nada não — desconversei rápido. — Só cansado.
Ele deu um meio sorriso de canto, aquele sorriso que não tem humor nenhum.
— Cansado eu tô todo dia. Isso aí não é cansaço.
Fiquei quieto. Peguei um cigarro, acendi, traguei fundo. O silêncio entre a gente nunca foi desconfortável, mas naquela hora pesou.
— Foi ver a Mariana, né? — ele perguntou.
— Foi.
— E ela, como tá?
— Tá bem… levando.
Vitinho assentiu com a cabeça. Ele respeita muito a Mariana, mesmo sem conviver com ela e sem conhecer ela. Talvez porque ela represente um mundo que ele nunca teve. Um mundo que ficou distante demais pra ele alcançar.
— Ela é forte — ele disse. — Puxou à mãe.
Traguei de novo. A fumaça saiu pesada.
— Vitinho… — comecei, mas parei.
— Fala — ele respondeu, sério.
Balancei a cabeça.
— Nada não. Besteira.
Ele virou o corpo todo pra mim agora.
— Juninho, tu nunca foi de “besteira”. Quando tu fica assim, é porque tem coisa.
Dei uma risada curta, sem graça.
— Às vezes a gente só pensa demais.
— Pensar demais no morro mata — ele respondeu seco. — Aqui a gente pensa o necessário.
Olhei pra frente, pro movimento, pro morro que nunca dorme de verdade.
— É que às vezes… — parei de novo.
Vitinho respirou fundo, controlando a impaciência.
— Tu quer que eu mande geral sair pra gente trocar ideia ou vai ficar nesse vai e não vai?
— Não precisa disso — respondi rápido. — Tá tudo certo. De verdade.
Ele me analisou em silêncio por alguns segundos. Vitinho não é de insistir quando sente que a coisa não deve ser dita. Mas também não é bobo.
— Então deixa isso guardado — ele disse. — Só não deixa te atrapalhar aqui.
— Nunca — respondi firme.
E isso era verdade. Por mais confuso que eu estivesse por dentro, no corre eu nunca vacilei. Nunca deixei sentimento virar erro. Nunca deixei nada pessoal interferir no trabalho.
Vitinho voltou a olhar o morro. Eu fiquei ali, do lado dele, sentindo o peso da conversa que não aconteceu.
O rádio chiou.
— Juninho, movimento estranho lá embaixo, moto rodando devagar.
— Já vi — respondi no rádio. — Fica ligado.
Dei alguns passos à frente, observei. Tudo sob controle. Sempre está.
Mas por dentro… não tava.
Minha cabeça voltava nela sem pedir licença.
Layla.
O jeito quieto. O olhar atento. O sorriso que aparece mais nos olhos do que na boca. A forma como ela anda pelo morro tentando ser invisível, como se não quisesse incomodar ninguém. A forma como ela me chama de “Ju” quando o Vitinho não tá por perto.
Balancei a cabeça, tentando expulsar aquilo.
— Tá vendo? — Vitinho falou de repente. — Tu tá viajando de novo.
— Tô não.
— Tá sim. Teu olhar tá longe.
Soltei o cigarro no chão e pisei.
— Vitinho, confia em mim?
Ele franziu a testa.
— Que pergunta é essa?
— Confia ou não?
— Se eu não confiasse, tu não tava aqui — ele respondeu na hora. — Tu é meu braço direito.
Assenti.
— Então pronto.
Ele percebeu que eu tava encerrando o assunto.
— Juninho… — ele chamou, mais sério agora. — Seja o que for que tá passando na tua cabeça, lembra de uma coisa: aqui tudo que a gente faz respinga em mais gente. Em mim. Em você. Na Layla.
Meu estômago deu um nó.
— Eu sei — respondi rápido demais.
Ele estreitou o olhar.
— Sabe mesmo?
— Sei.
Vitinho ficou me encarando por alguns segundos longos demais. Eu sustentei o olhar. Não por desafio. Por respeito.
— Beleza — ele disse por fim. — Então vamos focar no que importa.
Ele começou a passar algumas orientações, falar de rota, de dinheiro, de segurança. Eu ouvi tudo, respondi no automático, executei o que precisava ser feito. Era assim que eu funcionava: por fora, controle absoluto. Por dentro, um caos silencioso.
Quando a noite começou a cair de vez, o morro ganhou outra energia. Luzes acendendo, som aumentando, gente circulando mais. Eu caminhava de um lado pro outro, conferindo tudo, conversando pouco, observando muito.
Em um momento, vi Layla de longe, sentada na laje, conversando com uma vizinha. Ela riu de alguma coisa, jogou o cabelo pra trás sem perceber que eu tava olhando.
Meu peito apertou.
Virei o rosto na hora.
Não posso.
Não devo.
Não vou.
— Juninho! — alguém chamou.
— Fala.
— Vitinho quer trocar ideia contigo depois.
Assenti.
Mais tarde, quando subi até onde ele tava, Vitinho me olhou diferente. Não duro. Diferente.
— Tu é meu irmão — ele disse do nada. — E eu não falo isso pra qualquer um.
Engoli seco.
— Eu sei.
— Então lembra disso quando a cabeça começar a confundir as coisas.
Assenti de novo.
— Pode deixar.
Ele deu um leve tapa no meu ombro, coisa rara vindo dele.
— Descansa quando der. Amanhã o dia começa cedo.
Desci a viela com o peso da noite caindo junto comigo. O morro seguia vivo, pulsando, perigoso e familiar ao mesmo tempo.
Entrei em casa, fechei a porta, sentei na cama sem nem tirar o tênis.
Passei a mão no rosto.
Eu sabia exatamente o que tava acontecendo comigo.
E saber não tornava nada mais fácil.
No morro, a gente aprende a sobreviver a tudo… menos ao que a gente sente em silêncio.
E aquele silêncio…
tava ficando alto demais.