CAPÍTULO — Layla
Narrado por Layla
Acordei com aquela sensação estranha de que o dia ia ser diferente, mesmo sem saber exatamente por quê. Não foi o despertador que me tirou do sono, nem barulho nenhum vindo da rua. Foi a minha própria cabeça. Ansiosa demais pra continuar dormindo, inquieta demais pra fingir que tava tudo normal.
Abri os olhos devagar, encarando o teto do quarto. O ventilador girava lento, fazendo aquele barulho repetitivo que geralmente me acalma. Mas naquela manhã, não funcionou.
Suspirei fundo e me sentei na cama.
Quarta-feira.
Sorri sozinha ao lembrar que, normalmente, às sextas-feiras, a dona Cida vinha fazer a faxina aqui em casa. Ela sempre chegava cedo, com aquele sorriso largo, falando alto, quebrando o silêncio pesado dessa casa grande demais pra duas pessoas. Mas ainda era quarta. E, por algum motivo, isso começou a me incomodar.
Olhei ao redor do quarto. Tudo no lugar. Sempre no lugar. Meu irmão gosta de ordem. Eu aprendi a gostar também, ou talvez só aprendi a obedecer. Levantei da cama, caminhei até a janela e puxei a cortina. O morro já tava acordado. Crianças correndo, gente conversando, o cheiro de café subindo no ar.
Foi aí que a ideia me bateu.
Do nada.
Uma coragem que eu quase nunca tenho.
— Vou limpar a casa — falei em voz alta, como se precisasse ouvir pra acreditar.
Ri de mim mesma. Parecia coisa pequena, boba até. Mas pra mim era enorme. Aquela casa era grande demais. Dois andares, cheia de coisa cara, de móveis que meu irmão comprou com esforço, com risco, com sangue, mesmo que ele nunca admita isso. Tudo ali tinha valor. Financeiro e emocional.
Desci pra cozinha, fiz um café rápido e tomei em pé mesmo. Nem sentei. A ansiedade não deixava. Coloquei um short velho, uma camiseta larga, prendi o cabelo num coque alto e fui atrás dos produtos de limpeza.
O armário era cheio. Tudo organizado, rotulado, comprado sempre em excesso. Coisa de quem não gosta de faltar nada. Coisa de quem perdeu demais um dia.
Respirei fundo antes de começar.
A sala era enorme. Sofás grandes, tapete claro, cortinas pesadas. Tudo impecável. Tudo pouco vivido. Liguei o som no volume médio. Escolhi uma playlist aleatória, dessas que misturam música antiga com atual. Precisava de barulho. Precisava ocupar o silêncio.
Comecei tirando o pó dos móveis com cuidado exagerado. Cada porta-retrato, cada objeto decorativo. Fotos antigas, poucas. Meu irmão não gosta de lembrar. Eu lembro por nós dois.
Passei o pano na mesa de vidro devagar, com medo de riscar. Limpei os detalhes, os cantos, as coisas que ninguém nota, mas que me dão a sensação de controle. Enquanto limpava, minha mente vagava.
Lembrei dos meus pais.
Do dia que tudo acabou.
Do barulho. Do medo. Do silêncio depois.
Respirei fundo e sacudi a cabeça, tentando afastar as lembranças. Continuei limpando. Varri o chão com calma, passei pano, ajoelhei pra limpar embaixo do sofá. O cheiro de produto de limpeza se espalhou pela casa, misturado com a música.
Subi as escadas depois de um tempo que eu nem soube medir. Cada degrau ecoava na casa vazia. O segundo andar sempre me deu uma sensação estranha. Os quartos grandes demais, corredores longos demais.
Comecei pelo quarto do meu irmão.
Ali eu redobrei o cuidado.
Vitinho é organizado de um jeito funcional. Nada fora do lugar, mas tudo simples. Limpei a mesa, organizei alguns papéis, arrumei a cama com precisão quase militar. Abri a janela pra ventilar. O vento entrou trazendo o barulho do morro, lembrando que a vida continuava lá fora.
No meu quarto, demorei mais. Tirei roupas do armário, reorganizei, dobrei de novo. Limpei espelhos, prateleiras, meus livros. Toquei em cada coisa como se estivesse pedindo permissão.
A casa era grande. Grande demais. E quanto mais eu limpava, mais eu sentia o vazio dela. Aquela casa não foi feita pra ser lar. Foi feita pra proteger. Pra isolar. Pra esconder.
Já era quase meio-dia quando comecei a sentir o corpo cansar. Suor escorrendo pelas costas, braços doloridos. Desci pra cozinha, bebi água, comi uma fruta rápido. Olhei ao redor.
Tudo limpo. Tudo brilhando.
Mas eu ainda sentia aquela inquietação.
Voltei pra sala e passei pano no chão de novo, mesmo sem precisar. A música continuava tocando. Eu cantarolava baixinho, só pra não pensar.
Foi quando ouvi a porta da frente abrir.
Meu coração disparou na hora.
Olhei pro relógio na parede.
Cedo demais.
Antes que eu pudesse reagir, ouvi a voz dele.
— QUE ISSO, HEIN? TÔ SENDO SUBSTITUÍDO?
Revirei os olhos antes mesmo de virar.
— Victor! — falei alto. — Não chega assim!
Ele entrou rindo, jaqueta jogada no ombro, óculos escuros ainda no rosto. Olhou ao redor da sala, exagerando a reação.
— Olha isso! A casa brilhando! — ele abriu os braços. — Vou começar a chegar todo dia mais cedo.
— Para de palhaçada — falei, tentando esconder o sorriso. — Resolvi limpar hoje.
Ele tirou o óculos e me encarou, fingindo seriedade.
— Hoje é sexta agora?
— Não — respondi. — Mas eu quis.
Ele cruzou os braços.
— Você quis ou ficou entediada demais?
— Os dois — respondi sincera.
Ele riu, aquela risada fácil que quase ninguém vê.
— Tu não precisava disso, Layla.
— Eu sei — falei. — Mas eu quis fazer alguma coisa. A casa é grande demais pra ficar esperando.
Ele olhou ao redor de novo, mais atento agora. Reparou nos detalhes. No cheiro. No chão limpo.
— Você mexeu nas minhas coisas? — perguntou, fingindo dureza.
— Mexi — respondi, já preparada.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Tá viva por enquanto — disse, depois abriu um sorriso. — Ficou bom.
Aquilo aqueceu meu peito mais do que devia.
— Cansou? — ele perguntou.
— Um pouco.
— Tá maluca — ele balançou a cabeça. — Essa casa não é pra você limpar sozinha.
— Eu dei conta — respondi, meio defensiva.
Ele se aproximou e bagunçou meu cabelo de leve, coisa que ele quase não faz mais.
— Eu sei que deu — falou mais baixo. — Mas não precisa provar nada pra ninguém. Muito menos pra mim.
Engoli seco.
— Eu só… queria me sentir útil.
Ele suspirou.
— Você já é.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. A música tocando ao fundo. O morro vivo lá fora.
— Vai tomar banho — ele falou, quebrando o clima. — Depois a gente almoça.
— Você vai ficar pra almoçar? — perguntei, surpresa.
— Hoje eu fico — respondeu. — Pelo menos um pouco.
Assenti, tentando esconder a felicidade.
Subi pro banho com o corpo cansado e a mente um pouco mais leve. Enquanto a água caía, pensei em como momentos simples como aquele eram raros. Em como meu irmão, mesmo sendo quem é, ainda conseguia ser só… meu irmão.
Quando saí do banho, a casa ainda estava limpa. Cheirosa. Silenciosa, mas menos pesada.
Desci as escadas e encontrei Vitinho na cozinha, abrindo a geladeira.
— Tá vendo? — ele falou. — Limpeza dá até fome.
Ri.
Naquele dia, a casa parecia menos grande.
Menos vazia.
E por algumas horas, eu quase esqueci que o mundo lá fora era perigoso demais pra gente baixar a guarda.
Quase.