Juninho
Narrado por Juninho
Eu sou o Juninho. Cria da Maré. Gerente das bocas, braço direito do Vitinho, meu parceiro de vida — meu irmão, mesmo sem ter o mesmo sangue correndo nas veias. No morro, ninguém pergunta sua história, porque todo mundo tem uma parecida: feita de perda, dureza, sobrevivência. Mas eu vou contar a minha, porque ela explica muito do que eu sou hoje.
Eu não sei quem é minha mãe. Nunca soube. Ela me deixou quando eu era só um bebê, e a única explicação que consegui imaginar com o passar dos anos é que ela não tinha nada pra me oferecer. Talvez fosse melhor eu ir embora do que crescer na miséria com ela. Ou talvez ela não quisesse mesmo… isso é o que mais dói. Mas aqui na Maré, você aprende cedo que nem tudo tem resposta, e mesmo assim a vida segue.
Cresci com meu pai. Ele era um homem simples, trabalhador, daqueles que fazia o que podia pra botar comida na mesa. E foi assim por bastante tempo… até ele conhecer a Lívia, mãe da Mariana. Foi com ela que tive meu primeiro gosto de família de verdade.
A gente morou com ela por alguns anos, e foram os melhores da minha infância. Lívia era daquelas pessoas que iluminavam a casa só de entrar. Sempre me tratou bem, sempre me chamou de filho, sempre dividiu comigo o carinho que dava pra Mariana. Pra ela, eu não era “o filho do namorado”, eu era parte da família, ponto. Ela fazia café da manhã cantando, enchia a gente de beijo e abraço, me cobrava estudo, me elogiava quando eu merecia, puxava minha orelha quando precisava.
E, pela primeira vez, eu me senti querido.
Mariana era pequena na época, mas já era cheia de opinião, cheia de personalidade. Mimada? Um pouco. Mas um mimado bom, daquele que vem de amor. Eu gostava de cuidar dela, de carregar ela no colo, de brincar de pega-pega, de implicar com os laços gigantes que a mãe dela insistia em colocar no cabelo.
Quando meu pai e a mãe dela se separaram, foi como perder tudo de uma vez. A Mariana ficou com a mãe na Zona Sul, e eu voltei pro morro com meu pai. Foi um baque. Parecia que estavam arrancando uma parte minha. Mas vida no morro é assim: você não tem tempo de sofrer muito, porque a rotina não te deixa. Mas guardou uma marca. Eu sentia falta de tudo: do carinho dela, do cuidado, daquela sensação de lar que só ela me dava.
E então… meu pai começou a se perder nas drogas.
No começo, era só “aos fins de semana”. Ele dizia que estava cansado, que precisava relaxar. Mas coisa errada não tem freio. Uma vez que entra, não sai mais. E meu pai caiu de vez. Mesmo chapado, ele nunca foi agressivo comigo. Sempre me tratou bem. Sempre dizia que eu era o orgulho dele. Mas isso não impediu o fim de chegar: um dia ele exagerou… e não voltou mais.
Eu tinha quinze anos e fiquei sozinho no mundo.
Foi nessa época que eu voltei pra Maré de vez, e reencontrei o Vitinho. Ele já era “o cara”, já tinha herdado o morro, já tinha cicatrizes na alma e um olhar de quem teve que crescer na marra. E, mesmo assim, me acolheu sem pensar duas vezes. Ele não fala muito sobre isso, mas o Victor é o único que me deu a mão quando ninguém mais poderia. Ele me deu teto, comida, trabalho, respeito. E, mais que isso, me deu família — coisa que eu pensava que não teria mais.
No corre, eu virei gerente cedo. Sempre fui ligeiro. Sempre observei mais do que falava. E, com o tempo, ganhei moral. O morro confia em mim. Sabe que eu resolvo. Sabe que eu não falho. Sabe que, quando o Vitinho pensa, eu já tô agindo. A gente se entende no olhar, sem precisar de palavra.
No corre, eu sou frio. Fechado. Calculista. Não dá pra ser diferente num lugar onde qualquer erro pode te custar a vida.
Mas fora disso, com os meus de verdade, eu sou outro cara. Sou zoeiro, risonho, cheio de histórias. Adoro fazer graça, adoro provocar, adoro ver o povo rir. Acho que é porque a vida já foi dura demais comigo, então eu tento ser leve sempre que posso.
E tem uma menina… uma que me desmonta inteiro.
Layla.
A caçula do Vitinho. A menina que eu vi crescer. A menina que o morro todo protege como se fosse de ouro. E, ao mesmo tempo, a menina mais doce, mais sensível, mais diferente daquele mundo todo.
Eu não sei quando comecei a olhar pra ela de outro jeito. Talvez tenha sido quando ela tinha uns dezesseis anos e apareceu na porta da casa do Vitinho com o cabelo preso num coque torto e o rosto meio triste, mas tentando sorrir. Ou quando eu percebi que ela sempre ficava vermelha quando eu falava com ela. Ou quando ela me abraçou no aniversário dela como se aquilo fosse normal… mas pra mim não foi. Pra mim, aquele abraço ficou marcado na pele dias.
Só que eu nunca pude — e nunca vou poder — deixar isso transparecer.
Primeiro porque ela é nova demais.
Segundo porque, pros olhos do morro, ela é intocável.
Terceiro porque Victor arrancaria minha alma pela garganta se soubesse.
E quarto… porque Layla merece o mundo inteiro. E eu só posso oferecer metade dele, e a metade mais perigosa.
Mesmo assim, eu sinto. E sinto forte.
Layla mexe comigo de um jeito que ninguém jamais mexeu. Tem dias que eu apareço na casa do Vitinho pra resolver alguma coisa e ela surge com aquele sorriso tímido, perguntando se eu quero café. E eu quero. Quero o café. Quero o sorriso. Quero ficar ali mais cinco minutos só pra ver ela mexer no cabelo, ou rir baixinho, ou olhar pra mim com aqueles olhos castanhos que parecem sempre pedir alguma coisa que ela mesma tem medo de dizer.
Mas eu não posso. Não devo. E eu sei disso.
Eu sigo minha vida aqui, na correria do morro, armado, atento, firme. Quando o assunto é trabalho, eu sou outro cara. Resolvo problemas antes que apareçam. Cuido da segurança do morro como se cuidasse da minha própria casa, porque é isso que ela é.
Mas, quando eu deito de noite, quando a quebrada fica silenciosa, quando o rádio para de chiar… minha mente vai pra ela. Sempre pra ela.
E, no fundo, eu acho que o Vitinho sabe que existe algo ali. Ele nunca disse nada, mas às vezes pega meu olhar. Ou percebe quando eu fico mais duro na postura quando ela está por perto. Mas ele nunca me perguntou. Talvez porque ele prefere acreditar que eu jamais ousaria sentir algo pela irmã dele. Ou talvez porque ele confie demais em mim pra imaginar isso.
E eu não quero decepcionar ele.
Nunca.
A verdade é que eu devo tudo ao Victor. Ele é a família que eu escolhi, e que me escolheu. E eu vou proteger isso até o último fio de vida que eu tiver.
Mas Layla…
Layla é o segredo que mora dentro de mim. A fraqueza que eu escondo. A vontade que eu reprimo. O pecado que eu nunca vou tocar — mas que, mesmo assim, não consigo deixar de desejar.
Eu sigo minha vida dividido entre o que eu sou no morro e o que eu sou quando penso nela.
E, às vezes, me pergunto se um dia isso vai explodir.
Porque sentimentos reprimidos demais… uma hora escapam.
Por enquanto, eu sigo no meu corre. Sigo sendo o gerente frio, o amigo fiel, o parceiro leal, o cara que resolve tudo antes de alguém pedir.
Mas dentro de mim, só existe uma verdade que ninguém sabe:
A única que mexe comigo de verdade… é Layla.