CAPÍTULO — Mariana
Narrado por Mariana
Eu sabia que aquele não era um lugar pra mim.
Sabia desde o momento em que aceitei vir.
Mas saber e sentir são coisas bem diferentes.
Eu estava sentada ali, numa mesa simples de lanchonete, no meio do morro, tentando parecer normal, tentando parecer à vontade, enquanto tudo em mim estava em alerta. Não por medo exatamente — era mais uma sensação de deslocamento. Como se eu tivesse entrado num cenário que não foi feito pra mim.
Juninho falava com naturalidade. Ria. Cumprimentava pessoas que passavam. Ele pertencia àquele lugar de um jeito que eu nunca pertenceria. Mesmo sendo criado ali, mesmo sendo meu irmão, ele tinha criado raízes naquele chão.
Eu não.
Quando eles chegaram, foi impossível não notar.
Primeiro vi a moto parando do outro lado da rua. Depois o capacete sendo tirado. E então… ele.
Vitinho.
Eu não tinha uma imagem concreta dele na minha cabeça. Só histórias soltas, comentários, alertas silenciosos da minha mãe quando ainda era viva. “Teu irmão vive uma realidade diferente”, ela dizia. “E o dono do morro é alguém que você nunca deve cruzar.”
Mas ali estava eu.
Cruzando.
O impacto foi imediato. Não foi beleza comum. Não foi charme ensaiado. Foi presença. Um tipo de energia que não pede permissão pra ocupar espaço. Ele olhou pra mim como se tivesse sentido o mesmo choque — e isso me desestabilizou.
Por alguns segundos, ninguém existiu além daquele olhar.
Quando ele desviou, senti um alívio estranho… e ao mesmo tempo uma pontada de decepção que me irritou comigo mesma.
Quem ele pensa que é?
Quem eu penso que sou?
Quando Juninho chamou eles pra sentar, meu coração acelerou. Eu tentei manter a postura, o controle. Cruzei as pernas, alinhei a coluna, fiz aquilo que sempre faço quando estou nervosa: observei.
Vitinho sentou. Próximo demais. A irmã dele, Layla, ao lado. Ela era bonita. Jovem. Tinha um ar sensível, mas os olhos atentos. Ela percebeu o clima no mesmo instante. Eu vi.
Ele me observava sem disfarçar. Não de forma vulgar. Era como se estivesse tentando entender o que eu fazia ali. Como se eu fosse um elemento fora do cálculo.
— Vitinho — Juninho disse. — Essa é a Mariana.
Quando ele respondeu “eu sei”, senti um arrepio.
Como assim ele sabia?
— Vitinho — corrigi mentalmente quando ele disse o nome dele. O jeito que ele falou parecia carregar peso. Responsabilidade. Autoridade.
Quando falei o nome dele em voz alta, percebi o efeito que causou. O olhar dele mudou. Ficou mais atento. Mais fechado.
O clima era denso. Não pesado. Denso.
Layla tentou puxar assunto, e eu agradeci silenciosamente. Ela falava com leveza, mas observava tudo. Em certo momento, ela se inclinou e falou algo baixo com Juninho. Eles trocaram um olhar rápido. Um tipo de conversa muda que eu não entendia, mas sentia.
Eu estava quieta demais.
— Você mora aqui perto? — Vitinho perguntou.
A pergunta me pegou desprevenida. Não pelo conteúdo, mas pelo interesse.
— Não — respondi. — Moro na Zona Sul.
Ele disse “imaginei” como se aquilo confirmasse algo que já estava claro desde o início. Eu me senti exposta. Minha roupa. Meu jeito. Meu silêncio. Tudo gritava que eu não pertencia àquele lugar.
O lanche chegou. Eu agradeci pela distração. Mastiguei devagar, mais focada em observar do que em comer.
Vitinho parecia desconfortável. Não nervoso. Não inseguro. Desconfortável. Como se aquela situação estivesse fora do controle dele — e isso claramente não era comum.
Em alguns momentos, nossos olhares se encontravam de novo. Rápidos. Intensos. Involuntários.
Não havia flerte explícito.
Era reconhecimento.
E isso me assustava mais do que qualquer cantada.
Eu pensava na minha mãe. No que ela diria se me visse ali. Pensava na linha invisível que separava meu mundo daquele. Pensava em como bastava um passo errado pra atravessar algo sem volta.
— A gente não vai demorar — Vitinho disse.
Eu assenti.
— Eu também não posso — respondi. — Só vim lanchar.
Foi verdade. Mas também foi mentira. Porque uma parte de mim queria ficar. Queria entender. Queria decifrar.
Quando nossos olhares se cruzaram mais uma vez, eu senti. Não foi paixão. Não foi amor. Foi algo mais perigoso.
Curiosidade profunda.
Aquela sensação de que a vida tinha acabado de abrir uma porta que talvez devesse permanecer fechada.
E eu soube, naquele exato momento, que aquele encontro não terminaria ali.
Mesmo que todos nós fingíssemos que sim.