CAPÍTULO — Vitinho
Narrado por Vitinho
Cheguei em casa no fim da tarde com o corpo pesado e a cabeça cheia. Aquele tipo de dia que não teve nada fora do normal, mas mesmo assim cansou mais do que devia. Abri o portão, entrei e fechei atrás de mim no automático. O silêncio da casa me recebeu como sempre.
Layla tava jogada no sofá, de pernas dobradas, celular na mão, televisão ligada sem som. Ela levantou o olhar assim que me viu.
— Chegou cedo — falou.
— Dia foi tranquilo — respondi, largando a chave em cima do aparador.
Ela assentiu, observando meu rosto como se tentasse ler algo além do óbvio. Layla sempre foi assim. Atenta demais. Sensível demais. Talvez por isso eu tentasse proteger ela tanto.
— Vou tomar um banho — falei. — Já desço.
Subi as escadas, tirei a camisa pelo caminho e entrei no banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água cair quente, forte. Apoiei as mãos na parede, fechei os olhos por alguns segundos.
Minha mente não desligava.
Juninho.
Mariana.
A sensação estranha que eu vinha sentindo desde cedo.
Saí do banho, me troquei rápido — bermuda escura, camisa preta simples — e desci de novo. Layla continuava no sofá, agora sentada direito, celular largado de lado.
— Victor — ela chamou.
— Fala.
— Tô com fome — disse, com aquela voz manhosa que ela raramente usava.
— Ué, pede alguma coisa — respondi. — Fala o que tu quer que eu mando alguém buscar.
Ela fez uma careta.
— Não quero comer em casa.
— Layla…
— Eu quero ir lá fora — interrompeu. — Comer sentada. Ver gente.
Cruzei os braços.
— Tá maluca? Já tá escurecendo.
— Ainda tá cedo — rebateu. — E é aqui perto.
— Não — respondi direto. — Quer comer, a gente pede.
Ela se levantou do sofá, cruzou os braços também, me encarando.
— Victor, eu fico o dia inteiro aqui dentro — falou. — Eu só quero ir ali na lanchonete. Só isso.
— Não precisa.
— Pra você talvez não — respondeu. — Mas pra mim, sim.
Suspirei fundo. O problema nunca foi a lanchonete. O problema é tudo que vem junto. Gente olhando, comentando, se aproximando por causa de quem eu sou.
— Não insiste — falei.
— Eu vou insistir — ela respondeu, firme. — Eu não sou mais criança.
Aquela frase me atingiu mais do que devia.
— Eu sei — falei mais baixo. — Mas o mundo não muda só porque você cresceu.
Ela se aproximou um pouco.
— Eu só quero sentar, comer um lanche e voltar — disse. — Com você.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Olhei pra ela. Tão parecida com a nossa mãe naquele jeito decidido de pedir algo simples que, pra ela, era enorme.
— Tá — falei por fim. — Mas a gente vai de moto. Come e volta.
O sorriso que apareceu no rosto dela foi instantâneo.
— Sério?
— Sério — respondi. — Pega um casaco.
Ela quase correu pra pegar.
Peguei as chaves da moto, capacetes, e saímos. O vento da noite batendo no rosto, o morro vivo ao redor. Layla segurava firme na minha cintura, como sempre fez desde pequena.
Parei a moto do outro lado da rua da lanchonete. Não gosto de parar na frente. Gosto de observar antes.
Desci da moto, tirei o capacete.
Foi quando eu vi.
Juninho tava sentado numa mesa mais afastada. Reconheci na hora. Postura relaxada, mas atenta. Do jeito que ele fica quando tá com alguém importante.
E ao lado dele…
Ela.
Mariana.
Eu nunca tinha visto ela pessoalmente. Só ouvido falar. Só imaginado por histórias soltas. Mas bastou um segundo pra saber quem ela era.
Cabelo longo até a cintura, solto, claro sob a luz da lanchonete. Roupa simples, mas claramente cara. Postura contida, olhar atento, discreto. Ela não falava muito. Observava.
Nossos olhares se encontraram.
Por alguns segundos, o mundo pareceu diminuir de tamanho.
Não foi desejo imediato.
Foi impacto.
Como se algo tivesse se encaixado e desencaixado ao mesmo tempo. Uma sensação elétrica, estranha, incômoda. Ela também não desviou na hora. Ficou me olhando, curiosa, surpresa, talvez um pouco intimidada.
Layla percebeu.
— Victor… — ela chamou baixo.
Pisguei, quebrando o contato visual. Coloquei o capacete no guidão.
— Vamo — falei.
Atravessamos a rua. Quando nos aproximamos, Juninho levantou na hora.
— E aí, Vitinho — falou. — Layla.
— E aí — respondi, seco, sem tirar os olhos completamente dela.
Juninho puxou uma cadeira.
— Senta aí com a gente.
Hesitei.
— A gente ia só pegar e voltar — falei.
— Que nada — ele insistiu. — Come com a gente.
Layla me olhou, pedindo em silêncio.
— Por favor — sussurrou.
Suspirei.
— Tá.
Sentamos. Layla ficou ao meu lado. Mariana à frente. Agora, mais perto, deu pra ver melhor. Ela tinha um jeito delicado, mas não frágil. Os olhos curiosos, mas contidos. Claramente fora daquele ambiente, mas tentando não demonstrar.
— Vitinho — Juninho falou. — Essa é a Mariana.
— Eu sei — respondi, sem pensar.
Ela arqueou a sobrancelha de leve.
— E você deve ser o Victor — ela disse, voz calma.
— Vitinho — corrigi.
— Vitinho — repetiu.
O jeito que ela falou meu nome… não gostei. Não porque foi errado. Mas porque mexeu.
Layla percebeu o clima na hora. Olhou pra Juninho. Ele olhou de volta. Um olhar rápido, carregado de coisa não dita.
— Vocês já pediram? — Layla perguntou, tentando quebrar o clima.
— Já — Juninho respondeu. — Tá chegando.
Mariana ficou quieta. Mexia na borda do guardanapo, observava tudo com atenção. Eu me sentia estranho. Desconfortável. Não pelo lugar. Pela situação.
Ela não pertencia àquele mundo.
E, ainda assim, tava ali.
— Você mora aqui perto? — perguntei, sem perceber que tinha falado.
Ela me olhou surpresa.
— Não — respondeu. — Moro na Zona Sul.
— Imaginei.
— É… — ela sorriu de leve.
O lanche chegou. O cheiro bom ajudou a quebrar um pouco da tensão. Layla começou a falar mais, animada. Juninho acompanhava, mas eu percebia que ele tava atento demais. Principalmente aos olhares.
Entre Layla e Juninho.
Entre mim e Mariana.
Em certo momento, Layla se inclinou um pouco pra Juninho, falando algo baixo. Ele sorriu, meio sem jeito. Mariana observou. Eu observei Mariana observando.
Tudo ali tava conectado demais pra ser coincidência.
— A gente não vai demorar — falei, mais pra mim do que pra eles.
Mariana assentiu.
— Eu também não posso — respondeu. — Só vim lanchar.
Nossos olhares se cruzaram de novo. Dessa vez, mais rápidos. Mais conscientes.
A corrente elétrica ainda tava lá.
E eu soube.
Aquele encontro não era simples.
Não era casual.
Não era seguro.
E nada bom nasce sem causar algum tipo de problema.