CAPÍTULO — Juninho
Narrado por Juninho
Saímos da lanchonete sem muita conversa. Não porque não tivesse assunto, mas porque tinha coisa demais entalada no ar. Aquele tipo de silêncio que não é vazio — é cheio de pensamento, de coisa não dita, de conclusão que ainda tá se formando.
Mariana caminhava ao meu lado, postura ereta, passos firmes, mas eu conhecia minha irmã o suficiente pra saber quando ela tava processando algo. Ela sempre foi assim. Observa primeiro, sente depois, fala só quando já entendeu quase tudo.
Entramos no carro. Dei partida devagar, sem pressa. O morro tava movimentado, som vindo de longe, gente conversando nas calçadas, vida acontecendo como sempre.
— Você tá quieta — falei, quebrando o silêncio.
Ela deu um meio sorriso.
— Tô pensando.
— Imaginei.
Seguimos alguns metros em silêncio de novo. Eu não forcei. Aprendi cedo que Mariana só fala quando quer. E quando fala, geralmente é direto.
— Juninho… — ela começou.
— Fala.
— Eu percebi uma coisa lá — disse, olhando pra frente.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
— O quê?
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Os olhares.
Soltei um riso curto, sem humor.
— Que olhares?
Ela virou o rosto pra mim, me encarando de lado.
— Não se faz de bobo — falou. — Entre você e a Layla.
Aquilo me pegou desprevenido. Não porque não fosse verdade, mas porque eu não esperava que ela fosse direto assim.
— Mariana…
— Calma — interrompeu. — Não tô julgando. Só percebi.
Suspirei, mantendo os olhos na rua.
— Ela é bonita — Mariana continuou. — Muito. E dá pra ver que te admira.
Engoli seco.
— Ela é só a irmã do Vitinho — respondi rápido demais.
Mariana arqueou a sobrancelha.
— É isso que você diz… ou é isso que você quer acreditar?
Não respondi.
O carro desceu mais um pouco. A iluminação foi mudando conforme a gente se afastava do centro do morro. A conversa tinha ficado mais séria do que eu planejava.
— Juninho — ela falou mais baixo agora. — Eu vi como vocês se olharam.
— Não tem nada pra ver.
— Tem, sim — ela insistiu. — Mas eu entendo. Não é simples.
Passei a mão no volante, respirando fundo.
— O problema nunca foi ela — falei. — Sou eu. E o mundo que a gente vive aqui.
Ela assentiu lentamente.
— Eu imagino.
Ficamos em silêncio de novo. Mas dessa vez não era desconfortável. Era reflexão compartilhada.
Depois de alguns minutos, foi a vez dela tocar num assunto que eu sabia que viria.
— E o Vitinho? — ela perguntou, casual demais pra ser casual.
Meu coração deu um pulo curto.
— O que tem ele?
— Juninho… — ela suspirou. — Eu nunca vi um homem olhar daquele jeito.
Franzi o cenho.
— Que jeito?
Ela demorou um pouco pra responder.
— Como se tivesse perdido o controle por um segundo — disse. — Como se algo tivesse atravessado ele sem pedir licença.
Aquilo me atingiu em cheio.
Porque era exatamente o que eu tinha visto.
Vitinho sempre foi frio. Calculista. Controlado. Mesmo quando tá rindo, tá atento. Mesmo quando relaxa, tá pronto pra reagir.
Mas naquela mesa…
— Eu também percebi — admiti, finalmente.
Ela me olhou surpresa.
— Percebeu o quê?
— Que ele nunca olhou pra ninguém daquele jeito — respondi. — Nunca.
E não era exagero. Eu conhecia Vitinho desde moleque. Vi mulher dar em cima. Vi interesse. Vi desejo. Mas nunca vi aquele tipo de choque silencioso.
— Isso é perigoso — Mariana murmurou.
— Muito.
O carro saiu do morro. A paisagem mudou. Prédios mais baixos, ruas mais largas, iluminação mais limpa. O mundo dela.
— Você se arrepende de ter vindo? — perguntei.
Ela pensou um pouco.
— Não — respondeu. — Mas sei que isso abriu uma porta.
— Porta que talvez não devesse.
Ela sorriu de leve.
— A vida nunca pergunta isso antes de abrir, né?
Parei o carro em frente ao prédio dela. Um lugar bonito, organizado, seguro. Tudo tão diferente do que eu deixaria pra trás em poucos minutos.
— Chegamos — falei.
Ela soltou o cinto, mas não saiu imediatamente.
— Juninho…
— Oi.
— Se cuida — disse. — De verdade.
Assenti.
— Você também.
Ela saiu do carro, deu a volta e se inclinou pela janela aberta. Me abraçou forte.
— Eu te amo — disse.
— Também te amo, patricinha.
Ela riu, fechou a porta e entrou no prédio.
Fiquei ali parado por alguns segundos, observando até ela sumir. Depois dei partida e voltei.
O caminho de volta sempre parece mais longo.
Conforme eu subia o morro de novo, minha mente replayava a cena da lanchonete. O olhar do Vitinho. O silêncio da Mariana. O jeito que Layla observava tudo.
Era coisa demais acontecendo ao mesmo tempo.
Cheguei na boca já noite fechada. Movimento normal. Os caras me cumprimentaram. Entrei, encostei no balcão, troquei ideia rápida, mas minha cabeça tava longe.
Vitinho chegou pouco depois.
Só de olhar pra ele, eu soube.
Ele tava diferente.
Não era visível pra qualquer um. Mas pra mim, sim. O jeito de andar. O olhar mais fechado. A presença mais tensa.
— E aí — ele falou.
— E aí.
Nos encaramos por um segundo a mais do que o normal.
— Tá tudo certo? — perguntei.
— Tá — respondeu rápido demais.
Assenti, sem insistir.
Mas por dentro, eu sabia.
Alguma coisa tinha mudado.
E quando Vitinho muda…