Capítulo 02

1275 Words
NARRADO POR MARIANA Eu tenho vinte anos, e olhando pra minha vida hoje, parece até estranho pensar em tudo que já vivi. Carrego lembranças boas, outras nem tanto, e algumas que ainda doem só de pensar. Mas são elas que fizeram quem eu sou. Nasci na zona sul do Rio de Janeiro, em um bairro tranquilo, com minha mãe e meu pai. Até os meus dez anos, vivemos os três juntos. Eu era pequena, mas lembro de muita coisa… das nossas manhãs barulhentas, do cheiro de café que minha mãe fazia, das brincadeiras que meu pai inventava só pra me ver rir. Eles brigavam às vezes, é verdade, mas na minha cabeça de criança, família era aquilo: conversa, rotina, amor nas pequenas coisas. Até que um dia tudo virou de cabeça pra baixo. Quando eu tinha dez anos, meus pais se separaram. Não foi bonito. Não foi leve. Eu lembro da minha mãe chorando no quarto, lembro de ouvir coisas que eu nem entendia direito na época, e lembro do meu pai tentando me explicar que, por mais que eles se amassem, não conseguiam mais viver juntos. Eu não queria entender, eu só queria que minha vida ficasse igual. Mas nem sempre a gente tem escolha. Depois da separação, fiquei com minha mãe. Meu pai saiu de casa e voltou a morar no morro da Maré com meu irmão — irmão esse que, até então, eu conhecia pouco. Ele era filho só do meu pai. A mãe dele tinha abandonado ele ainda bebê, e meu pai criou ele sozinho até conhecer a minha mãe. Eu tinha carinho por ele, mesmo de longe. Sempre ouvi minha mãe dizer que ele era bom menino, mesmo criado na dureza, e que meu pai fazia de tudo por ele. Mas a vida da Maré e a minha vida na zona sul eram dois mundos diferentes. Eu não cresci convivendo com ele. Cresci ouvindo histórias, sabendo que tinha um irmão, mas sem realmente tê-lo ao meu lado. Depois de um tempo, a relação entre meus pais virou apenas essa: visitas, telefonemas e tentativas do meu pai de continuar presente na minha vida. Mas, aos poucos, as coisas começaram a mudar. Ele entrou no mundo das drogas. Não sei exatamente quando começou, nem por quê. Sei apenas o que sempre ouvi: que meu pai nunca foi uma pessoa r**m. Ele tinha um coração grande, mas tinha seus monstros. E um desses monstros venceu. Meu pai morreu há cinco anos, de overdose. Eu lembro da ligação. Lembro da sensação do chão sumindo. Lembro da minha mãe me abraçando enquanto eu tremia. Morrer assim é como um apagão, rápido demais, c***l demais. E mesmo que eu soubesse que ele tinha problemas, eu nunca imaginei que seria daquele jeito. Por um tempo, fiquei com raiva. Raiva por ele ter ido embora. Raiva por ter deixado o meu irmão sozinho. Raiva por não ter lutado mais. Mas depois entendi que vícios não escolhem pessoas ruins. Eles escolhem pessoas machucadas. E meu pai sempre carregou dores que eu nunca pude entender. Depois da morte dele, minha mãe virou tudo pra mim. Meu porto seguro. Minha casa. Minha vida. Ela dizia que eu era a princesa dela — e era assim que eu me sentia. Não porque ela me mimava, mas porque ela fazia tudo com tanto carinho, com tanta dedicação, que eu realmente acreditava que o mundo era um lugar mais leve do que realmente é. Ela trabalhava muito. Tínhamos uma vida boa, confortável. Sem luxos exagerados, mas sem faltar nada. Minha mãe tinha um bom emprego e um dinheiro guardado, e eu via nela uma força que nunca acabou. Ou pelo menos eu achava que nunca acabaria. Até que acabou. Minha mãe morreu há um ano, em um acidente de carro indo para o trabalho. Essa frase ainda pesa. Ainda aperta. Ainda me quebra por dentro sempre que digo em voz alta. Foi tão rápido, tão absurdo, tão injusto, que até hoje parece que estou vivendo um sonho r**m do qual não consigo acordar. A polícia disse que foi fatalidade. Eu chamo de tragédia. Daquelas que você nunca espera, nunca imagina, nunca percebe que está chegando. A falta dela… Essa eu sinto todos os dias. Sinto quando acordo e a casa está silenciosa demais. Sinto quando preparo café e lembro dela cantarolando. Sinto quando olho para alguma roupa que ela gostava. Sinto quando vejo mães e filhas andando juntas na rua. Mas mesmo com a dor, eu estou seguindo em frente. Eu sei que ela iria querer isso. Minha mãe sempre me ensinou a ser forte, mesmo quando tudo parecia difícil. E é isso que tenho tentado ser. Depois que ela se foi, precisei crescer de verdade. Já trabalhava em home office havia algum tempo, então continuei. Ainda bem que ganho bem e consigo manter minha vida sem mexer no dinheiro guardado da minha mãe. Tenho esse dinheiro como um pedaço dela — algo que ela deixou pra mim com amor, com cuidado. Não quero tocar nisso por enquanto. É como se eu mantivesse ela comigo, de alguma forma. E mesmo sozinha, eu nunca estive totalmente só. Meu irmão. Ele sempre esteve aqui. Mesmo vivendo no morro, mesmo tendo uma vida completamente diferente da minha, ele nunca me deixou. Todos os dias a gente conversa, nem que seja só por mensagem. Ele me pergunta como eu estou, se preciso de algo, se estou me alimentando direitinho, se dormi bem. Meu irmão é aquele tipo de pessoa que demonstra amor mais pelas atitudes do que pelas palavras. Eu nunca fui ao morro. Nunca. Minha mãe jamais deixou. Ela dizia que o ambiente não era pra mim, que era perigoso, que ela não ia arriscar. E eu respeitei. Cresci ouvindo sobre a vida do meu irmão lá, e mesmo que ele nunca tenha deixado nada faltar pra mim, mesmo que eu soubesse que ele não era uma pessoa r**m… eu sabia sim o tipo de mundo que ele vivia. Não porque ele me contava. Mas porque todo mundo falava. E também porque ninguém no morro sobe respeito sem motivo. Mesmo assim, ele sempre fez questão de vir me ver. Nunca pediu pra eu ir até lá. Ele descia. Ele se encaixava no meu mundo quando podia, quando dava. Ele me tratava como uma joia, como algo que precisava ser protegido. Talvez porque, no fundo, eu fosse mesmo a única coisa leve na vida dele. E o mais engraçado — ou irônico — é que todo mundo ao meu redor me chama de patricinha. Patricinha. A menina da zona sul. A que cresceu numa casa boa. A que estudou em colégio tranquilo. A que nunca viu de perto o que é a dureza do outro lado da cidade. E tudo bem. Eu sei quem eu sou. Sei de onde vim. Sei da minha história. Só que ninguém imagina que a patricinha tem um irmão que carrega responsabilidades do morro nas costas. Ninguém imagina que metade de mim nasceu em um mundo completamente diferente daquele onde fui criada. Ninguém imagina que eu cresci dividida entre dois extremos: o asfalto que me moldou e a favela que moldou meu irmão. Eu sou o meio-termo entre dois universos. E, mesmo tentando viver uma vida tranquila, sinto que algo está mudando. Algo se aproximando. Talvez por causa das conversas cada vez mais tensas do meu irmão. Talvez porque sinto falta demais da minha mãe. Ou talvez porque estou percebendo que não dá pra viver entre dois mundos para sempre. Uma hora… um dos lados puxa a gente. E eu tenho a sensação de que minha vida está prestes a virar. De novo.
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