Capítulo 11

898 Words
CAPÍTULO — Mariana Narrado por Mariana Fiquei parada na frente do guarda-roupa por mais tempo do que eu gostaria de admitir. As portas abertas, as roupas organizadas por cor, por tipo, por estação. Tudo no lugar. Tudo sob controle. Menos eu. Respirei fundo e passei a mão pelo rosto. — É só um lanche — murmurei pra mim mesma. Mas não era só um lanche. Era o morro. Era o mundo do meu irmão. Era um lugar que, por vinte anos, me disseram que não era pra mim. Peguei um short preto de alfaiataria, curto na medida certa. Nada vulgar, nada exagerado. Elegante. Vestia bem, marcava o corpo sem esforço. Combinei com uma blusa branca simples, tecido leve, caimento perfeito. O tipo de roupa que parecia básica, mas que dizia exatamente de onde eu vinha. Soltei o cabelo. Ele caiu liso até a cintura, pesado, bonito. Passei só um hidratante no rosto, rímel leve, gloss discreto. Nada além disso. Coloquei uma rasteira clara, dessas confortáveis, mas caras. O clássico visual de patricinha que eu nem percebia que carregava. Me olhei no espelho. — Coragem — falei baixinho. Peguei a bolsa pequena, celular, chave e saí. O caminho até a entrada do morro pareceu mais longo do que realmente era. Dentro do carro de aplicativo, eu observava tudo pela janela. As ruas mudando, os prédios ficando mais baixos, o movimento ficando mais intenso. Meu coração batia forte, mas não de medo exatamente. Era expectativa. Era desconhecido. Quando o carro parou, eu vi ele. Juninho estava escorado no carro, braços cruzados, postura firme, óculos escuros mesmo já começando a escurecer. Camisa preta simples, corrente no pescoço, tatuagem aparecendo no antebraço. Ele parecia… no lugar certo. Como se aquele cenário tivesse sido desenhado pra ele. Quando me viu, abriu um sorriso que eu conhecia desde criança. Desci do carro e, antes mesmo de dizer qualquer coisa, ele me puxou pra um abraço forte. Daqueles que apertam de verdade, que protegem, que dizem “tá tudo bem” sem precisar falar. — Você veio mesmo — ele disse, surpreso e feliz. — Eu disse que vinha — respondi, rindo nervosa. — Tá linda — ele completou, se afastando um pouco pra me olhar. — Como sempre. — Você também — falei. — Com cara de quem manda em tudo. Ele riu. — Entra — falou, abrindo a porta do carro. — Fica tranquila. Entrei e ele deu a volta, assumindo o volante. O carro começou a subir devagar. Eu observava tudo, tentando não parecer impressionada demais. Crianças brincando, gente sentada na calçada, música saindo de algumas casas. Não era o caos que eu imaginava. Era vida. — Tá tudo bem? — ele perguntou, sem tirar os olhos da rua. — Tá — respondi. — Só… diferente. — Eu sei — ele falou. — Primeira vez sempre é. Subimos mais um pouco. — Vou só passar em casa rapidinho — ele avisou. — Coisa rápida. — Tudo bem — respondi. Quando o carro parou, eu precisei de alguns segundos pra processar. A casa. Ela não combinava com nada do que eu tinha imaginado. Era grande. Bonita. Moderna. Dois andares. Portão bem cuidado, fachada impecável. Nada improvisado. Nada simples. — Juninho… — comecei, olhando ao redor. Ele abriu o portão rindo. — Que foi? — Tá morando bem, hein, irmão — falei brincando, ainda em choque. Ele riu alto. — Tá achando que eu moro onde? Em barraco? — Não… mas também não esperava isso — confessei. Entramos. A casa por dentro era ainda mais bonita. Limpa, organizada, decoração de bom gosto. Tudo amplo, claro, silencioso. — Caramba — falei, girando devagar no meio da sala. — Eu jurava que você tava escondendo isso de mim. — Nunca escondi — ele respondeu. — Só nunca trouxe você aqui. — Agora eu entendo por quê — falei, rindo. — Se a mãe visse isso, ia falar que você tá melhor que muito playboy da Zona Sul. Ele abaixou a cabeça, sorrindo de canto. — Ela ia gostar daqui. O clima ficou mais sério por um segundo. Engoli seco. — Ia sim — respondi. Ele pegou a chave em cima da mesa. — Vamos? — perguntou, quebrando o silêncio. — A lanchonete é ali embaixo. — Vamos. Voltamos pro carro. Eu ainda olhava a casa pelo retrovisor, tentando encaixar aquela imagem na ideia que eu tinha do morro. Descemos até uma lanchonete simples, mas bem movimentada. Luz forte, cheiro bom, gente conversando alto. Entramos. Alguns olhares se viraram pra mim. Não por maldade. Por curiosidade. Eu sabia que destoava. Pele clara, cabelo longo, roupa limpa demais. Eu não me sentia m*l. Só… fora do lugar. Juninho percebeu e colocou a mão leve nas minhas costas, gesto discreto, mas firme. — Relaxa — falou baixo. — Aqui você tá comigo. Sentamos numa mesa. — O que você vai querer? — ele perguntou. — O que você pedir — respondi. — Confio. — Dois x-tudo, então — ele falou pro atendente. — E dois refrigerantes. — X-tudo? — perguntei, rindo. — Você não muda nunca. — Nunca — ele respondeu. — E você também não. Ficamos ali, conversando coisas simples. Trabalho, rotina, lembranças da infância. Pela primeira vez, eu não sentia aquele abismo entre nós. Só dois irmãos dividindo um lanche. Talvez meu irmão fosse muito mais do que eu imaginava. E talvez… aquela noite estivesse só começando.
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