Capítulo Dois: DesvioMontanhas Bighorn, Buffalo, Wyoming
Sábado, 5 de março de 1977, 11h15
Perry
Perry apontou sua cunha morro abaixo e deixou o vento soprar dentro de sua jaqueta e fazer cócegas em seu nariz. As árvores eram um borrão de cada lado dele. Ele nunca tinha ido tão rápido antes, exceto em um carro, e foi incrível. Gostava dessa coisa de esquiar. Estava feliz por seu pai não tê-los feito se matricular na escola de esqui, onde teria que passar o dia todo com um grande grupo de bebês. Esquiar era fácil. Por que não vieram antes? Eles moravam em Wyoming por dois anos, e ele poderia ter esquiado o inverno todo o tempo todo. Poderia até ter feito sua festa de aniversário aqui. Ano que vem, com certeza.
Pensou em sua agenda de atletismo por um segundo. A temporada de futebol terminaria quando a temporada de esqui começasse, então o treinador não poderia dizer a ele para não esquiar. Buffalo High tinha uma equipe de esqui? Esperava não estar atrasado para começar, mas poderia aprender rápido, como havia feito com o futebol. Uma pequena emoção o percorreu. Poderia ser um piloto. Um downhiller como Andy Mill. Torceu muito por ele durante as Olimpíadas. Embora Andy tivesse se machucado, ele queria tanto correr que enfiou a perna na neve até ficar dormente antes do evento e ainda assim terminou em sexto lugar. Era durão, como o pai de Perry. Como Perry queria ser.
Quando você não é alto, tem que ser durão, e Perry definitivamente era baixinho. Sua irmã nunca se cansava de lembrá-lo de como ele era um camarão. – Não é o tamanho do cachorro na briga, é o tamanho da briga no cachorro – seu pai sempre lhe dizia. Ele estava meio certo, mas um cachorro grande e forte ainda era melhor, na opinião de Perry. É por isso que ele pediu halteres e pesos de tornozelo em seu aniversário. Ele também os estava usando. Não era justo. Todos os seus amigos estavam brotando como ervas daninhas. Perry mediu sua altura em relação a uma marca de gol que fazia todos os dias no batente da porta de seu armário, a altura de seu melhor amigo John, no final da temporada de futebol e, para sua grande decepção, não parecia estar ganhando com isso. Ou deixar crescer bigodes ou pelos no peito também. Ele saberia se tivesse, porque usava uma lupa para olhar todas as noites.
Limpou a neve até parar, seu tornozelo tremia e doía. Quebrou no futebol no outono passado, depois machucou novamente em dezembro, e só tirou o gesso duas semanas antes. Esquiar com um tornozelo quebrado m*l cicatrizado? Ainda bem que ele estava usando seus pesos nos tornozelos. Sorriu. Então talvez ele fosse um pouco durão.
Olhou ao seu redor. Podia ver o grande chalé de blocos no sopé da montanha. Estava no último campo antes da rampa aberta até o deck de madeira. Teria tempo de pegar o elevador para mais uma corrida antes do almoço? Seu estômago roncou. Não. Mas ele não precisava ter pressa para chegar lá.
Seus lábios ardiam e ele passou a língua sobre eles. Rachado, seco e sangrento. Colocando as luvas na neve a seus pés, puxou seu Chapstick e esfregou-o. Estava frio demais para espalhar bem e tinha gosto de cera. Continuou esfregando até pegar um pouco. Quando ele estendeu a mão para colocá-lo no bolso, o bastão escorregou de seus dedos. Desaparecendo na neve. Tudo bem. Não estava fazendo muito bem de qualquer maneira. Enfiou a mão de volta em uma das luvas, mexendo os dedos e puxando-a, depois repetindo o processo do outro lado.
Um conjunto de pistas de esqui saía da pista e entrava na floresta, bem separadas, como se alguém estivesse esquiando com as pernas em um grande V. A trilha parecia bem plana e muito divertida. Ele poderia fazer isso. Sua única preocupação era se ele ficasse preso. Seus pais não o deixaram alugar bastões, por recomendação do velho que distribuiu o equipamento. Se houvesse trechos planos, Perry teria que tirar os esquis e caminhar. Sem problemas, decidiu.
Primeiro, como seu pai sempre o ensinava sobre sobrevivência na selva, ele pensou em seus suprimentos: um sanduíche e seu canivete. Era isso. Nem mesmo um Chaptstick mais. Provavelmente não é tudo o que ele precisaria se fosse pego por uma avalanche, atacado por um alce ou caísse e quebrasse a perna. Mas nenhuma dessas coisas iria acontecer.
Seu pai tinha uma tendência a reagir exageradamente a pequenas coisas. Quanto custa o material escolar, tirar o lixo com um dia de atraso ou perder coisas. Então, às vezes sua mãe, Trish e Perry guardavam segredos de seu pai porque, como sua mãe sempre dizia: – O que seu pai não sabe não machuca ninguém.
Como agora, quando Perry sabia que ficaria bem.
Permanecendo em sua posição, Perry virou-se dando pequenos passos até ser apontado na direção certa. Então dobrou os joelhos e inclinou-se para frente. Ganhou velocidade rapidamente até atingir a pólvora. Certa vez, pisou no freio com muita força em sua bicicleta e passou por cima do guidão. Isso foi quase tão r**m. Jogou-se para trás com os braços estendidos para não cair de cara no chão. Sua posição o fez pensar nos saltadores de esqui que ele assistiu nas Olimpíadas. Esses saltos enormes definitivamente não eram algo que ele queria tentar, mas um pequeno seria bom.
Árvores passaram por ele de ambos os lados. As altas com galhos grossos de pinheiro e as pequenas com apenas o topo saindo da neve. Ele atropelou uma das pequenas. Uma pinha caiu silenciosamente na neve ao lado dele. Estava tão quieto que o silêncio parecia alto. Tudo o que podia ouvir era o vento em seus ouvidos e o chilrear de um esquilo furioso.
De vez em quando, suas pontas afundavam em pó profundo e ele tinha que lutar para ficar de pé. Algumas vezes quase bateu em uma árvore, o que foi um pouco assustador. Mas principalmente, se sentia forte e livre. Seu pai nunca havia esquiado em uma floresta antes, ou nunca havia esquiado. Perry foi o primeiro em sua família a fazer algo tão legal.
Um estalo reverberante rasgou o silêncio. Parecia que algo havia perfurado seus tímpanos. Seu coração começou a bater como um rufar de bumbo. Limpou a neve com tanta força que sua b***a quase bateu no chão, mas não conseguiu parar, não até que seus esquis se chocassem contra as árvores em ambos os lados da trilha.
O silêncio era ainda mais alto agora, exceto por sua respiração pesada. Tentou diminuir a velocidade, mas não adiantou muito. Ainda parecia seu cachorro Ferdinand depois de perseguir uma lebre.
O que tinha feito aquele barulho? Uma árvore se partiu com o frio? Ele aprendeu na escola que elas podiam fazer isso. Se fosse isso, poderia ter caído sobre ele. Examinou a floresta, procurando por uma árvore caída ou qualquer coisa fora do comum. Cerca de trinta metros de distância entre as árvores, viu algo se mover. Era uma pessoa com um macacão camuflado branco para a neve, usando um daqueles bonés com uma máscara facial que cobria o pescoço. A pessoa pendurou uma sacola longa e estreita com equipamentos na traseira de um snowmobile amarelo e montou. O que há no saco grande? Este não era um ótimo lugar para um piquenique. Ou para armadilhas, e a única coisa ainda na época para isso era fuinha - que Perry só conhecia porque o pai de John gostava de armadilhas e falava sobre isso o tempo todo quando Perry passava a noite na casa deles.
A pessoa se virou e o viu. Perry acenou, mas a pessoa não acenou de volta. Perry quase gritou uma saudação, pensando que talvez a pessoa não pudesse ver Perry porque ele estava se misturando à floresta, mas então percebeu que isso não fazia sentido. Seu casaco era vermelho e amarelo. Se destacaria contra toda a neve, não se misturaria. Então pensou em avisar a pessoa sobre o estalo que acabara de ouvir, mas, antes que pudesse, a pessoa desviou o olhar.
Seu estômago deu uma reviravolta engraçada e começou a doer, algo que acontecia ultimamente sempre que ele ficava nervoso. Sacudiu a mão no ar e virou o mais rápido que pôde, pronto para esquiar como um louco para fora dali. Mas o caminho de volta para a pista de esqui era mais difícil do que pensava quando estava esquiando. Gemeu. Não era íngreme, mas definitivamente não era plano. Teria que subir. Deslizou um esqui para frente, o que o mandou para trás em vez de para frente. Tentou novamente com o mesmo resultado. Parecia que havia olhos perfurando suas costas e, pelo que sabia, a pessoa estava se aproximando dele. Ele precisava voltar para a trilha, o mais rápido possível. De repente, sabia o que tinha que fazer. Para evitar descer ainda mais, colocou os esquis em uma cunha reversa, com as pontas dianteiras para fora e as pontas traseiras juntas. Funcionou. Seu impulso para trás parou e ele foi capaz de dar alguns pequenos passos encosta acima.
Então ouviu o fogo do snowmobile. Estava perto o suficiente para sentir o cheiro do escapamento soprando em sua direção com o vento. Acelerou algumas vezes e, depois de alguns segundos, o ruído do motor pegou e manteve. O snowmobile estava se movendo, na direção oposta à de Perry. Perry continuou rastejando lentamente morro acima. O som do motor ficou mais fraco. Encostou-se em uma árvore para descansar, o suor escorrendo por suas costas. Sentiu-se estranhamente mais leve. Aliviado.
A pessoa não tinha sido amigável, mas não havia nada para se assustar. Ele estava apenas sendo um grande gato assustado.
Ainda assim, estava sozinho ali e ninguém sabia para onde ele tinha ido.
Perry começou a subir a trilha de novo, um pouco mais rápido dessa vez.