Os dias que se seguiram à partida de Mattia se arrastaram com uma lentidão torturante. A Villa Marino voltou a ser a fortaleza de pedra sufocante que sempre foi, mas agora o ar parecia rarefeito. A ausência dele era um buraco físico no meu peito.
Apesar da apatia que me consumia, eu precisava manter a máscara. Continuei descendo a montanha para o maldito trabalho de caridade no Mensa del Pane. Minhas orações noturnas, no entanto, voltaram a ser feitas na capela particular da Villa Marino.
Não havia mais o menor sentido em implorar por isolamento em um quarto humilde e vazio no centro da cidade se o meu d***o não estaria lá para me encontrar no escuro.
Eu fazia tudo isso com uma devoção forçada, apenas para continuar impecável aos olhos fanáticos do meu pai e garantir o meu passe livre para o dia em que o Sottocapo retornasse.
Eu sentia, nas minhas veias, que não demoraria muito para que novos livros com as cartas secretas dele chegassem às minhas mãos.
Naquela noite, eu estava deitada de costas em um dos bancos de madeira da capela, com as pernas esticadas de forma displicente, encarando o teto abobadado. Girava o crucifixo de prata entre os dedos, completamente entediada.
De repente, o som metálico das chaves girando na pesada porta de carvalho quebrou o silêncio.
Em um reflexo instantâneo, rolei do banco para o chão e me pus de joelhos diante do altar. Abaixei a cabeça, colei as mãos em prece e comecei a murmurar palavras vazias, apertando o terço de prata como a perfeita santuzza.
Passos leves e hesitantes ecoaram pelo piso de mármore, caminhando na minha direção.
— Não precisa fingir que está rezando com o seu terço de prata — uma voz feminina e sussurrada ecoou na capela. — Sou eu.
Parei a minha falsa oração e olhei por cima do ombro. Beatrice estava de pé a poucos metros de mim, vestindo uma camisola de seda longa e segurando um candelabro pequeno.
— Você já devia estar dormindo — alfinetei, levantando-me devagar e espanando a poeira invisível da minha saia. — Sei que ajudar os outros é cansativo para você.
Beatrice revirou os olhos castanhos, a expressão exausta.
— Sério? Veja quem fala. Você vai manter esse teatro por um ano se o Sottocapo não voltar? — Ela cruzou os braços, a luz da vela balançando nas sombras do rosto dela. — Porque, até lá, o papai já pode ter casado você com outro homem. O noivo "santo" que ele tanto sonha, Aurora.
A menção ao casamento arranjado fez o meu estômago embrulhar, mas não deixei transparecer.
— Por que você não cala essa sua boca e sai daqui? — Retruquei, seca. — Quero ficar sozinha.
— E eu quero saber se você se cuidou direito — Beatrice rebateu, ignorando a minha grosseria e dando um passo à frente, a voz baixando para um tom conspiratório.
Franzi a testa, genuinamente confusa.
— Do que você está falando, maluca?
Beatrice soltou um suspiro pesado.
— Meu Deus, dai-me paciência. Você sabe muito bem o que acontece quando se faz... o que você estava fazendo com um homem, Aurora. Naquelas noites.
Eu pisquei. E então, a ficha caiu. O medo dela não era apenas o flagrante do nosso pai; era a biologia. Era o herdeiro do pecado crescendo no meu ventre.
Uma risada sombria escapou da minha garganta. O som ecoou pelas paredes sagradas da capela, macabro e irônico.
Beatrice estava me dando sermão sobre engravidar de um homem proibido no exato mesmo lugar onde Mattia havia rasgado a minha calcinha, me prensado contra o altar e tirado a minha virgindade durante o apagão da Villa Marino.
— E depois eu que sou a maluca — Beatrice murmurou, parecendo ofendida. — Aurora, leve isso a sério, por favor.
— Veja os assuntos que você trouxe para essa capela, irmãzinha — ironizei, apontando para o crucifixo gigante acima de nós, o sorriso ainda brincando nos meus lábios.
— Se você não se protegeu... — ela insistiu, a voz embargada de pânico.
— Eu não posso engravidar, Beatrice. Sério, eu nem queria ter que falar sobre isso com você.
Beatrice arregalou os olhos, a chama da vela tremendo na mão dela.
— Então... vocês usaram... camisinha?
— Não — respondi, o cinismo transbordando enquanto eu usava o vocabulário sujo que havia aprendido no escuro. — Fodemos no pelo. Todas as vezes.
Beatrice ofegou, horrorizada, dando um passo para trás como se eu tivesse acabado de cuspir no altar.
— Olha como você fala!
— A mais velha sou eu, i****a — disparei, os meus olhos azuis endurecendo. — Olha você como fala comigo.
— Se não usaram camisinha, você pode estar grávida, Aurora! O nosso pai vai te matar! Ele vai matar a todos nós!
— Sua b***a, eu tomo remédios.
O silêncio desabou sobre a capela. Beatrice abriu a boca, mas nenhum som saiu. Ela piscou várias vezes.
— O quê? — Ela finalmente sussurrou, a confusão substituindo o terror.
Revirei os olhos e caminhei até um dos bancos, sentando-me de forma relaxada.
— Lembra-se de quando éramos mais novas e eu ficava morrendo na cama, aos prantos com as cólicas? — perguntei. Beatrice assentiu devagar. — A primeira coisa que fiz quando fiz dezoito anos e o papai começou a me dar uma mesada em dinheiro para os meus gastos pessoais, foi resolver essa questão. Remédios que suspendem a menstruação. Pílulas anticoncepcionais contínuas. O sangramento para, a dor para, e eu não engravido de assassino nenhum. Simples assim.
Beatrice caminhou até mim, ainda chocada com o nível de planejamento que eu mantinha debaixo do nariz do nosso pai.
— E como você consegue isso? Você sai escondida para comprar?
Soltei uma risadinha nasal.
— Eu pago uma criada. Pagava, na verdade. Agora, eu arrumo e limpo o meu próprio quarto e o banheiro todos os dias, enquanto ela fica sentada confortavelmente assistindo à novela na minha poltrona com o volume baixo. Como pagamento, ela traz as caixas da farmácia da cidade para mim e joga fora as cartelas vazias.
— O papai te viu limpando o quarto semana passada — Beatrice lembrou, a voz trêmula.
— E você lembra o que eu disse a ele? — Sorri de forma gélida. — Eu disse que estava exercitando a humildade e que gostava de ajudar os criados com o serviço pesado para purificar a minha alma. Ele quase chorou de orgulho. Para você ver como é estupidamente fácil enganar o papai quando se diz o que ele quer ouvir.
Beatrice sentou-se ao meu lado no banco, encarando o chão de mármore, a mente dela trabalhando para processar a teia de mentiras que sustentava a nossa convivência.
— Todas nós temos segredos, Bea — falei, a minha voz suavizando apenas uma fração, voltando ao tom de irmã mais velha. — Você tem o seu dinheiro. Caterina tem um amiguinho e as cartas de criança. Eu tenho as minhas pílulas e o meu homem. Ninguém abre a boca. Ninguém entrega ninguém. É assim que a gente se protege do Alessio.
Beatrice levantou o rosto para mim. A luz da vela iluminava a tristeza e a preocupação profunda nos olhos dela.
— Você protegeria muito melhor a gente se simplesmente desistisse do Sottocapo — ela disse, a voz frágil e suplicante.
Desviei o olhar para o altar vazio de pedra fria. A lembrança das mãos grandes dele, da promessa violenta de que voltaria para quebrar os muros da Villa Marino, e daquele verde implacável me encarando na penumbra inundou a minha mente.
O meu peito apertou, não de medo, mas de uma devoção perversa e irrevogável.
— Lamento, Beatrice — sussurrei, a verdade escorregando dos meus lábios pela primeira vez, pesada como uma sentença de morte. — Acho que estou amando.