Capítulo 10: Mattia

1640 Words
O asfalto da Autostrada A20 ainda pulsava com o calor acumulado do dia quando avistei as luzes de Messina, mas o meu destino não era o centro urbano caótico e barulhento. Eu precisava de uma base antes de subir a montanha. Fiz o check-in no Grand Hotel Messina, um prédio de elegância desbotada que ficava perto o suficiente do porto para que eu pudesse sentir o cheiro de maresia e óleo diesel. No quarto, não desfiz as malas. Apenas joguei o paletó sobre a cama e fui até a varanda. De lá, eu conseguia ver o Estreito de Messina, aquela faixa de água escura e traiçoeira que separava a Sicília do continente. O movimento das barcas era constante, pequenas luzes deslizando sobre o abismo n***o. Mas meus olhos não buscavam a Calábria; eles se voltavam para cima, para as silhuetas massivas dos Colli San Rizzo que emolduravam a cidade como sentinelas de pedra. Tomei um banho frio, tentando dissipar a névoa de obsessão que me nublava o julgamento desde que abri aquela maldita folha marcada com batom em Palermo. Eu estava ali por uma mentira. Tinha colocado minha lealdade a Romeo Rossi em xeque por causa de uma fome que nenhuma outra mulher no mundo poderia saciar. Vesti uma camisa de linho branca, abotoando-a até o penúltimo botão, e recuperei meu coldre de axila. O peso da Beretta contra as minhas costelas era o único lembrete de realidade em uma noite que parecia um sonho febril. Ajustei o nó da gravata escura e saí. A subida começou logo depois que deixei as luzes da orla para trás. Messina desapareceu num piscar de olhos. Assim que entrei na Viale Panoramica, a atmosfera mudou drasticamente. A vegetação mediterrânea rasteira e o calor abafado da costa deram lugar a uma floresta densa de pinheiros e castanheiras. As árvores eram altas, antigas, bloqueando a pouca luz do luar e criando um túnel de sombras que parecia não ter fim. A temperatura caiu de forma perceptível. O ar tornou-se gelado e úmido, impregnado com o cheiro de terra molhada e resina. A estrada serpenteava perigosamente pela crista das montanhas, com curvas fechadas que exigiam atenção total. A cada curva, eu via lampejos de luz lá embaixo — a civilização que eu estava deixando para trás — enquanto subia em direção ao isolamento absoluto. Aquele era o território de Alessio Marino. Um lugar para quem não queria ser encontrado, ou para quem queria esconder seus pecados sob o manto da fé e do granito. Finalmente, no ponto mais alto da colina, onde a floresta se abria para o precipício, a Villa Marino surgiu. Não havia a elegância decadente dos palácios de Palermo ali. Era uma fortaleza de pedra de lava escura e calcário cinzento, parecendo uma extensão natural da própria montanha. Torres quadradas, janelas estreitas e gradeadas com ferro maciço, muros altos cobertos por musgo que sobrevivia no frio constante das nuvens. O cascalho estalou sob os pneus do meu carro enquanto eu parava diante do portão de ferro n***o. Olhei para a direita, para além do penhasco. O Estreito de Messina era uma mancha turbulenta lá embaixo, e as luzes de Reggio Calabria brilhavam do outro lado, a apenas três quilômetros de mar. O território da 'Ndrangheta estava logo ali, vigiando a fronteira. Desliguei o motor. O silêncio que se seguiu foi pesado, interrompido apenas pelo uivo do vento entre os pinheiros. Saí do carro e senti o frio morder meu rosto. Alessio Marino já me esperava. A recepção foi de uma hospitalidade gélida. O Capo de Messina me conduziu para a sala de jantar, onde a mesa já estava posta. Alessio sentava-se à cabeceira, rígido como uma estátua de santo, enquanto suas três filhas ocupavam os lugares laterais. Aurora estava à minha frente. Seus olhos azuis encontraram os meus por apenas um segundo antes de ela baixar a cabeça em um gesto de falsa submissão. Ela usava um vestido de linho azul-claro, fechado até o queixo, os cabelos loiros presos de forma impecável. Parecia um anjo, mas eu sabia que, por baixo daquele pano, ela escondia a marca do batom vermelho que tinha me feito atravessar a ilha. O jantar foi servido em silêncio absoluto. Comemos uma Pasta alla Norma — beringelas fritas, tomate e ricota salgada — seguida de peixe-espada grelhado com ervas das montanhas. A comida era excelente, mas eu queria provar outra coisa. Alessio falava pouco, apenas o necessário sobre a honra de receber um representante dos Rossi novamente, enquanto suas citações bíblicas pontuavam as pausas. Tudo besteira e falsidade, ele me mataria se eu rasgasse uma folha do livro sagrado. Ou se eu tocasse em uma das suas meninas. Beatrice, a irmã de cabelos escuros, parecia à beira de um colapso nervoso; ela m*l tocava na comida, seus olhos saltando de mim para Aurora com um terror m*l disfarçado. Será que ela tinha descoberto algo? Não importava, o perigo real era aquele homem que queria se passar por um santo enquanto fazia parte da Famiglia. — O trabalho nos aguarda, Sottocapo — disse Alessio, limpando os lábios com o guardanapo de linho assim que terminamos o café. — Instalei os livros contábeis no escritório de visitas, no andar térreo. É mais reservado e silencioso. — Agradeço a consideração, Signor Alessio — respondi, levantando-me. — Gostaria de começar imediatamente. Romeo Rossi preza pela precisão dos números. Ele me conduziu pelo corredor de pedra fria até uma sala ampla, com paredes cobertas por estantes de carvalho e uma mesa de nogueira maciça sob um abajur de luz amarelada. Pilhas de registros, notas fiscais e manifestos de carga estavam organizados metodicamente. — Vou deixá-lo com suas obrigações. Estarei na capela, orando para que sua busca por clareza seja produtiva — Alessio disse, fazendo o sinal da cruz antes de sair e fechar a porta. Fiquei sozinho. O silêncio da Villa era bem-vindo depois da voz daquele infeliz. Sentei-me à mesa, abri o primeiro livro contábil, mas as colunas de números eram borrões. Meus ouvidos estavam sintonizados em cada estalo da madeira, em cada passo no corredor. Passaram-se vinte minutos. Ouvi o clique suave da maçaneta. Eu não esperava que ela fosse tão audaciosa logo de cara. Aurora entrou segurando uma jarra de cristal com água e um copo solitário. O rosto dela estava sereno, mas o brilho nos olhos era de pura rebeldia. Ela fechou a porta atrás de si e, para o meu choque, girou a chave. O som do metal travando foi como o gatilho de uma arma sendo puxado. — O que você pensa que está fazendo? — Rosnei, levantando-me. A voz saiu rouca, carregada de uma urgência perigosa. — Trancar a porta é pedir para ser executada. Se o seu pai ouvir o clique... Aurora caminhou até a mesa com uma calma que me enfureceu. Ela ignorou meus avisos, colocando a jarra sobre um balanço financeiro de exportações sem a menor cerimônia. — Ele me deu permissão para trazer água para o convidado — ela sussurrou, a voz macia como seda e afiada como navalha. — Ele está na capela, Mattia. Rezando pela sua alma e pela integridade dos negócios. Ele não vai sair de lá tão cedo. — Você é louca — eu disse, aproximando-me dela até que o cheiro de sabonete de flores e pecado me atingisse. — E você está aqui — ela rebateu, um sorriso de deboche brincando nos lábios. — Por que os números não batiam, Sottocapo? Ou porque você não conseguiu parar de olhar para o que eu te mandei? Antes que eu pudesse responder, ela se moveu com uma agilidade que me pegou desprevenido. Aurora deu as costas para a mesa, apoiando as mãos no tampo de nogueira, e ergueu a saia do vestido de linho até a altura da cintura. O mundo parou. Ela estava sem calcinha. A pele branca das coxas contrastava violentamente com a madeira escura da mesa de Alessio Marino. Entre as suas pernas, a f***a rosada brilhava sob a luz do abajur, coberta por uma umidade natural que refletia o calor do seu corpo. Ela se sentou sobre as notas fiscais e os registros de entrada do porto, amassando meses de contabilidade sob as nádegas. A visão era mil vezes mais potente do que o carimbo de batom. Era a carne, era o calor, era o cheiro de mulher pronta. — Pegue o que é seu, Diavolo — ela desafiou, abrindo as pernas diante de mim, revelando-se completamente na luz amarela do escritório. Eu perdi o controle. Empurrei a cadeira de couro para trás e caí de joelhos entre as coxas dela. Minhas mãos agarram a carne macia das suas pernas com uma força que eu sabia que deixaria hematomas, mas ela não recuou; ela se inclinou para frente, oferecendo-se. Inclinei o rosto e a beijei ali mesmo, sem preâmbulos, mergulhando na sua b****a como se fosse a única fonte de vida em meio àquela pedra fria. Aurora soltou um gemido abafado, a cabeça caindo para trás enquanto suas mãos se enterravam nos meus cabelos, puxando-me contra ela. Eu a devorava com uma fome desesperada, a língua traçando cada curva, cada centímetro daquela anatomia que me torturou em Palermo. O som dos papéis sendo amassados e rasgados sob o peso dela era a única trilha sonora da nossa heresia. Alessio estava a poucos metros dali, tentando alcançar o céu com orações, enquanto eu, de joelhos no chão do seu escritório, entregava-me ao culto da perdição, lambendo a santidade corrompida da sua filha primogênita até que não restasse mais nada além de desejo puro e cru. Eu continuei a trabalhar nela, implacável, sentindo o corpo de Aurora tremer violentamente, as coxas dela apertando as minhas orelhas enquanto ela lutava para não gritar o nome do homem que a estava destruindo bem no coração da fortaleza do pai.
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