Capítulo 38: Mattia

1571 Words
— Diavolo... — a voz dela soou embargada, ecoando pelas paredes de pedra da capela de San Giovanni. — Eu sou toda sua. Os dedos finos de Aurora agarraram o tecido escuro do vestido na altura da clavícula. O som sutil do primeiro botão passando pela casa de costura foi como o gatilho de uma arma sendo engatilhado a centímetros do meu ouvido. O meu corpo inteiro tensionou. O instinto primitivo rugiu nas minhas veias, exigindo que eu cruzasse o espaço entre nós, rasgasse aquele algodão barato até a cintura e a jogasse de costas sobre o colchão que eu havia montado no centro do altar. Eu queria enterrar o meu rosto no pescoço dela e tomá-la ali mesmo, consumindo a minha droga após semanas de espera. Mas eu não me movi para atacá-la. Em vez disso, dei dois passos lentos e parei bem na frente dela. Ergui as mãos e envolvi os pulsos dela com firmeza, interrompendo o movimento antes que ela alcançasse o segundo botão. Aurora ofegou, surpresa, erguendo os olhos azuis e brilhantes na minha direção. O contraste da pele clara dela contra a escuridão da ruína, iluminada apenas pelas dezenas de velas tremeluzentes que eu havia espalhado pelo chão, era uma visão que justificava qualquer guerra na Sicília. — Não — sussurrei, a voz áspera arranhando a minha própria garganta. Soltei os pulsos dela e deslizei os polegares pela pele macia do dorso das suas mãos, abaixando-as devagar. — Ainda não, minha Santuzza. A confusão cruzou o rosto dela, misturada com uma frustração palpável. — Você cruzou a ilha inteira, forjou mentiras para o seu Capo e construiu esse... esse santuário para nós, e vai me dizer para parar? — Ela questionou, a respiração curta, o peito subindo e descendo sob o tecido contido. — Eu não construí isso tudo para ter um alívio rápido de dez minutos em cima de uma mesa, Aurora — levei a mão ao rosto dela, contornando a linha do maxilar com a ponta do indicador. — Você passou a manhã inteira lidando com a hipocrisia de Alessio Marino. Passou a tarde inteira de pé, derramando sopa em pratos de mendigos sob o calor de uma cozinha industrial. O seu corpo está exausto, mesmo que a adrenalina da fuga esteja mascarando o cansaço agora. Deslizei a mão para a nuca dela, entrelaçando os dedos nos fios loiros que agora caíam livres sobre os ombros, já que ela havia descartado o lenço escuro no carro. — Quando eu tirar esse vestido, não vou parar até o sol nascer do outro lado do Estreito — decretei, olhando no fundo dos olhos dela, garantindo que ela entendesse a gravidade da minha promessa. — E eu preciso que você tenha força para aguentar. Primeiro, nós vamos comer. O desafio nos olhos de Aurora vacilou, substituído por um brilho quente e escuro. Ela engoliu em seco e assentiu devagar, rendendo-se ao meu ritmo. Guiei-a pelo tapete espesso até o centro do nosso acampamento. Aurora sentou-se sobre as almofadas pesadas que comprei mais cedo, cruzando as pernas debaixo da saia. O cenário ao redor parecia saído de um delírio. Acima de nós, o teto da capela estava apodrecido, expondo frestas de um céu noturno sem estrelas. As paredes de calcário descascado cheiravam a poeira e tempo esquecido, mas ali, no epicentro das chamas das velas, o ar estava impregnado com o aroma refinado de massa fresca, manjericão, alho assado e a acidez elegante do vinho tinto respirando nas taças. Sentei-me no tapete, de frente para ela, com o caixote de madeira coberto de toalhas brancas nos separando. Destampei a travessa térmica que eu havia trazido do hotel, revelando o prato fumegante, e servi a porção dela antes da minha. Em seguida, peguei a garrafa de vinho da safra mais cara que encontrei em Messina e enchi a taça de cristal de Aurora até a metade. O vermelho rubi do líquido refletiu a luz das chamas. Ela pegou a taça pelo bojo, ignorando a haste de forma deliciosamente m*l-educada, e levou aos lábios. Vi o momento exato em que o álcool encorpado desceu rasgando suavemente pela garganta dela, relaxando os ombros que sempre carregavam o peso do fanatismo da Villa Marino. Ela enrolou o espaguete no garfo e provou. Fechou os olhos por um segundo. A comida na casa de Alessio era propositalmente insossa e austera na maior parte do tempo, como se o prazer do paladar fosse mais um pecado a ser evitado pelas mulheres da família. Eu não conhecia moderação. Eu lhe servia o caos e a gula na mesma bandeja. Apoiei o cotovelo no joelho dobrado, esquecendo a minha própria refeição, apenas para observá-la. A luz alaranjada das velas esculpia os traços do rosto dela, realçando a curva perfeita do nariz e a vermelhidão natural da boca manchada pelo vinho. — É impressão minha ou você está mais linda do que antes? — A pergunta escapou dos meus lábios, baixa e carregada de uma sinceridade que eu raramente permitia que o mundo visse. Aurora parou de mastigar. Ela baixou o garfo de prata, pegou a taça de cristal novamente e me avaliou por cima da borda do vidro. A submissão religiosa não existia mais ali. Apenas a herdeira arrogante e subversiva de um império sangrento. — Não é impressão coisa nenhuma, é um fato — ela respondeu com um sorriso de canto afiado e presunçoso, dando mais um gole longo no vinho. A naturalidade com que ela aceitava a própria superioridade me fez soltar um riso abafado. Mas o sorriso dela logo deu lugar a um escrutínio mais sombrio. Os olhos azuis desceram do meu rosto para a gola desabotoada da minha camisa, mapeando os meus ombros largos sob o tecido escuro. — E você, Sottocapo... — a voz dela assumiu uma textura mais perigosa, farejando o ar entre nós. — Está com um cheiro mais forte de morte. Quem você matou para retornar aqui? O seu Capo não desconfia das suas vindas frequentes ao leste da ilha? Inclinei a cabeça para o lado, girando o meu próprio vinho na taça. O fato dela não recuar diante da minha natureza, de abraçar o monstro em vez de rezar por ele, era a minha ruína absoluta. — Preocupada comigo? — Provoquei, a ironia banhando a minha voz. — Tão atenciosa. E não, Romeo não tem por que desconfiar do seu braço direito que faz um trabalho impecável. Eu viajo entre outras províncias também, minha Santuzza. Siracusa, Catania, Trapani... Sempre resolvendo uma bagunça aqui e ali. A mão dela parou sobre a mesa. A atmosfera mudou na mesma fração de segundo. O ciúme, frio e cortante como vidro, piscou nas íris dela. — E em cada província você tem uma mulher? — Aurora rebateu, o tom de voz congelante, abandonando o flerte e exigindo a verdade honrosa de um mafioso. Larguei a minha taça sobre a madeira improvisada. O baque do cristal soou alto no silêncio da igreja em ruínas. Inclinei o corpo para frente, invadindo o espaço acima da mesa, cravando o meu olhar no dela com a força de um juramento de sangue. — Você sabe que não — declarei, cada palavra ditada com um peso inegociável. — Eu provei a minha virgem. Eu tenho a minha santa. E apenas os lábios dela tocarão os meus. Aurora prendeu a respiração, a garganta engolindo em seco diante do fanatismo da minha própria religião. A devoção que eu tinha por ela era muito maior do que a que o pai dela tinha por Deus. — Quanto a se matei alguém... — continuei, a voz assumindo uma calmaria assustadora, a mesma que eu usava antes de puxar um gatilho. — Não se preocupe. Ainda vou matar para justificar a minha estadia aqui novamente. O rato fantasma que eu estou supostamente caçando nas docas não vai se caçar sozinho. Eu forjarei um cadáver antes de voltar a Palermo, apenas para comprar mais tempo com você. Ela arregalou os olhos por um segundo. A confissão de que a vida de um homem qualquer seria extinta em algumas horas única e exclusivamente para me dar o direito de deitar no chão daquela igreja com ela não a aterrorizou. O silêncio esticou-se entre nós, denso e inflamável. E então, Aurora riu. Foi uma risada baixa, rouca e levemente embriagada, misturando-se com o som do próprio absurdo da nossa existência. Ela balançou a cabeça, olhando para as chamas ao nosso redor. — Um assassino na casa do Senhor, meu Deus... — ela murmurou, os olhos voltando a se encontrar com os meus, brilhando com um fascínio sombrio e proibido. — Que tempos são esses? — Os tempos da nossa união — respondi. Ela não disse mais nada. O som dos garfos tocando as porcelanas cessou. As taças foram esvaziadas lentamente. O banquete cumpriu o seu propósito. A energia corria pelo corpo dela, o vinho avermelhava as suas bochechas e a tensão acumulada no espaço curto entre a minha boca e a dela parecia espessa o suficiente para ser cortada com uma faca de caça. Nenhum de nós dois se moveu para quebrar o encanto imediatamente. Continuamos sentados sobre o tapete escuro, cercados pelas ruínas, nos encarando através da fumaça invisível da atração. O relógio não importava mais. A noite havia apenas começado, e a escuridão da capela de San Giovanni estava prestes a testemunhar exatamente até onde a nossa loucura poderia chegar.
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