Devo admitir que minhas últimas noites em Messina deixaram as minhas pernas fracas.
Eu tinha alimentado o meu vício, fodendo a filha do Capo da província nas sombras sem ser descoberto, por bem pouco, diga-se de passagem. No entanto, eu estava longe de estar satisfeito.
Na viagem de três horas, cruzando a ilha de uma ponta a outra para chegar em Palermo, tudo o que eu queria era já estar com ela. Meu medo era que esse vício se tornasse uma necessidade vital.
A forma como ficamos juntos após a tempestade profana cessar, após nossos fluidos se misturarem e nosso calor incendiar o quarto... aquilo podia destruir um homem.
E que Deus me ajude, eu queria essa destruição.
Cheguei em Palermo por volta das nove da manhã. O sol já castigava o asfalto, e o trânsito caótico do centro da cidade era uma recepção vibrante e barulhenta em comparação com a quietude de Messina.
Dirigi o meu carro pelas ruas estreitas, desviando de lambretas e moradores locais, até alcançar os portões imensos e de ferro forjado escuro do Palazzo Rossi.
A sede da nossa Famiglia era uma fortaleza disfarçada de uma obra-prima secular.
Deixei o carro com um dos guardas no pátio interno e subi a escadaria monumental de mármore branco.
O interior do palazzo exalava um luxo asfixiante e desmedido: afrescos lindíssimos pintados no alto do teto, detalhes espessos em folhas de ouro adornando as molduras das portas, e lustres de cristal gigantescos que refletiam a luz da manhã nas galerias forradas por espelhos que iam do chão ao teto.
Era um cenário imponente, majestoso, feito para a realeza antiga, mas ocupado e manchado por assassinos que vestiam ternos sob medida.
Encontrei Romeo no salão principal, de pé diante de uma das grandes janelas que davam para os jardins bem cuidados.
Ele usava um terno azul-marinho impecável, fumando um charuto com a postura rígida e a tranquilidade de quem domina a p***a de uma cidade inteira.
— Mattia — ele saudou, virando-se com um sorriso contido ao ouvir o som dos meus sapatos no piso de cerâmica desenhada. — A julgar pela sua pontualidade, presumo que a viagem de volta tenha sido limpa.
— Limpa e sem interrupções — respondi, mantendo a postura rígida, as mãos cruzadas nas costas em sinal de respeito ao meu Capo.
— Recebi as fotos que você me enviou — Romeo comentou, tragando o charuto e soltando a fumaça espessa em direção aos afrescos no teto. — Um trabalho eficiente. A pequena ameaça foi neutralizada com facilidade?
— Com extrema facilidade — menti. A minha voz saiu fria, monótona e uniforme. Uma habilidade que eu havia aperfeiçoado ao longo de anos derramando sangue. — Era apenas um estivador fodido que falou o nome errado no bar errado. Plantei a bala no meio da testa dele em um beco sem saída. Ninguém desconfiou de nada. A polícia de Messina recolheu o corpo como se fosse mais um acerto de contas qualquer de gangues de rua. Eles nem sonham com a presença da Cosa Nostra naquelas docas.
— Bom trabalho — Romeo assentiu, a expressão relaxando, perfeitamente satisfeito. Ele não pediu mais detalhes, porque para nós, a vida de um homem comum, de um rato de cais, não valia nem os trinta segundos daquela conversa.
Sustentei o olhar do meu chefe sem vacilar.
Eu não sentia absolutamente nenhum remorso. Zero. O peso na consciência não existia. Um pai de família inocente estava agora em uma gaveta fria no necrotério de Messina, os filhos dele provavelmente acordando e chorando a ausência do pai.
E eu não sentia absolutamente nada além de um alívio egoísta e sombrio por ter forjado o álibi perfeito. Mentir na cara do meu Capo — o homem a quem eu havia jurado lealdade com o meu próprio sangue — fluiu com a mesma naturalidade com que eu enchia os pulmões de ar.
Tudo aquilo... o sangue do inocente, a traição direta à confiança de Romeo... tudo aquilo havia sido feito apenas para que eu pudesse ter os meus joelhos afundados no chão daquela espelunca, quebrando as barreiras da virgem da Famiglia Marino.
Virgem? Não mais, eu cuidei bem disso.
E o mais aterrorizante era saber que eu faria tudo de novo.
Mataria dez, vinte homens inocentes e mentiria na cara de Romeo mil vezes se isso me garantisse mais uma noite no meio das pernas de Aurora.
— Agora que a limpeza foi feita, precisamos voltar o foco para a nossa casa — Romeo continuou, a voz grave cortando os meus pensamentos. Ele caminhou até a mesa central e bateu os nós dos dedos sobre um manifesto de carga impresso em um papel timbrado. — Tenho novos trabalhos para você, Sottocapo. A rotina não para. O carregamento russo atracou no porto sul nesta madrugada.
— Os novos rifles? — Perguntei, forçando a minha mente a voltar para a Famiglia.
— Exato. Submetralhadoras de última geração, munição de grosso calibre e equipamento tático novo para renovar o arsenal dos nossos guardas do perímetro. Quero que você vá até as docas agora mesmo para coordenar a retirada dos contêineres escondidos. Faça a contagem das caixas, supervisione a distribuição para os nossos armeiros e garanta que nenhum fuzil desapareça no trajeto.
— Considere feito. Estou indo para lá agora — afirmei com um aceno seco de cabeça, dando as costas para deixar o salão.
Meia hora depois, o cheiro de sal e óleo diesel do porto sul de Palermo invadia as minhas narinas. O sol perto do meio-dia aquecia o asfalto irregular das docas. Caminhei entre as pilhas de contêineres até encontrar o galpão isolado sob o nosso controle.
Meus homens já estavam posicionados.
O som de pés de c***a arrancando as travas de madeira das caixas clandestinas ecoava no espaço amplo. Fiquei no centro da operação, prancheta na mão, conferindo as listas de contrabando contra cada rifle que era retirado do plástico e da graxa de proteção.
Peguei uma das submetralhadoras russas, testando o peso do aço escuro e puxando o ferrolho. O clique metálico seco soou perfeito.
Passei horas ali, de pé no calor do galpão, inspecionando caixotes pesados de munição e supervisionando o carregamento dos furgões descaracterizados que abasteceriam nossos armeiros.
Eu precisava daquele trabalho duro, da distração áspera da pólvora e das contagens para preencher o vazio absurdo que a ausência de Aurora Marino havia deixado cravado em mim.
Mas não importava o quanto o porto fosse barulhento ou o quanto a arma fosse pesada. Toda vez que eu olhava para o mar escuro de Palermo, a única coisa que eu via era o azul dos olhos da garota que eu havia deixado para trás.