Capítulo 36: Mattia

1063 Words
A viagem de Catania até Palermo para forjar o meu novo álibi, e de Palermo até Messina, consumiu quase a totalidade da minha paciência. Na sede da Famiglia Rossi, eu havia inventado para Romeo que um dos meus informantes descobriu o paradeiro do mandante da invasão ao galpão de eletrônicos que Cristiano estava protegendo. Disse ao meu Capo que o rato havia fugido para o leste e estava tentando comprar proteção nas docas de Messina. Romeo, satisfeito com a minha caçada implacável por retaliação, autorizou a viagem pessoalmente para que eu o interrogasse e o apagasse antes que a audácia dele inspirasse outros vermes. Cheguei a Messina no início da noite. O calor de julho abafava a cidade portuária, mas as engrenagens da minha infiltração já estavam rodando desde o amanhecer. Eu havia enviado os livros com o primeiro aviso antes de sair de Palermo. Eu não podia simplesmente invadir a Villa Marino de novo. O fator surpresa do apagão havia ficado no passado. A segurança de Alessio estava dobrada desde que eu tinha estado lá pela última vez. Então, eu precisava que ela viesse até mim novamente. No meu quarto de hotel, repassei mentalmente o plano antes de dormir. A primeira peça do quebra-cabeça foi o local. Eu havia pago muito bem a um informante do submundo local para me listar as igrejas e mosteiros abandonados na periferia da província. A capela de San Giovanni, no extremo sul do bairro operário, era a escolha perfeita. Ficava a poucas ruas de distância da casa alugada que Aurora usava como isolamento, e estava apodrecendo no esquecimento há anos. Teríamos privacidade absoluta. E, se por um milagre do inferno algum andarilho ou soldado cruzasse as portas de madeira podre, receberia uma bala de silenciador no meio da testa antes mesmo de dizer amém. A segunda peça era o convite. Na manhã seguinte à minha chegada, antes do sol atingir o pico, estacionei o carro perto do Mensa del Pane. Entrei na viela dos fundos do refeitório e encontrei o Padre Lorenzo descarregando engradados de batatas velhas. O homem empalideceu no instante em que me viu, o terror do nosso encontro no mês passado ainda fresco na memória dele. Não precisei ameaçar queimar o lugar com todos dentro dessa vez. Estava de um humor estranhamente caridoso. Tirei um maço de euros do bolso do paletó — o suficiente para alimentar a fila de miseráveis daquele bairro por um mês inteiro — e bati o dinheiro contra o peito do padre. Entreguei a ele um pequeno santinho de papelão plastificado que eu havia comprado e adulterado em Palermo. A imagem de um santo qualquer na frente, mas as duas camadas de papelão haviam sido descoladas por mim com um estilete, criando um fundo falso onde escondi a mensagem para Aurora, e depois coladas novamente de forma imperceptível. — Entregue isso nas mãos da Signorina Aurora Marino quando ela vier servir a sopa hoje à tarde — ordenei, a voz baixa, enquanto o velho agarrava o dinheiro com as mãos trêmulas. — Diga que é uma lembrança de bênção da sua paróquia pelo trabalho caridoso dela e das irmãs. Se esse santinho parar nas mãos de qualquer outra pessoa, ou se você abrir a boca para um dos cães de guarda que a acompanham, eu volto aqui e corto a sua língua fora. Entendido? Ele assentiu, mudo, escondendo o santinho dentro da batina. Eu sabia que Aurora entenderia o recado assim que tocasse no papelão grosso. Dentro, a minha caligrafia esperava por ela: "Passe a noite rezando naquela casa após alimentar os pobres. Invente que hoje precisa voltar a rezar no meio deles, sentindo as dores e angústias da pobreza de perto. Deixe os idiotas do seu pai plantados do lado de fora e fuja pela janela do banheiro dos fundos. Eu vou pegar você no beco escuro e levá-la para o nosso local especial, quero que relembre a nossa primeira vez. Onde eu possa te f***r sem que ninguém nos ouça — Il tuo Diavolo." Com a isca plantada, usei o final daquela mesma manhã para rodar por lojas afastadas do centro de Messina. Eu não era um homem de luxos florais, mas eu me recusava a f***r a minha mulher em um chão de pedra coberto de fezes de rato e poeira. Comprei vassouras grossas, desinfetantes industriais e sacos de lixo. Em uma loja de tapeçaria, paguei em dinheiro vivo por três tapetes espessos, almofadas escuras e o melhor colchão dobrável que encontrei. Em uma mercearia fina, escolhi duas garrafas do vinho tinto mais caro da prateleira, taças de cristal e ingredientes para preparar um jantar rápido no fogão elétrico do meu hotel mais tarde. E, por fim, dezenas de velas grossas brancas e vermelhas. No início da tarde, estacionei o carro nos fundos da capela de San Giovanni. Forcei a fechadura enferrujada com um pé de c***a e entrei. O cheiro de mofo e abandono era quase tóxico. O telhado tinha algumas goteiras, mas o altar de pedra, embora sujo, continuava intacto. Tirei o meu paletó, arregacei as mangas da camisa social e comecei o trabalho braçal. Passei a tarde inteira varrendo a poeira, esfregando o chão de pedra ao redor do altar com desinfetante e arrastando os bancos podres de madeira para os cantos para criar um espaço amplo e limpo no centro. Posicionei os tapetes sobre a pedra fria, montei o colchão e espalhei as almofadas, transformando o abandono em um refúgio. Distribuí as dezenas de velas pelas frestas das paredes de pedra, pelo chão e ao redor do altar. Quando o sol começou a se pôr do lado de fora, tingindo os vitrais quebrados de laranja, o meu corpo estava exausto. O suor colava a camisa nas minhas costas e os meus sapatos estavam cobertos de fuligem, mas a capela de San Giovanni não era mais uma ruína esquecida por Deus. Era o nosso santuário profano. Tranquei a porta provisoriamente e dirigi de volta para o hotel ao anoitecer. Eu precisava de um banho quente para tirar a sujeira do corpo, de um terno limpo e escuro, e de tempo para preparar a comida. O trabalho havia me drenado, mas a exaustão desapareceu assim que pensei nela escorregando pela janela daquele banheiro nas próximas horas, vestindo recato e exalando pecado. Eu sabia exatamente como a minha devoção seria recompensada naquela noite.
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