O fim de tarde na Villa Marino costumava trazer algum alívio contra o calor sufocante do verão siciliano, mas o ar dentro da sala de jantar principal parecia denso, tóxico e quase irrespirável.
As pesadas cortinas de veludo carmesim estavam abertas pela metade, permitindo que faixas de luz alaranjada cruzassem o piso de mármore impecável.
Alessio Marino estava sentado em sua poltrona de cabeceira, a postura ereta e a expressão serena de quem acreditava falar diretamente com os céus.
Ao longo da imensa mesa de carvalho, três dos seus consiglieri mais antigos e de maior confiança tomavam café expresso em xícaras de porcelana fina, o tilintar das colheres de prata sendo o único ruído a quebrar os intervalos da voz do meu pai.
Eu estava sentada à direita dele. As minhas costas não tocavam o encosto da cadeira de madeira entalhada. Minhas mãos repousavam sobre o tecido claro e recatado da minha saia, os dedos perfeitamente entrelaçados.
Era a minha função estar ali. O Capo gostava de exibir a sua criação de perto para os seus aliados, como se a minha pureza e a minha submissão fossem a maior prova da bênção de Deus sobre a sua liderança.
— Nossa Famiglia precisa se fortalecer com raízes puras e inabaláveis, Domenico — Alessio dizia a um dos velhos conselheiros, cuja pele do rosto parecia couro curtido ao sol. — As alianças no submundo são feitas de sangue e dinheiro, mas a verdadeira fundação de um império duradouro exige fé.
— O senhor tem razão, Capo Alessio — Domenico concordou, abaixando a xícara de café. Os olhos turvos do velho deslizaram na minha direção, avaliando-me com uma reverência que me dava ânsia de vômito. — E a Signorina Aurora é o maior exemplo dessa fé.
Meu pai assentiu lentamente, o peito estufando de orgulho cego.
— É por isso que não entregarei a minha joia mais brilhante a qualquer soldado que saiba engatilhar um fuzil ou a um herdeiro mesquinho que só pense em lucros — Alessio decretou, a voz grave ecoando pelas paredes de pedra da sala. — Nós estamos procurando um noivo adequado. Um homem de honra genuína. Um homem de fé inquebrantável que a mereça de verdade. Alguém que tenha amor pela religião, pelo respeito às tradições e pela bondade, exatamente como ela foi criada para ter.
Cada palavra que saía da boca do meu pai era um prego sendo martelado no caixão do meu futuro.
Apertei os dedos uns contra os outros até as minhas articulações ficarem brancas. Escondida sob a mesa, a minha fúria estava prestes a entrar em combustão.
Eu conhecia muito bem o tipo de "homem de honra e de fé" que frequentava o círculo da Cosa Nostra. Eram homens exatamente iguais a ele.
Homens nojentos, hipócritas, que se ajoelhavam nos bancos das igrejas aos domingos de manhã e mandavam arrancar unhas de devedores nos porões à tarde.
Homens que usavam a Bíblia como escudo para justificar a própria barbárie e o terço para açoitar as costas das suas filhas e esposas.
Eu não seria vendida para ser a reprodutora sagrada de um monstro que rezava antes de atirar.
O pânico de imaginar um casamento arranjado com uma cópia mais nova do meu pai quase me fez levantar da cadeira e gritar todas as obscenidades que eu havia aprendido em Messina nas últimas semanas.
— A busca por um homem desse calibre pode ser demorada, papai — pontuei, a minha voz saindo suave, controlada, afinada na exata frequência de submissão que ele esperava de mim.
— Eu assumo que essa busca levará tempo, minha filha — Alessio respondeu, virando o rosto para mim com um sorriso contido e paternal que fez o meu estômago embrulhar. — Mas eu não vou perder a paciência. A pressa é a grande inimiga da perfeição divina. Você é a primogênita dos Marino. Você receberá apenas o melhor. O marido perfeito para passar a vida inteira ao seu lado, garantindo que a sua alma permaneça intacta. O casamento não é um negócio, Aurora, é um sacramento. E nós vamos honrá-lo como tal.
Abaixei a cabeça em sinal de concordância absoluta.
— Sim, papai. O que o senhor e os céus escolherem para mim será a minha maior alegria.
Forcei os cantos da boca a se erguerem em um sorriso brando e dócil. A mentira desceu pela minha garganta rasgando como vidro quebrado, mas eu a engoli sem engasgar.
Eu não podia me rebelar abertamente. Se eu explodisse, se eu deixasse a máscara cair na frente da cúpula de comando dele, o meu castigo não seria apenas uma surra com um cinto de couro.
Eu seria trancada em um quarto escuro, isolada das minhas irmãs e sem poder sair para a caridade. O meu casamento seria antecipado para a semana seguinte com o primeiro carrasco disponível, apenas para me quebrar.
Quando a reunião finalmente terminou e fui dispensada, caminhei pelos longos corredores da Villa Marino sentindo as paredes de pedra se fecharem ao meu redor.
A sombra do noivo sem rosto já caminhava ao meu lado. O prazo do Alessio não era imediato, mas era inevitável. Meses. Talvez apenas semanas. Eu estava em uma contagem regressiva para a minha própria morte em vida.
Destranquei a porta do meu quarto e entrei, fechando a pesada madeira atrás de mim e encostando as costas nela. Deixei o sorriso cair.
O cansaço físico e mental de sustentar aquela santidade forjada era esmagador. Fui até a escrivaninha para tirar o crucifixo do pescoço, e foi então que notei a caixa de papelão pardo sobre a mesa.
O coração errou uma batida.
Caminhei a passos rápidos até a madeira. Um dos guardas do portão devia ter deixado a nova remessa de livros da paróquia ali enquanto eu servia de enfeite na sala de jantar.
Com os dedos trêmulos pela urgência, rasguei o barbante áspero e abri a caixa. Havia três compêndios novos.
Ignorando os dois primeiros, peguei o livro central — um volume grosso sobre a história dos santos mártires — e abri a capa de couro duro.
O corte milimétrico no forro interno estava lá.
Enfiei a ponta da unha na f***a e puxei o pequeno pedaço de papel dobrado. Não havia brasão, não havia remetente. Apenas aquela caligrafia reta, agressiva e inconfundível.
Desdobrei o bilhete sob a luz fraca da luminária, a respiração presa na garganta.
"Os russos e os albaneses são lentos. A burocracia do submundo e as propinas exigem uma espera que eu não tenho paciência para tolerar no momento. A minha fúria só aumenta do lado de cá da ilha. Forjei um problema fantasma nas docas de Messina com o meu Capo. Estarei na sua cidade amanhã à noite. Dê um jeito de despistar os cães do seu pai e vá para a capela abandonada de San Giovanni, no extremo sul do bairro operário, logo após a sua caridade."
Li as palavras três vezes.
Estarei na sua cidade amanhã à noite.
O ar voltou aos meus pulmões com uma força violenta.
O terror frio do casamento arranjado, a imagem dos conselheiros velhos e a hipocrisia do meu pai evaporaram em uma fração de segundo. Foram completamente obliterados por uma onda de adrenalina pura e quente que incendiou o meu sangue da cabeça aos pés.
Ele estava voltando. O meu Sottocapo. O assassino de Palermo havia forjado uma nova mentira para o chefe de uma das maiores máfias do país apenas para cruzar a Sicília e me encontrar no escuro.
Apertei o bilhete contra o peito, fechando os olhos. Um sorriso afiado, perigoso e carregado de uma luxúria sombria rasgou o meu rosto no quarto vazio.
De repente, todo o esforço daquela tarde pareceu ter valido a pena. Cada segundo que eu passei calada na sala de jantar, engolindo o meu ódio, abaixando a cabeça e sorrindo para o fanatismo de Alessio, agora parecia o sacrifício perfeito.
Se eu tivesse aberto a boca, se eu tivesse deixado o meu instinto falar mais alto, eu estaria trancada em um porão agora.
O silêncio submisso não era mais a minha prisão. Era a minha arma. Era o meu passe livre para a liberdade temporária e pecaminosa que eu provaria na noite seguinte.
A sombra do noivo imposto por Alessio podia pairar sobre a minha cabeça o quanto quisesse, mas amanhã, quem deitaria o meu corpo sobre as pedras de uma capela abandonada seria o único d***o ao qual eu havia jurado obediência.