O relógio de pêndulo no canto do escritório soou doze vezes, marcando a meia-noite, mas a Villa Marino continuava imersa em uma vigília silenciosa.
Eu encarava os números nas planilhas, embora minha mente ainda estivesse focada no gosto de Aurora, no cheiro da excitação dela impregnado na minha pele e no calor que ainda irradiava da madeira daquela mesa.
Meu p*u ainda estava duro, uma excitação que demoraria a passar. Eu precisava daquela mulher imediatamente, fazer o que bocas não conseguiam saciar. Ela apenas acendeu um incêndio em uma pequena fogueira que nunca vai parar de queimar.
O rangido suave da porta me trouxe de volta à realidade de Messina.
Alessio Marino entrou. Ele não usava mais o terno do jantar, mas um roupão escuro sobre roupas de dormir modestas. O rosto dele estava marcado pelo cansaço, mas os olhos continuavam afiados, vasculhando a sala como se procurassem as garras do d***o escondidas nas sombras.
Ele escondia bem, mas eu conhecia o cheiro da desconfiança. Para ele, tudo no porto estava correto — e de fato estava —, mas a mentira que inventei para Romeo Rossi era a minha única âncora ali.
Tudo para ficar perto da filha dele. Tudo para sentir o seu calor e seu aperto. O homem na minha frente poderia me matar, mas ele não tinha nenhuma importância para mim.
— O trabalho de Palermo avança madrugada adentro, Sottocapo? — Alessio perguntou, a voz polida, mas carregada de uma urgência contida.
— Os números são teimosos, Signor Alessio — respondi, fechando o livro contábil com um baque surdo. — Mas creio que encerrei por hoje. Vou retornar ao meu hotel no centro e voltarei amanhã para continuar a auditoria.
Me levantei, ajeitando o paletó, mas Alessio ergueu a mão.
— De forma alguma. A estrada dos Colli San Rizzo é traiçoeira à noite, e o senhor é um convidado da nossa Famiglia. Não permitirei que faça o trajeto de volta a esta hora. Será meu hóspede esta noite, aqui na Villa.
Eu sustentei o olhar dele. Nós dois sabíamos que aquilo não era hospitalidade cristã. Alessio queria me manter por perto para garantir que eu trabalhasse rápido e fosse embora logo. Ele queria controlar os meus passos.
Mas o Capo de Messina nem imaginava que estava me entregando a chave do seu próprio cofre. Ele estava me colocando sob o mesmo teto que a filha que eu planejava f***r até ela esquecer o próprio nome.
— Se o senhor insiste, não farei desfeita à sua hospitalidade — respondi com um aceno contido.
Alessio chamou um dos criados noturnos e ordenou que preparassem um quarto na ala leste. Ele mesmo fez questão de me acompanhar pelos corredores de pedra, caminhando lado a lado comigo até a suíte de hóspedes.
— Que o sono seja reparador, Mattia. Amanhã, se Deus quiser, tudo estará esclarecido — ele fez uma leve reverência de cabeça e me deixou sozinho.
A porta se fechou. Tranquei-a por instinto.
A suíte era grande e gélida. Joguei o paletó sobre uma poltrona, desabotoei o colarinho da camisa e fui até a janela. O pátio lá embaixo estava mergulhado em sombras, com apenas dois soldados fazendo a ronda perto dos portões.
Eu deveria dormir. Deveria descansar e planejar a minha desculpa para estender minha permanência na cidade. Mas o sangue fervia nas minhas veias.
A adrenalina de ter estado tão perto de ser flagrado no escritório não me deixou acuado; pelo contrário, me deixou faminto. Eu não ia passar a noite encarando o teto enquanto Aurora dormia a poucos corredores de distância.
Esperei mais quarenta minutos. O silêncio na Villa tornou-se absoluto, quebrado apenas pelo vento nas castanheiras lá fora.
Tirei os sapatos, deixando-os no quarto, e abri a porta sem fazer o menor ruído.
Caminhar descalço pelos corredores de pedra fria era um truque antigo, algo que aprendi nos meus primeiros dias como assassino da Cosa Nostra, antes de subir na hierarquia. A escuridão era quase total, mas minha memória espacial era impecável.
Evitei o corredor principal onde os guardas de Alessio costumavam circular e peguei a rota secundária, perto da capela, subindo a escadaria de serviço que levava ao andar superior.
O corredor dos quartos das meninas Marino.
Eu sabia exatamente qual era a porta dela. Nos dias em que estive aqui da primeira vez, quando ela me provocava para lá e para cá com vestidos esvoaçantes e toques deliberados nos próprios s***s, eu decorei a rotina e a geografia desta casa.
Parei diante do quarto de Aurora.
Girei a maçaneta bem devagar, torcendo para que as regras doentias de Alessio contra trancas e chaves nos quartos das filhas se mantivessem verdadeiras. O metal girou sem resistência. A porta se abriu com um leve estalo.
Entrei e a fechei imediatamente atrás de mim. O quarto cheirava a ela — uma mistura de sabonete de flores, livros antigos e calor humano. A respiração dela era suave e rítmica, vindo da cama de dossel no centro do ambiente.
Antes de me aproximar, meus olhos vasculharam a escuridão até encontrarem a cadeira pesada da escrivaninha. Peguei-a com as duas mãos, levantei-a para não arrastar no chão e a encaixei firmemente sob a maçaneta da porta.
Uma barreira improvisada e necessária. Se Alessio ou uma das irmãs tentassem entrar agora, teriam que derrubar a porta, o que me daria os três segundos necessários para reagir.
Voltei minha atenção para a cama.
A luz fraca da lua que entrava pela veneziana iluminava o corpo dela. Aurora dormia de lado, o lençol jogado até a cintura, revelando os ombros nus cobertos por uma camisola de seda clara. O anjo perfeito da família Marino, repousando pacificamente.
Desabotoei minha camisa, deixando-a cair no tapete, e comecei a abrir o meu cinto. Ela não iria dormir muito mais esta noite.