O estalo do osso quebrando ecoou pelo galpão abandonado no porto de Catania. O homem amarrado à cadeira cuspiu sangue e dois dentes no chão de cimento encardido.
Eu não sentia raiva. Não sentia nada. Era apenas trabalho.
Nas últimas semanas, eu havia me voluntariado para os serviços mais sujos e distantes de Palermo. Extorsões, rotas de armas com problemas, traidores que precisavam ser lembrados de quem mandava na ilha.
Romeo precisava do seu Sottocapo implacável, e eu entreguei exatamente o monstro que ele esperava. Eu rasgava gargantas e cobrava dívidas com uma eficiência cega.
A minha lealdade à Famiglia Rossi precisava parecer inquestionável e absoluta para que a minha sombra pudesse agir sem ser vigiada.
Puxei o gatilho. O corpo do homem cedeu para frente, sem vida.
Entreguei a pistola com silenciador para um dos soldados locais.
— Limpem isso. O recado está dado — ordenei, ajeitando as abotoaduras do meu paletó sem olhar para trás.
Deixei o galpão e caminhei pelas docas escuras do leste da ilha. O calor do fim de julho era opressivo, mas a minha mente operava em uma frieza calculista.
Cristiano estava cuidando da ponta financeira em Palermo, levantando dinheiro não rastreável, mas eu precisava fechar a logística de fuga marítima aqui em Catania.
Entrei em uma taverna m*l iluminada, frequentada por marinheiros e contrabandistas, e fui direto para a sala dos fundos.
Odegar, um contato albanês que controlava as rotas não oficiais de cargueiros para a América do Sul e norte da África, fumava um cigarro vagabundo atrás de uma mesa de metal.
Sentei-me de frente para ele e joguei um envelope grosso sobre a mesa.
— Preciso de uma rota de saída segura da Sicília. E três identidades novas. Nível Interpol — fui direto ao ponto, a voz baixa.
Odegar abriu o envelope, os olhos brilhando ao ver os maços de euros, mas a expressão dele endureceu quando processou o pedido. Ele empurrou o dinheiro de volta na minha direção.
— Três passaportes de alta falsificação? Para tirar três mulheres da ilha? — O albanês tragou o cigarro, balançando a cabeça. — Mattia, você sabe como o mar funciona. Contrabandear armas ou drogas é uma coisa. Ninguém confere as caixas de fundo duplo se a propina estiver paga. Contrabandear pessoas vivas atrai o tipo errado de atenção.
— Eu pago o dobro pela discrição.
— Não é questão de preço inicial. É o risco da carga — ele se inclinou para frente, baixando a voz. — Você é o Sottocapo dos Rossi. Se está me pedindo isso pessoalmente nas sombras, e não através do seu Capo, significa que é um assunto particular. E se envolve três mulheres escondidas... de quem você está roubando essas garotas?
Apertei o maxilar, os meus olhos travando nos dele com uma ameaça silenciosa.
— Isso não é da sua conta.
— Passa a ser quando a Guarda Costeira interceptar o meu navio e encontrar o seu contrabando respirando. Se essas mulheres pertencerem a alguém poderoso, o dono delas vai fechar a ilha. Portos, estradas, aeroportos. Tudo entra em lockdown. Subornar a fiscalização em um cenário normal custa cinquenta mil. Em um cenário de caçada humana liderada por um mafioso furioso? Você vai precisar de, no mínimo, meio milhão de euros em dinheiro vivo espalhado em propinas só para a embarcação sair do cais sem ser revistada por cães.
As palavras do albanês foram um banho de ácido na minha realidade.
— E os documentos? — Perguntei, a voz dura.
— Semanas de espera. Talvez meses — Odegar respondeu, apagando o cigarro no cinzeiro enferrujado. — Preciso criar as identidades em sistemas fantasmas de outros países antes de imprimir os passaportes físicos. Se eu fizer às pressas, o chip estoura na primeira fronteira e elas são mandadas de volta direto para o colo de quem você roubou.
Semanas de espera. Meio milhão de euros.
O plano ilusório de simplesmente dirigir até Messina, arrombar a porta da Villa Marino, colocar Aurora e as irmãs no carro e sumir no horizonte evaporou.
Eu estava lidando com o peso da Cosa Nostra. Tirar as três filhas de Alessio Marino seria o maior roubo da história da Máfia Siciliana. E eu não poderia cometer um único erro, ou nós quatro estaríamos mortos.
Recolhi o envelope da mesa, o meu sangue fervendo sob o terno.
— Comece a fabricar os passaportes hoje — ordenei. — Eu arranjo o resto do dinheiro.
Deixei a taverna e voltei para o carro. A noite de Catania parecia me sufocar. Apertei o volante de couro até as juntas dos meus dedos doerem. O relógio estava correndo e Alessio não esperaria o fim do ano para entregar a minha mulher a outro homem.
Liguei o motor do carro com brutalidade. A burocracia do submundo me exigia paciência, mas a minha paciência tinha morrido há semanas. Se eu ia ter que construir essa rota de fuga tijolo por tijolo nas sombras, eu precisava de combustível para não enlouquecer.
Eu precisava criar uma desculpa e cruzar a ilha novamente. Precisava ver a minha santa.