O sol do meio-dia transformava os jardins extensos da Villa Marino em um forno impiedoso, mas o arrepio que subiu pela minha espinha não tinha nada a ver com a temperatura.
Enquanto caminhávamos pelo cascalho branco sob a sombra rala dos ciprestes, os meus olhos varriam o perímetro de forma quase paranoica.
Homens armados com fuzis patrulhavam os muros altos de pedra. Câmeras fixas apontavam para cada ângulo cego do pátio, das adegas e das entradas principais, piscando com suas pequenas luzes vermelhas.
Era uma fortaleza impenetrável. Só mesmo um homem completamente louco por mim seria capaz de invadir aquele lugar.
A lembrança do dia em que Mattia atravessou essas mesmas defesas, invadiu a capela e me deflorou no altar fez a minha respiração falhar por um segundo.
Ele havia contado com o apagão que ele criou e com a sorte absurda do gerador principal não ligar de imediato, mas, acima de tudo, ele havia contado com a própria coragem.
Se eu tivesse sido criada no mesmo mundo de guerra que o Sottocapo, eu provavelmente estaria usando aquela caminhada para decorar todos os espaços, mapear os pontos cegos e cronometrar as rotas dos guardas para traçar uma fuga.
Mas eu não era um soldado de Palermo. Eu era apenas uma mulher que foi criada e cercada pela fé doentia de um homem louco.
Um Capo que derramava sangue e executava pessoas como se os céus fossem se iluminar e ficar mais azuis com os seus atos de barbárie. Alessio acreditava ser a própria espada de Deus, e era contra essa insanidade que eu estava lutando com as mãos nuas.
Lutando sem ele perceber, abaixando a minha cabeça e abraçando as suas convicções. Houve um tempo que eu desejei que alguém o matasse nas raras vezes que ele saía de casa para trabalhar por dias ou semanas, mas isso nunca aconteceu.
Ele era um homem poderoso, e por ter tanto dinheiro, ele era um alvo difícil. Nada acertava Alessio Marino, nem o medo, ódio ou o amor das suas filhas. Ele amava apenas o próprio reflexo, e é isso que eu estava fingindo ser: seu espelho.
Mas até um espelho tem seu lado oculto.
Paramos perto do velho chafariz de pedra. Sentei-me no banco de mármore, e Caterina se encolheu ao meu lado, abraçando os próprios braços. Beatrice ficou de pé, o rosto tenso, a postura rígida para evitar que o tecido do vestido roçasse nos vergões inchados que ainda marcavam as costas dela.
— Eu não quero almoçar — Caterina sussurrou, os olhos fixos na água do chafariz.
— Eu também não — Beatrice concordou, a voz carregada de um rancor exausto. — Não quero me sentar à mesa com ele hoje. Não consigo olhar para a cara do Alessio sem querer vomitar.
Suspirei, alisando a saia do meu vestido de algodão.
— Vou pedir para que ele nos deixe comer nos nossos quartos hoje. Direi que estamos em jejum parcial e reflexão pelas almas dos pobres que alimentamos em Messina. Ele vai gostar de ouvir isso.
Beatrice cruzou os braços devagar, os olhos escuros brilhando com uma acidez defensiva.
— Olha só. Usando os seus benefícios de santa imaculada para nos ajudar.
Deixei a ironia dela escorregar pela minha pele. Beatrice estava ferida e assustada, não valia a pena revidar.
Eu engoliria qualquer comentário sarcástico, porque a única coisa que importava agora na minha mente era ganhar tempo e manter nós três vivas até que Mattia abrisse as portas do inferno para nos tirar dali.
***
No início da tarde, depois de conseguir a aprovação do nosso pai para que as bandejas de almoço fossem deixadas nos nossos quartos, chamei Beatrice até os meus aposentos.
Tranquei a porta assim que ela entrou. Fui até o fundo do meu guarda-roupa, tateei o interior de uma caixa de sapatos velha e puxei um pequeno pacote embrulhado em um veludo escuro.
O item havia vindo escondido junto com os livros de teologia e as cartas de Palermo.
Virei-me e estendi a mão para a minha irmã.
— Pegue. É para você.
Beatrice franziu a testa, desconfiada, mas pegou o pacote. Ela desfez o nó do veludo e o objeto cilíndrico de silicone escuro e macio escorregou para a palma da mão dela.
O choque foi instantâneo. Beatrice arregalou os olhos, os lábios se abrindo em um ofego mudo de puro puritanismo.
Ela segurou o vibrador discreto com as pontas dos dedos, como se o objeto estivesse pegando fogo ou prestes a morder a mão dela, mas a curiosidade hesitante no fundo do olhar a impediu de jogá-lo no chão.
— O que... Aurora, o que é isso? — Ela gaguejou, o rosto inteiro ficando vermelho.
— É exatamente o que você está pensando — respondi com naturalidade, encostando o quadril na minha escrivaninha. — E não me olhe com essa cara de quem viu o d***o. O seu corpo é seu, Beatrice. Não é do papai, e definitivamente não vai ser do seu futuro marido. Você precisa entender isso antes que ele te entregue para um mafioso qualquer.
Beatrice apertou o silicone na mão, olhando para os lados como se Alessio fosse brotar das paredes.
— Aperta a base — instruí, apontando para o objeto. — Ele tem três velocidades. Mas preste atenção: você só vai usar isso quando a porta estiver trancada. Só à noite, que é o único horário que o Alessio nos permite ficar com as chaves nas fechaduras por dentro. De dia, mantenha isso escondido no lugar mais improvável que você tiver.
Ela engoliu em seco, os dedos tremendo levemente enquanto sentia a textura lisa do brinquedo. Aos poucos, a barreira de vergonha começou a ceder, dando espaço para uma rebeldia muito crua que o nosso pai havia tentado espancar para fora dela.
Beatrice guardou o objeto de volta no veludo e apertou o pacote contra o peito, soltando uma risada nervosa e incrédula.
— Só você para vir com esse tipo de coisa para dentro da Villa Marino, sua louca. Se o papai achar isso nas minhas coisas, ele me enforca em praça pública.
Dei um sorriso torto, caminhando até ela e tocando o seu ombro com cuidado para não esbarrar nos machucados recentes.
— Relaxa um pouco, irmãzinha — murmurei, o meu tom carregado com o cinismo que eu criei sozinha após anos de encarceramento nessa prisão. — Acho que o que você precisa é gozar.