Capítulo 37: Aurora

1972 Words
A minha manhã começou com o cheiro ardido de cera de polir e o atrito da escova contra o piso de madeira do meu quarto. Enquanto eu esfregava o chão de joelhos, exercitando a falsa humildade que mantinha o meu pai cego para os meus pecados, a porta se abriu com um rangido discreto. Maria, uma das criadas mais antigas da casa, entrou a passos curtos e silenciosos. Ela não disse uma palavra. Apenas caminhou até a minha cama, deixou uma pilha de toalhas limpas e cheirosas sobre o colchão e, com um movimento rápido e treinado, deslizou uma pequena caixa de papelão para baixo do meu travesseiro. Quando ela saiu, tranquei a porta, sequei as mãos no meu avental e peguei a caixa. Dentro, havia três novas cartelas de pílulas anticoncepcionais. A minha passagem comprada para o inferno. Escondi a química proibida no fundo falso da minha penteadeira, sentindo o poder daquela pequena transgressão pulsar nas minhas veias. Horas depois, a família Marino estava reunida na grande mesa de jantar para o almoço. A sala principal da Villa era um mausoléu de mármore frio e luzes irritantes. Alessio cortava o seu bife com a tranquilidade de um Capo intocável. Ele limpou os lábios no guardanapo de linho e virou o rosto para Beatrice, que estava sentada rígida na cadeira para não encostar os vergões das costas na madeira. — E como estão os seus estudos, Beatrice? — Ele perguntou, o tom de voz macio e paternal, como se não tivesse usado um cinto de couro para espancá-la dias antes. — O professor particular tem exigido a disciplina necessária nas aulas de história? Sabe que o mundo lá fora corrompe as mentes jovens nas universidades, por isso faço questão de trazer o conhecimento puro até você. — Estão excelentes, papai — Beatrice respondeu, os olhos cravados no próprio prato. — Tenho lido os clássicos que o senhor recomendou. Alessio assentiu, satisfeito com o teatro. Em seguida, os olhos escuros dele pousaram na ponta da mesa, onde Caterina m*l tocava na comida. O rosto do Capo se iluminou com uma devoção doentia. — Minha anjinha — ele murmurou, esticando a mão para tocar uma das mechas claras do cabelo da caçula. Caterina engoliu em seco, mas forçou um sorriso submisso. — Os seus cabelos loiros estão lindos hoje. Consigo sentir o cheiro agradável de lavanda daqui. Uma verdadeira flor no nosso jardim. A ânsia de vômito subiu rasgando a minha garganta, mas eu a engoli com um gole de água gelada. — E você, Aurora? — Alessio se virou para mim. — Os livros novos que encomendei da paróquia têm sido úteis para as suas orações noturnas? — Extremamente úteis, papai — respondi, sustentando o olhar dele com uma serenidade gélida. — As histórias dos mártires têm me ensinado muito sobre sacrifício. Depois dessa tortura cotidiana, o dia avançou de forma arrastada, cada uma de nós afundada em suas próprias tarefas para evitar a presença dele. O jantar foi servido cedo, uma refeição leve de peixe e salada, antes de nos prepararmos para o trabalho no Mensa del Pane. Quando entramos no carro no pátio, a magnitude da nossa prisão ficou evidente mais uma vez. A Villa Marino era uma fortificação encravada nas Colinas de San Rizzo, no topo dos Monti Peloritani. Enquanto os motores do carro roncavam, olhei pela janela blindada. Daquele platô rochoso, tínhamos uma visão panorâmica e desobstruída do Estreito de Messina e da costa da Calábria logo em frente. Alessio passava os dias ali em cima, vigiando a água, sentindo-se o olho de Deus e o guardião da porta da Sicília contra a 'Ndrangheta, a máfia inimiga. Ele estava tão focado no perigo do outro lado do mar, que não percebia que a sua destruição já estava caminhando por dentro de sua própria cidade, vinda de Palermo. O carro desceu a estrada sinuosa da Viale Panoramica dello Stretto. A altitude criava um abismo entre o nosso claustro e o mundo real. Conforme descíamos, o ar rarefeito e o silêncio absoluto davam lugar ao bafo quente da cidade, ao barulho das buzinas e ao cheiro de asfalto sujo. Chegamos ao refeitório no começo da noite. Fui direto para a cozinha industrial, vesti o avental e comecei a servir a sopa rala para a fila de famintos. O calor era exaustivo, mas eu preferia aquilo ao ar-condicionado da Villa. Perto das oito da noite, o Padre Lorenzo se aproximou de mim com passos hesitantes. Ele olhava para os lados de forma neurótica, o suor brilhando na testa enrugada. Sem dizer nada, ele estendeu a mão pálida e me entregou um pequeno santinho plastificado. — Apenas para... para agradecer por tudo o que andam fazendo por nós, Signorina — o velho gaguejou, a voz trêmula de pavor. Achei estranho. Beatrice e Caterina estavam a poucos metros dali, servindo os pães, mas o padre só entregou a lembrança para mim. Quando os meus dedos tocaram o papelão, senti a espessura anormal. O nervosismo do homem foi a confirmação que eu precisava. Era um recado. Pedi a uma das voluntárias que assumisse a minha concha de sopa por um momento e caminhei rápido até o minúsculo banheiro dos fundos da paróquia. Tranquei a porta de madeira lascada. Com as mãos trêmulas e a respiração presa, usei a ponta da unha para forçar a borda do papelão plastificado. As duas metades se separaram, revelando o pequeno papel dobrado escondido ali dentro. Desdobrei o bilhete sob a luz fraca e amarelada do teto. "Passe a noite rezando naquela casa após alimentar os pobres [...] — Il tuo Diavolo." O meu coração deu um salto violento contra as costelas. Ele veio mesmo. E já tinha o plano perfeitamente armado. Escondi o papel dobrado dentro do decote do meu vestido, joguei as sobras do santinho no lixo e lavei o rosto na pia para esfriar a pele e disfarçar o fogo no meu olhar. Voltei para o salão e, a partir daquele momento, o trabalho exaustivo tornou-se a coisa mais leve do mundo. Eu sorria, eu servia os pratos com uma agilidade que não sentia há semanas. A promessa do pecado me deixava eufórica. Quando o turno acabou, o esquema de sempre foi acionado. Anunciei a Carmine e Salvatore que eu faria a penitência isolada naquela noite. Despedi-me das minhas irmãs na calçada. Carmine assumiu o volante de um dos carros para levar Beatrice e Caterina de volta à montanha. Salvatore, o segundo guarda, caminhou comigo por algumas ruas escuras até a pequena casa humilde que Alessio alugava para os meus supostos "isolamentos de penitência". Entrei na casa, tranquei a porta da frente com a chave pesada e ouvi os passos de Salvatore se afastando para ficar de guarda na calçada. Alguns minutos depois, o som do motor de Carmine retornou. O segundo guarda havia voltado para vigiar a rua comigo ali dentro. Eu estava no escuro absoluto. Sentei-me no chão da sala, com as costas contra a parede, e esperei. Cada minuto parecia uma eternidade pingando do relógio. Eu precisava ter certeza de que eles estavam relaxados, fumando os seus cigarros encostados no capô do carro, confiantes de que a filha do Capo estava ajoelhada rezando. Após exatos sessenta minutos de agonia e silêncio, eu me levantei. Fui até o banheiro estreito nos fundos da casa. Subi no vaso sanitário, destravei a janela basculante e empurrei o vidro. O ar quente do beco bateu no meu rosto. Com a agilidade que a adrenalina me emprestou, passei o corpo pela fresta estreita e caí em pé no chão de terra e lixo do lado de fora, sem fazer um único ruído. Estava livre. Amarrei um lenço escuro sobre a cabeça e o rosto, escondendo os meus fios loiros e feições, e caminhei a passos rápidos pelas sombras das ruas adjacentes. Eu era apenas mais uma mulher invisível na periferia de Messina. Ao virar a segunda esquina, o meu coração quase parou. Estacionado na escuridão, com o motor desligado, estava um sedã escuro e imponente. O mesmo tipo de carro suspeito que havia me seguido de casa até o Duomo semanas atrás. No instante em que me aproximei, os faróis do carro piscaram duas vezes, rápidos e atentos. Corri até a porta do passageiro e a puxei. O cheiro de couro caro, cigarro e o perfume amadeirado dele invadiram os meus sentidos. Joguei-me no banco, fechando a porta com força. Mattia sequer me deu tempo para respirar. Ele cravou uma das mãos na minha nuca, arrancou o lenço do meu rosto e puxou a minha boca para a dele. O beijo foi uma explosão de desejo contido na escuridão, meu peito queimando como se jogassem um fósforo aceso em gasolina. Os lábios dele carregavam a força bruta de um homem preparado para morrer pela sua mulher. Seus braços carregavam a vontade de me agarrar e nunca mais me soltar, de arrancar as minhas roupas e meter em mim até machucar ali mesmo, mas ele disse que tinha um lugar especial para nós. Um lugar que lembrasse a nossa primeira vez. Quando ele finalmente recuou, estávamos ofegantes. Os olhos verdes dele brilhavam como esmeraldas brutas na pouca luz do painel. — Para a capela abandonada? — Sussurrei, a voz rouca pela falta de ar. — Agora mesmo, minha Santuzza — ele rosnou, engatando a marcha e acelerando o carro para longe daquele bairro. Vagamos pelas ruas escuras de Messina, nos afastando gradativamente das áreas residenciais em direção ao extremo sul, onde as fábricas falidas e os terrenos vazios dominavam a paisagem. O carro parou nos fundos de uma ruína de pedra. A capela de San Giovanni parecia o cadáver de uma igreja. As paredes externas estavam tomadas por hera seca, o teto cedia em alguns pontos e a madeira das portas estava apodrecida pelo tempo. Um cenário fantasmagórico e esquecido. Mattia saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para mim. Ele segurou a minha mão, guiando-me pela escuridão até a entrada lateral. Quando ele empurrou a porta de madeira e eu entrei, os meus pés pararam de repente. O ar fugiu dos meus pulmões. Por fora, era o abandono absoluto. Mas por dentro... o lugar era um paraíso profano. O chão de pedra em frente ao altar estava limpo e coberto por três tapetes espessos e escuros. Dezenas de velas grossas iluminavam a escuridão, lançando sombras dançantes pelas paredes e banhando o ambiente em uma luz quente e dourada. No centro dos tapetes, havia um colchão grande forrado com lençóis limpos e dezenas de travesseiros e almofadas espalhadas. E, ao lado, uma mesa improvisada feita com um caixote de madeira coberto por toalhas de tecido branco impecável. Sobre a mesa, duas taças de cristal refletiam a luz das chamas, acompanhando pratos com uma massa que cheirava a ervas finas e uma garrafa de vinho tinto aberta, respirando no ar. Caminhei devagar para o centro do santuário, completamente em choque. O homem mais perigoso da Cosa Nostra, o assassino impiedoso de Palermo, havia passado horas esfregando pedra e arrastando madeira velha para construir aquele ninho no meio do inferno. Nenhum banquete opulento na sala de jantar da Villa Marino se comparava àquilo. Era, sem sombra de dúvida, a coisa mais bonita, cuidadosa e íntima que qualquer pessoa já tinha feito por mim em toda a minha vida. Virei-me para ele. Mattia estava encostado na porta trancada, as mãos nos bolsos da calça social, os olhos verdes varrendo o meu rosto para absorver a minha reação. O meu coração transbordou. A minha sanidade, a minha fé e o medo do meu pai se desfizeram em cinzas sob a luz daquelas dezenas de velas. — Diavolo... — murmurei, a minha voz embargada pela devoção absoluta enquanto eu desabotoava o primeiro botão do meu vestido. — Eu sou toda sua.
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