Capítulo 15: Mattia

1666 Words
A sala de jantar da Villa Marino era um mausoléu banhado pelo sol do meio-dia. A luz clara que entrava pelas janelas gradeadas refletia nos talheres de prata e nas taças de cristal, mas não conseguia dissipar as sombras que pesavam sobre aquela mesa. Eu ocupava o lugar de honra, à direita de Alessio, saboreando um cordeiro assado que desmanchava na boca, enquanto a minha mente dissecava o teatro à minha frente. Eu era um caçador treinado pela Cosa Nostra. Ler ambientes e fraquezas era o que me mantinha vivo há anos em Palermo. E, naquela tarde, o pavor exalava das filhas de Alessio Marino como fumaça. Todas elas sabiam. Beatrice, a irmã do meio de cabelos escuros, não conseguia erguer os olhos do próprio prato. Ela cortava a carne com movimentos incertos e trêmulos, a respiração curta, o rosto pálido como cera. Caterina, a caçula, era menos sutil; ela alternava olhares rápidos e aterrorizados entre mim, Alessio e a irmã mais velha. Era evidente que a muralha de segredos de Aurora havia ruído pela manhã. Meus olhos pousaram em Aurora quando ela finalmente deslizou para a cadeira vazia ao meu lado. Ela usava um vestido de algodão com um decote modesto em formato de canoa, mas o que capturou minha atenção foi a lateral do pescoço dela. Havia uma camada espessa, quase pastosa, de maquiagem cobrindo a pele do lado esquerdo. O tom bege destoava sutilmente da brancura de mármore do resto do rosto dela. Claro que as irmãs haviam ajudado. Aurora não teria conseguido esconder as marcas de estrangulamento que deixei nela sozinha, e a irmã mais velha certamente não encontrou uma desculpa plausível para os vergões em formato de dedos. Um sorriso sombrio ameaçou curvar meus lábios enquanto eu levava a taça de vinho tinto à boca. Se Alessio reparasse naquela textura artificial no pescoço da filha... Se ele desconfiasse por um segundo sequer e passasse um guardanapo úmido ali, o chão daquela sala de jantar seria pintado de vermelho antes da sobremesa. Era melhor não pensar nas consequências daquela possibilidade, mas o perigo iminente apenas atiçava o demônio dentro de mim. A tensão das irmãs mais novas atingiu o ápice quando Aurora se ajeitou na cadeira, tão perto de mim que o cheiro do sabonete floral dela invadiu minhas narinas, misturando-se ao aroma do vinho. — As rotas de exportação de azeite precisam de um reajuste nas taxas de atracagem, Sottocapo — Alessio dizia, alheio ao caos silencioso sob o seu próprio teto. Ele gesticulava com a faca, focado nos negócios. — Eu garanto que os números do último trimestre são irretocáveis. — Romeo preza pela confiança, Don Alessio, mas a confiança na máfia é um artigo que precisa ser auditado constantemente — respondi, minha voz monótona e profissional, sustentando o olhar do Capo. Foi então que aconteceu. Por baixo da longa toalha de linho branco que cobria a mesa de carvalho, senti o toque leve e audacioso dos dedos de Aurora roçando a lateral do meu joelho. Não movi um músculo do rosto. Mantive os olhos cravados em Alessio, assentindo levemente para uma de suas explicações sobre o porto. A mão dela subiu. Os dedos finos e quentes de Aurora traçaram uma linha lenta e torturante pela costura da minha calça de alfaiataria, avançando pela parte interna da minha coxa. Ela não estava apenas testando os limites; ela estava brincando com a morte. O atrito sutil, somado à lembrança de como ela havia engolido cada gota minha na noite anterior, mandou todo o meu sangue para o meu cajado, que se ergueu pouco a pouco, no ritmo da minha pulsação. Fiquei duro como pedra no meio do almoço em família. A ereção pesada e latejante esticou o tecido da calça, e a mão dela finalmente alcançou o volume, moldando os dedos ao redor da minha rigidez por cima da roupa. Um aperto suave, possessivo e absurdamente perigoso. Mas que deixou a cabeça do meu p*u bastante satisfeita, eu precisava nem olhar através do tecido para ver o quanto estava vermelha. — Concorda, Mattia? — Alessio perguntou, aguardando minha validação sobre uma cota de importação. — Plenamente — minha voz saiu um tom mais grave, e eu pigarrei para disfarçar. Apertei a minha mão livre sob a mesa, cravando as unhas na minha própria palma para manter a expressão impassível enquanto a filha dele me masturbava através do linho italiano. O almoço finalmente acabou e, quando a ereção diminuiu o bastante para ser disfarçada, eu me retirei para o escritório sob a desculpa de retornar aos livros contábeis, meu corpo fervendo e minha mente fervilhando. *** A tarde avançou lentamente. O calor do lado de fora era sufocante, mas dentro do escritório, a quietude era absoluta. Eu sabia que Alessio tinha o hábito de tirar um breve cochilo após a refeição antes de retornar às suas orações ou deveres. Eu estava debruçado sobre a mesa, encarando planilhas que já não faziam o menor sentido, quando a maçaneta girou. Aurora entrou carregando a maldita jarra de cristal com água. O olhar dela era uma mistura de boa moça inocente e de uma mulher pronta para fazer o que eu ordenasse. Mas o que fez meu sangue gelar e ferver ao mesmo tempo foi o fato de ela não ter girado a chave na fechadura. Ela simplesmente empurrou a porta até encostar, deixando a segurança nas mãos do acaso. — Você não trancou a porta — alertei, minha voz um rosnado baixo, levantando-me parcialmente da cadeira de couro. — Ele está cochilando. O ronco dele vai bater no segundo andar — ela sussurrou, a confiança da juventude cega pelo vício do perigo. Aurora não se importou com as planilhas ou com os meus avisos. Ela colocou a jarra na quina da mesa e, com uma agilidade impressionante, contornou a mobília. Antes que eu pudesse repreendê-la de forma mais dura, ela jogou uma perna de cada lado das minhas coxas e sentou-se diretamente no meu colo, de frente para mim. A saia do vestido subiu, revelando a pele macia que eu havia marcado horas atrás. O peso dela sobre o meu colo, o calor da i********e dela roçando contra o meu pênis confinado pela calça, aniquilou qualquer resquício de razão. Minhas mãos instintivamente agarraram os seus quadris, apertando com força. Eu ia rasgar aquele vestido ali mesmo. Eu ia f***r a filha de Alessio Marino com a porta destrancada, apenas para provar que eu podia. A porta se abriu de repente. Não houve clique prévio. Não houve passos no corredor alertando a chegada. O barulho da madeira rangendo soou como um tiro de canhão dentro do escritório. Os reflexos de sobrevivência de Aurora foram assustadores. Em uma fração de segundo, impulsionada pelo pavor absoluto, ela saltou do meu colo, caindo de pé ao lado da cadeira e agarrando o copo de cristal vazio sobre a mesa. Alessio Marino parou no batente da porta, os olhos pesados de sono varrendo o cômodo. Meu coração batia com a força de um martelo contra as costelas, minha mão direita já pairando a milímetros do coldre da minha arma sob o paletó. Se ele tivesse visto, eu teria que sacar e atirar no meio da testa do Capo de Messina antes que ele pudesse gritar. — Aqui está a água que me pediu, Signore — Aurora disse, a voz incrivelmente firme, enquanto despejava o líquido no copo com as mãos milagrosamente calmas. Ela se virou para o pai, o rosto sereno. — Ele estava com sede, papai. Alessio coçou a barba, ainda entorpecido pelo sono breve que tirara. Ele olhou da jarra para mim, os olhos passando reto pela postura defensiva dos meus ombros. O Capo não percebeu nada. A farsa havia resistido por um fio de cabelo. — Fez bem, minha filha — ele resmungou, adentrando o escritório. — Pode se retirar agora. Não precisamos mais de interrupções. — Com licença. Ela caminhou para fora do escritório, sem sequer olhar para trás. Assim que a porta se fechou e Alessio tomou o assento à minha frente, o ar voltou aos meus pulmões. Soltei a respiração lentamente, tirando a mão da proximidade da minha arma. O resto da tarde e o início da noite foram uma tortura burocrática. Alessio puxou a cadeira e sentou-se ao meu lado, revisando cada linha, cada número e cada manifesto de carga do porto. Ele explicou suas margens de lucro, as taxas cobradas dos importadores e a divisão exata que era enviada para o cofre de Romeo Rossi em Palermo. Enquanto a noite caía sobre os Colli San Rizzo, a minha farsa atingiu o seu limite inevitável. A contabilidade de Messina estava imaculada, exatamente como eu já sabia que estaria quando inventei aquela mentira descarada sobre desvios apenas para que Romeo me liberasse para vir até aqui. Não havia um único centavo fora do lugar para eu usar como desculpa e prolongar a minha estadia. Alessio fechou o último livro contábil com um estalo de satisfação. — Como pode ver, Sottocapo, a honra da Famiglia Marino permanece intocada perante a Cosa Nostra — o tom dele era de um orgulho contido e afiado. — A auditoria está concluída e, espero eu, Palermo está satisfeita. — O trabalho foi minucioso, Don Alessio. Relatarei a Romeo que tudo não passou de um erro de comunicação nas planilhas anteriores — menti com a facilidade de quem respira. — Excelente. Sendo assim, a estrada já está muito escura para a sua viagem de volta. O senhor pode ficar conosco mais esta noite. Amanhã pela manhã, o caminho estará livre para o seu retorno a Palermo. Amanhã. Meu prazo oficial havia acabado. Eu tinha apenas mais algumas horas dentro da fortaleza de Alessio, e a desculpa do meu serviço estava morta. Eu precisava ir embora, mas eu sabia, com a certeza de um viciado, que meu retorno a Palermo seria breve. A noite que se iniciava agora não seria o fim; seria apenas o intervalo da minha caçada.
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