O som da taça de cristal tombando sobre a mesa de jantar soou como um túmulo se fechando na mesa de jantar da Villa Marino.
A água manchou a toalha de linho branco impecável, escorrendo em direção à borda. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nenhum dos criados que serviam os pratos ousou respirar. Caterina, sentada do meu lado, encolheu os ombros instintivamente.
Beatrice arregalou os olhos, o rosto perdendo toda a cor enquanto ela olhava para a taça virada por um simples esbarrão do seu cotovelo. Um erro minúsculo. Um descuido de milissegundos.
Na cabeceira da mesa, meu pai parou de cortar o seu bife. Ele pousou a faca de prata e o garfo com uma lentidão calculada, limpou os lábios com o guardanapo e fixou os olhos escuros e opressivos na filha do meio.
— A desatenção é a mãe da preguiça, Beatrice. E a preguiça é o portão de entrada para a corrupção do espírito — Alessio decretou, a voz grave e calma cortando o ar gélido da sala. Ele se levantou, ajeitando o paletó do terno. — Ajoelhe-se.
O pânico engoliu Beatrice. Ela olhou para mim em desespero por uma fração de segundo, mas nós duas sabíamos que se eu abrisse a boca para defendê-la, o castigo seria dobrado para ambas.
Com as mãos tremendo, a minha irmã empurrou a cadeira para trás e caminhou até o centro da sala. Ela se ajoelhou no piso duro de mármore, bem diante dos olhares baixos e aterrorizados das cozinheiras e dos guardas que guarneciam as portas.
Alessio não gritou. Ele nunca precisava gritar. Ele levou as mãos à fivela do próprio cinto de couro grosso e o puxou das presilhas da calça com um zumbido seco. Dobrou o couro no meio, enrolando a ponta na mão direita.
— Tire o peso do seu pecado, filha. Dez vezes.
Beatrice fechou os olhos, o rosto contorcido em antecipação, e curvou os ombros para frente.
O primeiro estalo do couro rasgou o ar e atingiu as costas dela com uma violência animal. O som do golpe ecoou nas paredes de pedra.
Beatrice soltou um grito abafado, caindo com as mãos no chão para não desabar de rosto no mármore. Caterina cobriu a própria boca, lágrimas grossas já escorrendo pelo rosto.
Eu permaneci sentada, a espinha rígida, os meus dedos apertando a barra do meu vestido debaixo da mesa com tanta força que as articulações ficaram brancas.
Assisti ao meu pai desferir o segundo, o terceiro, o quarto golpe contra as costas da minha irmã, marcando a carne dela através do tecido da roupa apenas porque uma p***a de uma taça de água havia caído.
A cada estalo do cinto, o ódio silencioso dentro de mim criava raízes mais fundas.
Meia hora depois, nós três estávamos trancadas no meu quarto.
Beatrice estava deitada de bruços na minha cama, o vestido aberto nas costas revelando as faixas vermelhas e inchadas que o couro havia deixado na pele dela.
Ela soluçava baixinho contra o travesseiro, os dedos agarrando os lençóis. Caterina estava sentada no chão, abraçando os próprios joelhos, os olhos vermelhos de tanto chorar.
Sentei na beirada do colchão com um pote de pomada nas mãos. Espalhei o creme gelado sobre os hematomas da minha irmã com a maior delicadeza que consegui reunir.
— Vai passar, Bea — murmurei, a minha voz saindo rouca. — Eu prometo que vai passar.
— Eu odeio ele — ela choramingou, a voz abafada pelo tecido. — Eu odeio essa casa. Eu odeio a nossa vida, Aurora. Nós nunca vamos sair daqui. Ele vai nos matar aos poucos.
Olhei para as duas. Minhas irmãs. Meu sangue. As únicas coisas no mundo pelas quais eu sentia algum tipo de amor real. Caterina me encarou com o rosto banhado em lágrimas, procurando qualquer faísca de esperança na irmã mais velha, na primogênita intocável que supostamente tinha todas as respostas.
Mas eu não tinha. Eu só tinha mentiras, pílulas escondidas e o sêmen de um assassino ainda fresco na minha memória.
Foi então que duas batidas secas soaram na porta do quarto.
Limpei as mãos rapidamente e cobri as costas de Beatrice com o vestido. Fui até a porta e destranquei. Carmine estava no corredor, segurando um pacote embrulhado em papel pardo e amarrado com barbante grosso.
— A encomenda que a senhorita pediu à Igreja chegou pelos correios nesta tarde, Signorina Aurora. Os livros de teologia. O Capo autorizou a entrega.
O meu coração deu um solavanco no peito, mas a minha expressão permaneceu perfeitamente calma.
— Obrigada, Carmine. Que Deus o abençoe.
Peguei o pacote pesado e fechei a porta. Fui direto para a minha escrivaninha. Rasguei o papel pardo e encontrei três volumes antigos com capas de couro desgastadas. O cheiro de página velha subiu no ar, mas eu não me importei com os títulos sagrados gravados na capa.
Abri o livro do meio, passando as páginas rapidamente até o centro.
Um envelope pequeno e escuro caiu sobre a madeira da mesa.
Puxei o bilhete de dentro. A caligrafia era dura, do jeito que brutos escrevem. O papel cheirava levemente a cigarro. Era dele. Era a conexão que ainda me ligava a Palermo.
“O luxo da minha cidade é um lixo comparado ao quarto sujo onde te deixei. As reuniões do meu Capo não me importam. O poder de matar quem eu quiser não me importa. Estou sufocando de tédio e fúria deste lado da ilha, santuzza. A distância está me enlouquecendo, e a ideia do seu pai te entregando a outro homem é uma coisa que não posso suportar.
Eu vou encontrar uma brecha nos muros da sua fortaleza. Eu vou cruzar o mar se for preciso.
Se eu abrir as portas, você aceitaria fugir dessa vida comigo?”
Meus olhos percorreram a última frase três vezes. A tinta preta gravada no papel era a promessa da minha liberdade e da minha completa condenação ao mesmo tempo.
Fugir com o Sottocapo da Famiglia Rossi. Rasgar o meu sobrenome, abandonar a pureza que nunca tive e me jogar de vez no abismo com o d***o.
Era tudo o que eu mais queria no mundo.
Mas então, eu olhei por cima do ombro. Olhei para Beatrice, deitada de bruços, gemendo de dor pelas cintadas de Alessio. Olhei para Caterina, tremendo de pavor no chão do quarto, aterrorizada com o próprio futuro.
Não. Eu não era uma ovelha que fugiria sozinha pela porta dos fundos para salvar a própria pele. Eu era a primogênita dos Marino.
Peguei a minha caneta-tinteiro de prata. As minhas mãos não tremeram. Alisei um pedaço de papel em branco e escrevi a minha resposta com a mesma frieza que abracei para suportar aquilo tudo.
"Sim. Eu fugiria para o inferno com você, Mattia. Mas eu não saio desta montanha sozinha. Eu não deixo o meu sangue para trás para ser esfolado por Alessio. O meu preço para sumir de Messina com você são as minhas irmãs. Se você me quer, terá que levar nós três."
Dobrei o bilhete e o escondi dentro da capa do livro. Estava feito. Se o assassino de Palermo realmente me amasse a ponto de desafiar a morte, ele teria que provar. Teria que fazer o impossível.