A luz da manhã invadiu o quarto com uma claridade irritante, perfurando as frestas das venezianas e atingindo meu rosto.
Pisquei, desorientada. O silêncio habitual da Villa Marino pairava no ar, pesado com o cheiro de incenso que subia da capela no andar inferior e o aroma distante de café fresco.
Por um segundo longo e letárgico, enquanto eu encarava o dossel da minha cama, achei que tudo não passava de um delírio. Um sonho sujo, febril e incrivelmente vívido criado pela minha mente entediada.
Então, eu me movi.
O simples ato de esticar as pernas sob os lençóis de algodão me fez prender a respiração. Uma dor aguda, crua e pulsante irradiou do centro da minha i********e.
O atrito do tecido contra a minha pele sensível foi um lembrete físico de que eu havia sido esticada e preenchida até o meu limite absoluto.
Tentei engolir a saliva seca acumulada na boca, e uma pontada lancinante rasgou a minha garganta, subindo pelas vias respiratórias e ecoando como uma pressão dolorosa dentro dos meus ouvidos.
Era o tipo de dor que se sente após um engasgo violento, a prova carnal de que eu havia abrigado a brutalidade do Sottocapo dentro de mim.
E como se as dores internas não bastassem, um incômodo surdo e contínuo abraçava toda a extensão do meu pescoço, como se um colar de chumbo invisível ainda estivesse apertando a minha traqueia.
Foi real. Tudo foi real.
Uma risada baixa, rouca e genuína escapou dos meus lábios, arranhando minha garganta dolorida. Joguei o braço sobre os olhos, sorrindo sozinha na cama bagunçada.
O que um assassino da máfia, um monstro treinado para intimidar e destruir, era capaz de fazer com uma jovem necessitada beirava o fantástico. Ele havia me desmontado e me reconstruído no escuro, usando o perigo como afrodisíaco.
E um dote imenso como ferramenta.
Eu me sentia exausta, dolorida, corrompida e incrivelmente ótima. Pela primeira vez na vida, eu sentia o sangue correr nas veias com um propósito que valia a pena.
Joguei as cobertas para o lado e me sentei na beira da cama, meus pés descalços tocando o chão frio de pedra. Levantei-me com cuidado, os músculos das coxas protestando a cada passo, e caminhei até a penteadeira.
Quando ergui o olhar para o espelho oval, a risada morreu na minha boca.
Meus olhos se arregalaram em puro choque, e o sangue gelou nas minhas veias.
Sou abençoada e amaldiçoada com a pele da nossa mãe. Branca como mármore, quase translúcida, o tipo de pele que fica vermelha com um vento mais forte e ganha hematomas amarelados com um simples tropeço. Mas o que havia refletido no espelho não era um arranhão.
Do lado direito do meu pescoço, quatro marcas ovais, escuras, misturando tons de roxo profundo e vermelho sangue, subiam até a mandíbula.
Do lado esquerdo, a marca solitária e maciça de um polegar formava um contraponto brutal. Dava para ver perfeitamente o formato da mão grande de Mattia cravada na minha carne. Um molde exato da violência que eu havia implorado para receber.
O pânico substituiu a euforia. Ficar roxa, marcada e dolorida entre as pernas era maravilhoso, um segredo só meu que os vestidos longos e as saias pesadas esconderiam sem nenhum esforço.
Mas o pescoço? Meu pai veria. Alessio notaria aquela marca a metros de distância. E ele não precisava ser um detetive para saber que demônios invisíveis não deixam hematomas em forma de dedos grandes e masculinos.
Abri as gavetas da penteadeira em um desespero cego. Minhas mãos tremiam enquanto eu vasculhava meus frascos. Peguei meu corretivo, o único luxo real que o dinheiro de Alessio me comprava, mas o tubo estava seco.
Raspei as bordas com o aplicador, conseguindo apenas uma gota pálida que m*l cobriu a ponta de um dos dedos desenhados na minha pele. Joguei o vidro vazio na parede com um baque surdo. Eu estava no fim das minhas reservas. O que eu tinha não cobriria nem metade daquela desgraça.
Saí do quarto feito um raio, segurando a gola da camisola de seda para cima, apertando o tecido contra a garganta. Caminhei pelo corredor na ponta dos pés, rezando para que nenhuma das empregadas estivesse no andar de cima com as vassouras.
Fui direto para a porta de Beatrice. Não bati. Girei a maçaneta e entrei, trancando a porta atrás de mim.
A minha irmã do meio já estava acordada, sentada diante do próprio espelho, escovando seus cabelos escuros com aquela mesma escova de cerdas arruinadas de sempre.
Ela parou o movimento no ar assim que viu o meu reflexo pálido e ofegante atrás dela.
— Me ajuda — eu disse, a voz saindo falha e rouca.
Beatrice virou-se na cadeira, a expressão imediatamente se fechando em uma máscara de recusa e censura. Ela cruzou os braços sobre o peito.
— Eu não vou ajudar você a encontrar aquele homem de novo, Aurora. Nem pense nisso. Eu já estou arriscando a minha vida não contando para o papai o que eu descobri.
Dei um passo à frente, soltando o tecido da camisola que eu segurava com força. O decote caiu, revelando o meu pescoço em toda a sua glória profanada sob a luz clara da manhã.
Beatrice arregalou os olhos. A escova caiu da mão dela, batendo no chão de madeira com um barulho oco. Todo o sangue fugiu do rosto dela.
— Meu Deus... — Ela sussurrou, aterrorizada, levando as mãos à boca. — Ele bateu em você? O que ele fez com você, Aurora?!
— Não! — Sibilei imediatamente, avançando para cobrir a boca dela com a mão, caso ela decidisse gritar. — Claro que não. Fala baixo, pelo amor de Deus. Foi um... foi um acidente.
Beatrice puxou minha mão para longe, os olhos escuros brilhando com um misto de medo e incredulidade. Ela se levantou, aproximando o rosto do meu pescoço para examinar a catástrofe.
— Aurora, pelo amor de todos os santos, está mais do que na cara que foi uma mão que fez isso. E uma mão incrivelmente forte. Não minta para mim. Me conta a verdade agora, ou eu não levanto um dedo para te ajudar.
Engoli em seco, a dor na garganta me lembrando de cada segundo da noite anterior. Eu não tinha saída. Beatrice não era boba.
— A verdade — murmurei, sustentando o olhar apavorado dela com uma frieza que eu sabia que a assustava. — Está bem. Ontem a gente fodeu a noite inteira no meu quarto. Ele tapou minha boca para vocês não ouvirem e me apertou. Isso é só uma boa lembrança, Bea. Foi maravilhoso. Mas eu preciso esconder isso do papai urgentemente e todas as minhas maquiagens acabaram. Secaram de vez.
Beatrice piscou, assimilando a atrocidade das minhas palavras. Os ombros dela cederam, e a garota recatada que rezava o terço todas as noites sumiu por um segundo.
— p**a merda — ela soltou, a profanação soando estranha e pesada na sua voz. Ela passou a mão nervosamente pelos cabelos. — p**a que pariu, Aurora... Vamos ter que pegar as coisas da Caterina. O tom de pele dela é o único que serve para tentar apagar essa aberração.
Dez minutos de pura tensão depois, estávamos trancadas no quarto de Caterina.
A nossa caçula, ainda de pijama, estava de pé na minha frente, com uma paleta de corretivos profissionais e uma esponja nas mãos. Beatrice andava de um lado para o outro perto da porta, roendo as unhas e vigiando qualquer som no corredor.
A esponja fria batia contra o meu pescoço, depositando camadas grossas de creme bege sobre a pele roxa. Caterina apertou os olhos, a testa franzida em concentração, até que parou a mão no ar.
— Isso foi um chupão, Aurora — Caterina declarou, a voz jovem carregada de uma certeza perigosa.
— Claro que não — neguei no mesmo instante, mentindo descaradamente, embora o suor frio já começasse a brotar na minha nuca.
Caterina inclinou a cabeça, os olhos azuis tão afiados quanto os meus varrendo os contornos da mancha que teimava em escurecer a maquiagem.
— Então foi uma mão bem grande — ela concluiu, diminuindo o tom de voz até virar um sussurro assombrado. — Meu Deus... Você está ficando com o Sottocapo?
O ar foi sugado do quarto.
Olhei imediatamente para Beatrice pelo espelho. A irmã do meio parou de andar, o terror estampado no rosto. Beatrice se voltou para a caçula com os punhos cerrados.
— Da onde você tirou um absurdo desses, Caterina? — Beatrice ralhou, tentando manter a fachada de irmã mais velha e responsável.
Caterina não se intimidou. Ela voltou a bater a esponja no meu pescoço, focada no seu trabalho de restauração.
— Eu vi eles se olhando durante o jantar de ontem. Eles quase conversavam sem palavras, querendo fazer alguma coisa que papai não gostaria de ver. Eu não sou cega — ela deu de ombros, pegando um pó translúcido. — Fique quieta, Aurora. Vamos encobrir isso. Se o papai vir, ele mata o homem de Palermo e depois esfola nós três no pátio.
O silêncio reinou no quarto enquanto a mais nova terminava o serviço. Quando Caterina recuou, a marca estava escondida sob uma camada espessa, mas visível se alguém olhasse muito de perto. Eu precisaria usar um lenço ou um vestido de gola alta.
Beatrice se aproximou de mim, os braços cruzados, o olhar carregado de um peso terrível.
— Você não sabe mesmo manter um segredo, Aurora. Você é inconsequente. Brincar com aquele monstro dentro desta casa... Isso vai acabar em tragédia. Uma tragédia de sangue.
Levantei-me da cadeira, ajeitando o roupão que eu havia colocado por cima da camisola. Inclinei meu rosto perto do dela, sustentando sua reprovação.
— Não vai — afirmei, a voz dura, tentando me convencer tanto quanto a ela.
Beatrice balançou a cabeça lentamente, os olhos marejados de puro pavor.
— E vai sobrar tudo para nós.