Capítulo 32: Mattia

1156 Words
O contraste entre as folhas de ouro do Palazzo Rossi e as paredes de concreto e vidro do meu apartamento sempre foi o meu único alívio na capital. Aquele espaço, a poucos quarteirões da Piazza Croce dei Vespri, era o meu verdadeiro território. Onde as máscaras da Cosa Nostra caíam. Girei a chave e empurrei a porta. O cheiro de antisséptico barato e sangue seco pairava no ar da sala. Cristiano estava sentado no sofá de couro, inclinando o corpo sobre a mesinha de centro. Ele usava os dentes para rasgar a ponta de um esparadrapo, enrolando a fita ao redor dos nós dos dedos da mão direita, que estavam completamente em carne viva. Fechei a porta com um chute leve e joguei as minhas chaves no balcão da cozinha. — Deixe-me adivinhar — murmurei, afrouxando a gravata de seda e abrindo a geladeira de inox. Peguei duas garrafas de cerveja, tirei as tampas na quina da pia e caminhei até a sala. — O carregamento de eletrônicos do galpão sul. Cristiano pegou a garrafa que eu estendi para ele e deu um gole longo, fazendo uma careta quando a condensação gelada tocou o lábio inferior cortado. Ele era jovem, o sangue quente da nossa família correndo solto. — Uns ratos de rua acharam que o galpão estava desprotegido durante a troca de turno — ele explicou, a voz rouca. — Quebrei a mandíbula de dois deles com um pé de c***a, e o resto correu. A carga está limpa. Sentei na poltrona de frente para ele, dando um trago na minha cerveja. A lealdade de Cris para com a nossa Famiglia era indiscutível, mas o que eu estava prestes a pedir a ele ia testar os limites dessa devoção até quebrar. Observei meu irmão mais novo por um longo minuto. O silêncio no apartamento ficou denso. A palavra convicção piscou na minha cabeça. — Lembra-se de quando eu voltei de Messina no mês passado? — Perguntei, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Você disse que a minha cabeça ainda estava do outro lado da ilha. Que eu estava com cara de quem precisava matar alguém. Cristiano parou de enrolar o esparadrapo. O instinto dele sempre foi afiado. Os olhos escuros se fixaram em mim, captando a mudança na atmosfera. — Lembro. Você me disse que negócios com fanáticos eram desgastantes. — Eu menti — declarei, direto e sem anestesia. — Eu menti para você. E menti para o Romeo na semana passada, quando voltei da segunda viagem. O álibi do estivador que eu matei nas docas foi forjado. Cristiano franziu a testa, a cerveja esquecida na mão. — Forjado para quê, Mattia? Você apagou o cara. Eu ouvi por aí que a polícia arquivou o caso, Romeo te deu os parabéns pelo trabalho. O que diabos você estava escondendo lá que precisava de um álibi de sangue? Inclinei o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Eu não estava negociando no leste nos últimos dias, Cris. Eu estava trancado em um quarto alugado em um bairro degradante de Messina. E eu estava fodendo a primogênita de Alessio Marino. A cor sumiu do rosto do meu irmão. A garrafa de cerveja escorregou da mão dele e bateu com força no vidro da mesa de centro. — Você... o quê? — A voz dele saiu como um sussurro estrangulado. Ele balançou a cabeça, tentando processar o suicídio que eu tinha acabado de confessar. — A filha do Capo de Messina? A santa que o Alessio exibe como a merda de um troféu da igreja? Mattia, você enlouqueceu? Se aquele maluco desconfiar que você respirou perto dela, ele declara guerra a Palermo! — Já está feito — dei de ombros, a frieza mascarando o vulcão dentro de mim. — E a guerra já está declarada, ele só não sabe ainda. Eu vou tirá-la dessa ilha. O pai dela pode arranjar um casamento para ela a qualquer momento. Eu não vou permitir que isso aconteça, eu prefiro morrer a assistir sem fazer nada. Cristiano levantou do sofá num pulo, ignorando a dor nos nós dos dedos, e começou a andar de um lado para o outro na sala, passando a mão pelos cabelos escuros. — Tirar ela da ilha? Como se fosse um pacote de contrabando? Mattia, nós somos a Cosa Nostra, não o resgate de princesas! Para onde você vai levá-la? Se Romeo descobrir que você traiu a confiança dele e da Famiglia por uma b****a de Messina, nós dois estamos mortos. — Fica pior — avisei, o tom implacável. Ele parou de andar, me encarando com puro terror. — Como é que pode ficar pior? — Ela não vem sozinha. Aurora me mandou uma carta. Ela foge para o inferno comigo, mas tem uma condição. Ela não larga o sangue dela para trás para o Alessio fazer o que bem quiser. Se eu quiser tirá-la de lá, terei que contrabandear as duas irmãs mais novas junto com ela. Beatrice e Caterina. O maxilar de Cristiano caiu. Ele piscou três, quatro vezes. — Três filhas. Você quer roubar as três filhas do Capo de Messina de dentro da fortaleza dele. — Sim. Ele soltou uma risada histérica, caindo sentado no sofá de novo e cobrindo o rosto com as mãos feridas. — É isso. Nós vamos morrer. Don Vittorio vai mandar nos esquartejar e jogar nossos pedaços no Tirreno. Três mulheres, Mattia? Você tem noção do problemão que você criou? A guarda costeira recebe propina de três famílias diferentes. Os passaportes falsos precisam passar pela máfia albanesa ou russa. Isso custa uma fortuna em dinheiro vivo que não pode ser rastreado. E onde você vai enfiar três filhas de um mafioso no continente sem que ninguém reconheça o rosto delas? — É por isso que eu estou te contando isso, Cristiano — respondi, me levantando e caminhando até ele. Parei na frente do meu irmão e estendi a mão. — Eu não posso fechar as rotas de fuga pessoalmente porque Romeo está em cima de mim com o carregamento de armas novo. Se eu me mover pelas sombras por muito tempo, levanto suspeitas. Eu preciso de um fantasma. Eu preciso de você. Cristiano olhou para a minha mão estendida. A respiração dele estava acelerada. A lógica gritava para que ele saísse pela porta e fingisse que nunca tinha ouvido aquela conversa. Era alta traição. Era a forca. Mas nós éramos sangue. E, no nosso mundo, a lealdade entre os Santoro era a única religião que prestava. Ele praguejou baixinho, um xingamento sujo em dialeto siciliano. Levantou a mão enfaixada e apertou a minha com força. — O que nós precisamos fazer primeiro? — Ele perguntou, os olhos escuros aceitando o próprio fim. — Dinheiro limpo. Identidades frias. E a planta do porto de Messina — decretei, puxando-o para cima. — Se tudo der certo, talvez eu ajeite uma das minhas cunhadas para você.
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