O Palazzo Rossi, com todo o seu luxo asfixiante, costumava ser o meu terreno de caça favorito. Mas, desde que eu havia retornado de Messina, as paredes adornadas com ouro pareciam apenas uma prisão bem decorada.
Eu estava caminhando pelo corredor da ala oeste no final da tarde, indo entregar os relatórios das docas, quando encontrei a porta do escritório particular de Romeo entreaberta. O som de pele batendo contra pele e suspiros abafados vazava para o corredor.
Empurrei a porta de carvalho.
Romeo estava encostado na beirada de sua pesada mesa de mogno, a calça social abaixada até os joelhos. Sara, uma das criadas mais novas do palazzo, estava de quatro sobre os relatórios espalhados, o uniforme desbotado erguido até a cintura enquanto o Capo a penetrava com estocadas rítmicas e despreocupadas.
Quando os meus sapatos estalaram no piso, Romeo olhou por cima do ombro da garota. Ele não demonstrou a menor sombra de vergonha. Pelo contrário, um sorriso preguiçoso e arrogante curvou os seus lábios.
— Mattia — ele saudou, sem interromper o ritmo do quadril. Sara ofegou, encolhendo os ombros, mas não ousou se mover. — Você anda muito tenso desde que voltou, com a cabeça em outro lugar. Tranque a porta, junte-se a nós. Vamos dividir e nos divertir um pouco. A Sara tem boca e mãos o suficiente para os dois.
Encarei a cena com uma frieza absoluta. O cheiro de sexo no ar não despertou nada em mim.
A única imagem que piscou na minha mente foi o azul cristalino de dois olhos no escuro e a pele macia de uma santa que pertencia a um mundo muito distante dali.
A luxúria de Palermo não tinha mais efeito sobre mim.
— Não, obrigado — recusei, a voz séria. Joguei a minha pasta de relatórios em cima de uma das poltronas de couro. — Termine o seu serviço. Falamos de negócios depois.
Dei as costas e saí, fechando a porta atrás de mim.
Horas mais tarde, a noite já havia caído sobre a capital siciliana. Eu estava na sacada do meu quarto no palazzo, tragando um cigarro e observando as luzes da cidade, quando Romeo apareceu. Ele trazia duas doses de licor em taças de cristal e uma postura um pouco mais contida.
— Aceite as minhas desculpas pela cena com a criada mais cedo — Romeo disse, estendendo uma das taças para mim e parando ao meu lado no parapeito de pedra. — Eu estava precisando descarregar a tensão.
Peguei o copo, assentindo devagar. O vento noturno era morno. Olhei para o perfil do meu amigo e chefe, a mente trabalhando nas engrenagens do abismo em que eu havia me metido. A bebida e o silêncio abriram a brecha que eu precisava.
— E se você conhecesse uma mulher? — Soltei a pergunta de forma casual, mantendo os olhos na brasa do meu cigarro. — Se você se apaixonasse e quisesse fugir com ela de Palermo? Fugir da Cosa Nostra...
Romeo soltou uma risada seca, cortando a minha hipótese pela raiz antes mesmo que eu terminasse a frase.
— Impossível — ele decretou, o tom de voz brutalmente realista, sem espaço para devaneios. — O destino para um homem que tenta deixar a Famiglia é a morte, Mattia. Apenas a morte. Não há aposentadoria. Não há recomeço. Nós nascemos nisso e morremos nisso.
Ele bebeu um gole do licor, balançando a cabeça diante da minha suposta ingenuidade.
— O dever está acima do sangue e das vontades, meu amigo. Até o meu irmão vai ser forçado a se casar com uma mulher que ele sequer conhece para cumprir o papel dele.
Franzi a testa, virando o rosto para ele.
— Dante, o mais novo?
— Sim — Romeo confirmou, encostando-se na sacada. — O miserável matou alguns homens recentemente, fez um belo estrago, mas o Don não o enviou para a capital ainda. Acha que ele é mais útil em Trapani.
— Na vida de campo da Tenuta Rossi — deduzi, lembrando-me do isolamento daquela propriedade.
— Exatamente. Meu pai quer um pedaço do continente — Romeo continuou, a frustração política vazando no tom de voz. — Há anos o Don Vittorio tenta me casar com a filha única de Cesare Nirta, o Capo Bastone da 'Ndrangheta, a nossa maior inimiga da Calábria. É óbvio que o meu pai quer começar a conquistar o continente e está mirando no topo da pirâmide deles, mas as negociações simplesmente não avançam. Estão empacadas.
— É por isso que ele vai casar o seu irmão mais novo primeiro.
— Sim. Logo o Dante vai ser o primeiro filho a ter uma esposa, talvez dê até um neto para o Don primeiro. Pouco importa para mim, sinceramente.
Eu dei um trago no cigarro, a fumaça subindo devagar. A frieza de como a máfia tratava a vida humana sempre foi algo natural para mim, mas agora, com Aurora na minha cabeça, a perspectiva de ser vendido como gado parecia sufocante.
— E com quem Dante se casaria?
Romeo riu, uma gargalhada rouca e cheia de sarcasmo.
— Essa é a melhor parte. Com qualquer uma.
Estreitei os olhos, sem entender.
— Como assim, "com qualquer uma"? Alguém fora da Famiglia? Fora da Cosa Nostra?
Romeo virou o rosto para mim, os olhos verdes brilhando com a insanidade dos planos do próprio pai.
— Vittorio sempre foi supersticioso e ganancioso, mas agora ele está enlouquecendo de vez. Meu pai não quer só um pedaço da Itália, Mattia. Ele quer o outro lado do mar também. Ele quer negócios do Brasil. E, na cabeça dele, para ter o poder verdadeiro lá, ele acredita que tem que ter sangue daquele Novo Mundo.
O absurdo daquela estratégia me fez piscar.
— Dante vai se casar com uma brasileira?
— Sim. Meu pai já está movendo os contatos e enviando os seus homens para comprar uma mulher para ele. Uma virgem, pelo menos. Literalmente comprada. Tudo para ter um herdeiro com o sangue do Brasil e tomar o controle daquele pedaço de selva. Dá para acreditar numa merda dessas?
Balancei a cabeça, processando a loucura.
— Não, senhor. E o Dante? Ele aceitou isso bem?
Romeo suspirou, rodando o resto do licor na taça.
— Dante não aceita nada fácil. Mas eu duvido que ele fuja ou se rebele. A verdade, Mattia, é que alguns homens precisam de muito mais do que coragem para mudar as coisas. Precisam de convicção — ele virou a taça de uma vez e deu de ombros, espreguiçando-se. — Ou, sei lá, talvez eu só esteja bêbado demais para falar sobre o destino da minha própria família.
O Capo deu dois tapinhas no meu ombro e se retirou da sacada, voltando para o interior do palazzo.
Fiquei sozinho na escuridão, o cigarro queimando até perto dos meus dedos. A brisa quente de Palermo bateu no meu rosto.
Convicção.
A palavra de Romeo ecoou na minha mente como um disparo de calibre grosso. Dante não fugiria porque não tinha pelo que lutar. Mas e eu?
Eu teria a maldita convicção para atravessar o fogo cruzado e fugir com Aurora, rasgando o meu juramento de sangue com a Cosa Nostra? Ou eu me acovardaria e apenas aceitaria o meu destino encostado em uma parede no dia em que Alessio Marino resolvesse casá-la com um "santo"?
Romeo, mesmo sem fazer a menor ideia do meu dilema, mesmo sendo a âncora que me prendia a Palermo, tinha acabado de ajudar o seu Sottocapo a encontrar a resposta.
Eu queimaria a Sicília inteira antes de deixá-la ser tocada por outro homem.