O gordo engoliu em seco. A saliva desceu rasgando a garganta dele. A marra de polícia brabo derreteu igual gelo fino no asfalto quente do meio-dia. Ele conhecia muito bem o meu histórico criminal no fórum, sabia que a minha assinatura derrubava operação inteira e que eu não blefava nem fodendo. Se tinha uma coisa que eu tinha de sobra na vida, era peito pra bater de frente e peitar polícia safado e miliciano. Ele abaixou a mão devagar, suando frio, e deu um passo largo pro lado, desviando o olhar pro chão encardido. — Tá liberado, doutora. Fica à vontade. Mas o homem lá dentro tá virado no demônio hoje... a neurose tá forte — ele sussurrou, a voz fina, tentando salvar o mínimo de dignidade que a farda ainda dava pra ele. — O demônio tem medo de mim quando eu acordo de mau humor, Peixoto.

