Capitulo 2

622 Words
Cheguei ao balcão de vidro grosso da secretaria do plantão judiciário com a postura imponente de um general marchando pro campo de batalha antes da primeira descarga de artilharia. A minha jaqueta de couro preta estalava seca nos ombros a cada movimento, a bolsa da Prada pesada de documento pendurada no braço. O meu cabelo escuro caía solto e pesado nas costas, e os meus olhos verdes a única herança maldita e felina que eu infelizmente dividia com aquele rato do Carvalho miravam o funcionário público de plantão com um desprezo tão palpável, um nojo tão pesado, que o coitado quase engoliu a própria saliva de susto. — Bom dia. Eu tô protocolando um Habeas Corpus em caráter de urgência urgentíssima pro plantão do juiz titular — despejei as vias impressas da petição em cima da fórmica gasta com um baque seco, estalando o papel. A minha voz saiu cortante, gélida, rasgando o ar frio do ar-condicionado sem deixar a menor margem pra gracinha, enrolação ou burocracia de funcionário encostado. O servidor público, um burocrata gordo, empapuçado, com o colarinho sujo de café e cara de quem odeia a humanidade inteira e cumpre ordens de olhos fechados só pra garantir o vale-refeição no fim do mês, olhou pro calhamaço e suspirou. Ele tentou empurrar a petição de volta pro meu lado com a ponta dos dedos trêmulos, ensaiando o velho e manjado disfarce da lentidão sistêmica pra me jogar pra escanteio. — Doutora Lívia... a senhora sabe como é, né? O plantão formal só começa às oito horas em ponto. O sistema tá travando, tem uma fila imensa de flagrante da noite acumulado de todas as delegacias... A senhora sabe perfeitamente como funciona a burocracia da casa. Volta daqui a duas horinhas, toma um café... Eu não esperei o parasita terminar de balbuciar a desculpa fajuta. A minha paciência já tinha virado fumaça há quilômetros de distância dali. Inclinei o meu corpo sobre o balcão de atendimento, invadindo totalmente o espaço vital dele de forma predatória, bati as unhas vermelhas e pontiagudas no vidro e joguei o veneno direto na veia dele, sem massagem, sem anestesia: — Você vai olhar bem fundo pra minha cara agora e vai me escutar com o máximo de atenção, seu merda. O meu cliente, um moleque que não deve p***a nenhuma, tá sofrendo tortura psicológica e física neste exato segundo numa cela fétida da delegacia comandada pelo doente do meu irmão. Ele é vítima de um sequestro fardado em plena luz do dia, um flagrante mais falso que nota de três reais. Se você não pegar essa p***a desse processo agora mesmo, não ligar nesse interfone privativo do gabinete do juiz Medeiros e não botar esse documento na mesa dele em menos de dois minutos contados no meu Rolex, eu não vou só f***r com o seu plantão de merda. Eu vou macetar a tua vida. Eu vou protocolar uma representação disciplinar gravíssima no CNJ, no Ministério Público e na Corregedoria contra você e contra esse magistrado de araque por prevaricação, formação de quadrilha e coautoria em cárcere privado. Quer mesmo arriscar perder a tua aposentadoria gorda e o teu carguinho confortável por causa de preguiça matinal? Quer pagar pra ver eu rasgar o teu contracheque? A cor vermelha e rosada sumiu instantaneamente do rosto banhudo do homem, dando lugar a um tom cinza de defunto que já passou da validade. A fúria fria, cortante e calculada que emanava de cada poro do meu corpo era inconfundível. Ele me conhecia. A p***a do fórum inteiro me conhecia. Ele sabia perfeitamente que a doutora Lívia Carvalho não blefa, que eu conheço os esqueletos escondidos em cada armário, em cada gaveta e em cada corredor sujo daquele tribunal.
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