NARRAÇÃO: LÍVIA CARVALHO O silêncio que desabou na calçada depois do meu grito foi um bagulho macabro, denso, sufocante. O vento frio que vinha da praia de Ipanema varreu as folhas secas pela sarjeta, uivando no meio dos prédios de luxo. O Carvalho congelou. O cano da arma continuava colado no meu peito, mas a mão dele tremia de um jeito tão ridículo, tão descontrolado, que o metal batia contra o osso da minha costela num ritmo desordenado. Ele olhou pra minha cara, olhou pros meus olhos verdes que não piscavam, que não demonstravam um pingo de clemência ou pavor, e o resto de sanidade que sobrava naquele cérebro perturbado entendeu o aviso: ele não tava lidando com uma mulher frágil. Ele tava lidando com a mesma raça r**m que forjou a vida dele. A mesma loucura, a mesma frieza, o mesmo

