A conversa

1014 Words
Meus neurônios estão acelerados, turbilhões de emoções, hoje é o dia do julgamento dos piores traficantes do Espirito Santo, então imaginem o alvoroço na porta do Fórum e a perseguição para uma entrevista com Juiz Romualdo, antes ele não tinha segurança para todos saberem, hoje é necessário, arriscaram contra a vida de Reginaldo, foi quando o cargo de Juiz falou mais alto. As testemunhas estão sendo ouvidas, no entanto, só estou de suporte, não sei defender quem não seja honesto, sei que não posso ficar escolhendo meus casos, quanto mais eu me afasto para meu universo é bem melhor. - O cretino vai escapar, Claúdia. - Calma, Juiz! O Senhor não pode resolver tudo. - O filho da mentira, conseguiu coagir a testemunha principal, tem alguém daqui de dentro, passando informações. - Desconfia de alguém? - Estou averiguando. Obrigado, por perder seu sábado e me auxiliar. Saindo daqui vou pegar um voou e só volta na quarta, preciso de paz e está uma delícia esse pão. - Dona Fátima me mandou e então, trouxe. Sei que não come, quando o caso envolve vidas humanas. - Daqui umas duas horas já estaremos encerrando. Foi pior que imaginamos, tinha alguém da outra facção no meio do auditório e quando voltamos do intervalo, o cara sacou a arma e atirou em José Fernando Costa, vulgo o Nandinho. A mãe do réu acabou desmaiando ao ver o filho morto. Já estava anoitecendo quando saímos do fórum, foi necessário, a polícia técnica, fazer a pericia dentro do salão, dar entrevistas, nunca havia acontecido um caso desse na cidade. Romualdo decidiu ficar escondido em casa, cancelou a viagem, pois seria um tormento as especulações que certamente iria ouvir. Roger me levou até o estacionamento, junto com Romualdo, com essa situação, o juiz ficou inseguro em me deixar sair sozinha. - Boa noite, Cláudia. – Meu corpo arrepia. - Doutor, Lincoln! - Eu vi o que aconteceu pela Tv e como estava perto, passei para saber se precisa de alguma coisa. – Os olhos dele me transmite paz. - Boa noite, tem possibilidade de você levar a Cláudia? – O que o Juiz está fazendo? - Claro, meritíssimo. - Não me desobedeça, saia com ela pela rua, veja se não tem ninguém os seguindo. Roger vai levar seu carro e vai acompanhar vocês até quando, eu ter a certeza que está segura. – Arfo, mas não posso replicar. Fico totalmente sem jeito, tem uns quinze dias que o conheci e não obtivemos mais contato, somente a Siliane insiste em ser "amiga" mesmo eu não sendo tão simpática, até conheci o Picolé e realmente não emana perigo nenhum, e não estava usando drogas, como a Siliane pensava, alguém o ensinou a se comportar como um drogado, no momento o Valdmiro, vulgo Picolé, agora está aos cuidados da psicóloga Daniela Corona, especialista com adolescentes com Síndrome de Down. - Ele te trata como uma filha. Ele quebrou o silêncio que já se passava de mais de vinte minutos. - Acredito que seja mais cuidado com a assessora e agradeço o lado humano dele. - Você acha quem ajuda tem algum interesse? - Tenho meus motivos, doutor Lincoln. - Então, estou com interesse na senhorita? - O Roger já foi. – Mudo de assunto. - Vamos tomar uma água de coco? Meu corpo está arrepiado, minhas mãos frias, me sentindo uma i****a. Igual a vez que saiu o fuxico que eu tinha transando com o namorado da Rebeca e infelizmente eu que fiquei como a traidora, nem beijo na boca eu dei, só aquela treva que encostou em mim. - Está chorando Cláudia? - Eu sou uma boba... - Ei, calma! Respira! Não vou tocar em você, não se preocupe. - Esta é a questão do meu problema, Lincoln, não deixo ninguém se aproximar, sou desconfiada com tudo, não gosto de amizades, eu estou aqui porque fui praticamente forçada, mas já estaria nos lençóis da minha cama, lendo, assistindo só, era o que queria. - Eu já fui que nem você, mas não quero ser egoísta, em outro momento eu te conto, agora vamos ficar no silêncio, tomando água de coco. Ele sentou um pouco distante de mim e ficamos conversando com coisas aleatórias, o sorriso dele é inebriante, ele é bem alto e não fica insinuando situações desagradáveis, tipo você tem um corpão, seu cabelo isso ou aquilo e outras idiotices que nós mulheres negras, deveríamos dar um basta de tanta babaquice. Lincoln foi pegar outra água e parece que a dona da barraca, já o conhecia, quando o viu, fingiu um desmaio, ele disse que ia dar uma injeção, ela correu de perto dele e disse para o marido que Lincoln estava o assediando, todos deram risadas. O jeito que ela trata as pessoas me faz pensar na Tia Lidi e Vicente, eles têm esse cuidado com as pessoas e a Andreia. Por mais que eu tenha conhecido o lado r**m das pessoas, eu vejo ao meu redor que outros humanos evoluídos, possa fazer o bem. "Anselmo, volta aqui". Minhas carnes tremem, não consigo olhar para a direção da voz, só em ouvir esse nome, caio no mais profundo abismo, minha cabeça fica girando e percebo que Lincoln está se aproximando e a única coisa que resta é abraça-lo. Meus braços percorrem pela cintura dele e fecho meus olhos, o corpo treme... - Cláudia, o que está sentindo? Porque está tremendo desse jeito. Vou te levar para casa, tá bom? Não consegue andar, é isso. Está me assustando, terei que pegá-la no colo. - Lincoln, quer ajuda aí? - A dona quiosque pergunta. - Abra a porta do meu carro, vou carregar ela no colo. Ela começou a tremer e não sei o motivo. O cheiro do corpo dele é inebriante, no entanto, não consigo abrir a boca, meu corpo está em transe, a minha mente voltou ao passado, meus olhos estão em um só horizonte, meu medo se torna realidade, tristemente estou presa a tudo que vivi. Putz! Como ajudar essa moça? Lincoln minha PA ainda tá altíssima. ???‍♀️
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