O meu corpo não consegue mover, os pés e as mãos pesados, a boca com gosto de remédios e a cabeça enfaixada. Tento abrir os olhos e não consigo, pareço presa em uma cama, está tudo branco, uma luz forte, cheiro de éter, lembrei das aulas de químicas com a professora Helga.
Estou em um hospital.
Aspiro um perfume desconhecido, uma voz cantando alegremente, me dá bom dia e fala: "Acorda, moça linda! Deus tem uma nova vida a te entregar, abre os olhos e veja o pôr do sol". - Ela ri do que fala, mas não consigo ver e a voz continua: -"O nascer do sol é muito cedo, então, bom mesmo é vê-lo pondo". Pressinto uma paz.
Será que morri? Tem anjos ao meu redor? Estou presa por não ter ido à missa e fui castigada pela treva?
- Olá! - Essa voz não é desconhecida.
- Bom dia, Anselmo. Fico tão feliz quando dois irmãos são tão unidos. - A desconhecida fala.
- Nos amamos! Vou protegê-la sempre. – O arrepio de medo toma conta, eu quero morrer, não o deixa tocar em mim.
- Ela ainda não abriu os olhos, a queda foi feia, o impacto de como ela se jogou dentro do carro para o asfalto, a deixou muito machucada. A sorte é que na cabeça nada saiu do lugar, apesar da protuberância que se formou no do lado esquerdo da testa. Na verdade, agora está bem desinchado, então vamos orar e em breve irá acordar. – A desconhecida fala e sinto ela sair.
Suponho que a treva esteja se aproximando, não consigo e nem quero abrir os olhos. Espero que alguém volte logo e não me deixe só com esse doente, neandertal.
- Minha gostosa, eu estou aqui de novo e sonhando direto que tô metendo nessa b****a, por que só meus dedinhos sentiram o teu cheiro de p**a que tem em você. Papai está firme e dizendo a todos que você começou a se drogar e infelizmente surtou com ciúmes de mim e eu sempre falo que te perdoei e que te a amo. Como é fácil burlar as pessoas, elas são burras, não é? As mulheres podem esbravejar, dizer que foram molestadas assediadas, que a própria mulher a crítica. E o homem tem palavra, tem valor... então, você saindo desse sono profundo, aconselho a deixar eu te f***r porque ninguém mais irá se interessar por você.
Ao me jogar do carro, não queria me suicidar, muito menos me fazer de coitadinha… Eram tantas acusações, palavras de ofensas... e percebi que meu algoz alimentava o seu sarcasmo a cada segundo e todos aqueles elogios somente para Anselmo, enquanto, eu, filha do casal, era prontamente humilhada… Minha mente não suportou o peso das acusações, sem nexo, que a única alternativa era sair daquele inferno.
Por qual motivo apenas a treva está aqui? Cadê minha mãe? Será que se esqueceu de mim para agradar o marido? Quem era aquela mulher que em nenhum momento saiu em minha defesa? Éramos amigas, nunca discutimos, ela sempre foi parceira, única, nossas vidas tinham sintonias.
Nasci n***a. Há de quem dissesse que eu era filha da empregada. Lembro-me de um episódio na escola, em que uma criança, falou que meu cabelo fedia, dona Ceci, foi à escola e levou todos os cremes, xampus, condicionadores que tínhamos e perguntou quem queria lavar o cabelo… Nunca mais ninguém desfez de mim. Mas, e nesse momento, cadê essa mulher super protetora? Será que veio me visitar? Será que ainda sente minha falta? Vamos fazer o dia das meninas que marcávamos com a Helen e passávamos o dia todo no salão? – Esse sentimento de pesar, angústia, dilacera a minha alma e tudo que eu achava que era amor, contradiz o que seria ao meu ver o verdadeiro significado do Amor Materno.
Sinto ânsia do que ele fala, não queria escutá-lo. No entanto fico incrédula ao relatar que é o único da casa que vem me ver. Uma dor descomunal me invade, e sinto que fui abandonada pelos meus pais.
- Com licença.
Quem é? O cheiro tá diferente da outra que estava aqui.
- É você a enfermeira do banho, eu preciso sair né? Então já vou! Vou contar ao Papai que ela ainda está dormindo. Tchau! Maninha, eu a amo muito e lá casa estamos em oração constante pela sua saúde.
Que nojo! Ele saiu e o meu coração descansa. A moça, fala algo que não entendo e move a cama, sinto meu corpo ficar inclinado, ouço ela dizer que vai dar trabalho lavar tanto cabelo... o coração acelera, a boca seca com gosto de ferro, quero beber água e antes de abrir os olhos falo:
- Á- gu- a.
A enfermeira apertou um botão e em uns três minutos apareceram dois médicos e mais duas moças, com a cor do jaleco diferente, suponho que sejam técnicas em enfermagem. Ambas muito simpáticas e me deram boas-vindas. Me senti até desconfortável, os estranhos me desejando o bem. Os médicos ali presentes me mexiam, examinavam, analisaram cada parte do meu corpo. Tiraram a faixa, perguntaram sobre algum incômodo em alguma parte do corpo. Eu respirei e inspirei, umas cinco vezes. Entrou um psicólogo - estava no jaleco estampado dele com cores vivas - perguntando se eu queria falar algo.
- Eu quero comer. - Todos riram.
- Senhorita Cláudia, - O médico com a cara do Marcello Antony - até o momento não encontramos nada fora do lugar, no máximo irá fazer fisioterapia, para estabilizar a perna esquerda, que foi mais atingida. Só uma pergunta… no momento da queda, o carro estava em alta velocidade?
- Creio que estava entre sessenta ou oitenta quilômetros por hora.
O médico pediu que me ajudassem com um banho, mas antes comi um pedaço de mamão que havia chegado com o café na bandeja. Pegaram minha bolsa, no armário, deve ter sido minha mãe que arrumou, tinha tudo que eu precisava. As duas moças técnicas, consegui ler o crachá, me fez sentar em uma cadeira debaixo do chuveiro e eu ali, em silêncio, chorava toda a minha dor quando identifiquei o mesmo aroma, que estava no quarto, antes da treva chegar.
- Menina linda você acordou. Deixa, Nita e Beca, vão para o berçário, eu cuido dessa linda. Eu tenho uma filha que nem você, com essa coroa de cachos, fica invejada, pelo meu cabelo ser tão ralo e fino, nem usando bobs dá certo. (Risos). Eu esqueci que os jovens de hoje não sabem o que seja bobs.
Que paz essa senhora me trouxe, dei risada do jeito que ela falava, parecia ser um anjo, em prol de mostrar o outro lado que a vida tem.
Duas horas mais tarde que acordei, tive a visita do meu pai. O olhar dele era indecifrável. Só me disse que quer ter paz em casa e que era para eu me comportar.
Sou uma i****a, não me defendi, não esbravejei, calei-me diante do pedido do meu genitor. Eu sou a escória, eu sou um erro.
O médico me liberou vinte e quatro horas depois. Estava indo para o sacrossanto lar, e, quando estava saindo do hospital, encontrei Rebeca e Tia Lidi, me ofereceram a casa delas, caso eu precisasse. Fico comparando que, mesmos com os erros cometido por Rebeca, a mãe dela estava ao seu favor, enquanto a minha… chorei, implorei, fui agredida, humilhada, tachada como louca, somente para ser ouvida.
Adentramos em casa e ninguém disse "seja bem-vinda", "que bom que esteja bem". Eu realmente estou em uma família desconhecida.
E nada de minha mãe se aproximar, malmente me olhava, falava ao necessário. Eu queria um afago, um carinho. Será que sou adotada? Estou lutando há dias com vozes que ficam me rodeando, com intuito de me culpar pelo que aconteceu, desde que começou essa guerra dentro de mim. Os quinze dias de coma induzido no hospital foram necessários para que a minha mente pudesse descansar. Ouvi minha mãe, comentando com Helen, nossa cabeleireira, que eu acordava gritando em estado de loucura. O tratamento era visto como um surto psicótico acometido por ciúmes fraternal e desencadeou todo esse martírio psicológico.
O i****a não estava aqui e já havia passado uma semana da minha chegada, entretanto minha rotina mudou. Três vezes por semana estou fazendo fisioterapia por causa da luxação da perna. Tive sorte quando me joguei; eu não queria morrer, foi uma tentativa de fuga com tanta acusação.
Nessa terceira semana de fisioterapia estou sentindo minha perna melhor. Um paciente que mora perto de casa me trouxe até a porta de casa, agradeci com sorris. Ao me virar, meus dias de paz terminaram, aquele ser asqueroso estava em minha frente… deu um sorriso largo e feliz. Minha alma saiu do corpo, se curvou como se fosse um servo das histórias que têm reis e rainhas. Naquele momento, minhas pernas raízaram-se de novo. Allguém me tira daqui!
- O seu irmão é um homem honrado, Claúdia. – Lá vem a ladainha - Ele estava indo ver você no hospital. Eu e sua mãe fizemos encontros dos grupos de orações, foram revelados, que suas amizades estão te jogando no poço e seu irmão, com o amor fraternal, - Eu senti vontade de vomitar. - me implorou para não a abandonar nesse momento e, mais ainda, para quando mudar de cidade, pediu-me para vender o terreno que eu dei de presente para ele, perto da praia, e dar o valor para você. Inclusive já depositei na sua conta… E ele o irmão que você não ama, Cláudia...
- Meu pai, eu já perdoei Cacau. Vamos aproveitar que estamos reunidos, em nome de Deus e nos dar a segunda chance. Qual irmão que não briga? Olha você e o Tio Olavo que estão se reaproximando agora...
Que cena de horror que estou vivendo. Está claramente exposto que eu me tornei o erro na vida dos meus pais. E meu genitor continuou com a amabilidade...
- Fico feliz que esteja tão firme e fiel ao seu perdão com sua irmã, mas ela tem que entender que ninguém aqui dentro dessa casa é inimigo dela. Seu irmão exigiu que eu fizesse esse depósito para não se sentir desamparada quando estiver morando fora.
Estou incrédula de tudo que ouvi, minha mãe ficou estática, desde que cheguei nesses dez dias, no máximo ouço ela falar: "vem almoçar", "tem sobremesa", mas aquele amor de antes, parece que nunca existiu.
Esses dias meu pai está em casa, fazendo uma reforma e o cretino não se aproximou de mim, agradeço aos anjos e espero que essa reforma demore. Arrumei meu quarto, fiz o deslocamento da Universidade, mas não comentei. Sinto tremores no corpo só de imaginar Anselmo indo atrás de mim, o olhar dele ainda me apavora.
Estou estendendo roupas, quando sentir a treva tocando… Não adiantava gritar, se ele se aproximou assim é porque não tinha ninguém em casa. Chupou meus s***s e alisou a imundície dele entre minhas pernas.
- Pena! Que tá no ciclo, não gosto de galinha ao molho pardo.
O cretino ainda quer se engraçado, ouvimos o carro chegar e ele sai correndo e pula pelo muro, meu corpo me enoja e as lágrimas saem seca.
- Claúdia! - Meu genitor me chamou.
- Estou no quintal.
- Se arrume. Tá na hora de levá-la para a fisioterapia.
Saí com meu Pai e fomos para o Prédio Santa Clara, no segundo andar é somente salas de fisioterapia, mas como havia acontecido um incêndio no sexto andar, não foi possível ser atendida. Meu Pai precisava ver algo na igreja , pediu que eu chamasse um aplicativo de carro e pediu, de novo, a tal sonhada paz.
Meus olhos lacrimejaram, ele não me ver mais como filha e sim a causadora de problemas.
Mesmo com toda agitação, por causa do Prédio, peguei um Uber e voltei para casa, recebi uma mensagem de Rebeca. Acho graça da forma que ela fala. Infelizmente, por causa de um assunto m*l resolvido, não somos amigas, mas nesse momento é a única que confia em mim.
Entro em casa e não vejo minha mãe na cozinha e parece que a treva também não.
Subo as escadas e começo ouvir um som abafado, gemidos contidos e imagino que a treva esteja com alguma amiguinha, só assim vai me esquecer.
- Vai, Ceci chupa teu macho, bebe meu leitinho, que daqui a pouco quando comer seu cu, eu vou pensar nela, Ceci, ela tem um cu virgem e o seu tá arrombado, isso aprendeu chupar, vagabunda, nunca te ensinaram, né?! Eu sou homem, eu sei dar prazer para qualquer mulher. Olha essa b****a, escorrendo... Eu sou teu macho! Bebe, não deixa nada cair, Ceci, gostosa. Vira essa b***a, seu cu vai ficar arrombado!
- Me fode c*****o, me faz tua, pensa no meu cu virgem como a nossa primeira vez… Dois anos atrás, no aniversário do seu pai, dei sonífero pra ele dormir e te se ensinei a ser homem, comecei a chupar seu c****e e você nem acreditou no que estava acontecendo.
- Aiii, vagabunda, meu c****e tá duro! Amo f***r seu cu, minha dona. p***a!!! A gente fodeu dentro do quarto com papai na cama, a gente metendo gostoso e o corno dormindo.
Meu corpo paralisou, minhas pernas tremem, entro em uma briga comigo, para não acreditar no que ouvi. Como é que pode acontecer isso? Estou imóvel, sem reação, eu grito, vou para meu quarto, tento ligar para o Papai, dá caixa. Vou filmar, vou gravar, eu preciso mostrar para Papai o que está acontecendo aqui e ele não imagina. Meu Deus! meu Pai sendo enganado pelo filho e pela esposa que tanto ele ama, ele venera essa mulher... - Meu celular cai...
- Cacau, não deveria estar na fisioterapia? – Ela chega na porta de roupão e Anselmo chega depois e pega meu celular.
- Seus monstros, seus filhos do demônio! A senhora não ama meu Pai, não ama ninguém. És louca, sua doente, ninfomaníaca!!!
- Me respeita, sua p**a, sou sua mãe! - ele defere um tapa na minha face.
- Agora é minha mãe?
- Você sabe o que for falar com o Papai ele nunca vai acreditar. Aqui, nessa família, você não tem credibilidade, minha meia irmã. Seu celular agora é meu e não adianta gritar...
- Dê o celular, meu amor, ela não vai falar nada porque o pai sabe que a vagabunda, drogada e c****a aqui é ela!
Eu estou em choque, perplexa, desamparada pela vida, pela minha genitora, ela é falsa, sem amor. Oque posso fazer? Agora penso no meu Pai, que sempre fez todos os caprichos dela... A nossa casa é a melhor do bairro, muito bem projetada, jardim de inverno, os quartos todos com a ar condicionado, a cozinha é igual da Ana Maria Braga, ela tem uma vida de rainha...- O inútil começa a falar.
- Olha, Cláudia, tudo estava ocorrendo bem, não tinha problema eu e Ceci continuar nos encontrando as escondidas, no entanto, por vacilo meu, papai começou a desconfiar. A ideia de sua mãe em tentar te seduzir para desfocar a atenção de papai, foi batata! Acredita que ela mandou te seduzir??? A princípio achei um exagero e sem necessidade, pois eu te enxergo como uma criança e minha dona sabe disso.
Eles se beijam em minha frente e as mãos dele, aperta a i********e dela.
- Eu fiz o quê para senhora mudar comigo? Sempre te dei orgulho, nunca tirei uma nota baixa, fiz tudo para agrada-la, porque eu achava que me amava...- Ela me corta.
- Deixa de drama, Cláudia. Nem virgem você é mais! Anselmo aceitou assusta-la, porque seu Pai estava desconfiando. Pedi em oração uma solução pra Deus e você foi nossa cobaia.
- Cala a boca! Eu sinto noooojo de vocês! Noooojo!!! Como poderia me por em uma situação psicologicamente perturbadora como essa? A senhora não pensou em mim e sim na p***a do seu prazer, fazendo meu pai de corno e eu de louca da família. E que Deus é esse que põe a mãe contra filha? De onde abstraiu essa informação, sua doente? É uma doente e precisa de tratamento!
- Me agradeça, menina. Eu te dei a vida e olha que nem queria ser Mãe, mas seu Pai era louco em ter uma menina e Deus concedeu. E a suporto por causa dele, agradeça seu Pai sempre, eu só fiz o papel da Mãe que ele queria. Ter outra mulher dentro de casa dá nisso: dividir atenção de todos. Não suporto essa ideia, mas você se passou de ofendida e se jogou daquele carro, tive que suportar seu pai chorando noites e preocupado com você, convenci o Padre Odilon falar para seu pai que a presença dele iria perturbar seu tratamento e combinei com Sel, junto ao Emanoel que ele fosse responsável para nos trazer notícias suas.
O âmago da vida me surpreendeu, mais uma vez, minha vida é pré-selecionada por minha mãe, obter os luxos, lucros e tudo que almejar. Vim ao mundo para satisfazer os caprichos de dona Cecília, que ousou dizer que uma oração para Deus, a incentivou a me destruir. É demoníaco, sujo, sórdido...
Vou para meu quarto com as lágrimas molhando a roupa, liguei para Rebeca, perguntei se ainda o convite está de pé. Ela não perguntou o motivo, falou para Tia Lidi que disse bem alto:
- Venha, filha!
Agora vou para uma casa, de desconhecidos que estão me acolhendo sem cobranças, sem interrogatório, sem julgamentos.
No entanto, quem me deveria me amar, me odeia.
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