Gael
— Você está aqui de novo? — pergunto, vendo como seus olhos se tornam ansiosos assim que percebe que acordei. Antes disso, parecia muito cuidadosa em seu trabalho de me limpar.
— Sei que não gosta da minha presença, mas suporte isso, pela sua avó — diz. Não se incomoda com o fato de minhas palavras não soarem agradáveis para ela; apenas se preocupa com o que minha avó sente, e não entendo por que pode se importar tanto com os sentimentos dela.
Isso me faz pensar no que minha avó pode ter lhe oferecido para que seja tão “devota” a qualquer tarefa que ela solicite. Ficou dias sem me ver depois que eu lhe disse para se manter longe, mas, após ser mandada para cá por ela, se comporta como um cachorrinho domado.
E eu odeio que seja desse modo. Não tem uma opinião própria? Não pode me dizer que não quer que eu fale dessa forma?
“Abra a boca e faça um pedido como uma pessoa normal”, é o que quero dizer a ela.
— Não tenho que aguentar nada só porque ela pediu para que seja boazinha comigo — profiro. No entanto, meu tom mais grosseiro não muda o modo como sua mão passeia por minha testa para verificar minha temperatura.
— Não estou sendo boazinha porque sua avó me fez um pedido. Deveria pensar melhor antes de dizer o que quer — responde. Nestes momentos em que me encara assim, percebo um brilho maior em seus olhos, porque, geralmente, não há nada que os faça brilhar, como uma estrela prestes a se apagar.
— Por que eu teria? A pessoa invadindo meu espaço é você — provoco, instigando-a com o olhar. Não é possível que eu não possa fazer mais do que soltar algumas palavras.
O que a acorrenta com tanta ferocidade?
Algo tem que movê-la. Então, por que não trocarmos nosso ódio como se fosse o motor de um carro que precisa se manter na estrada? Pelo visto, pode ser a única maneira de obrigá-la a me enfrentar.
— Devemos nos divorciar — digo, tentando usar um tom mais leve. Apesar de todos os sentimentos conflituosos que experimento quando está por perto, não quero ser um monstro que ultrapassa os limites.
— Não vamos. Não por pelo menos um ano. É o que está escrito no contrato, que certamente você leu. — Solto um suspiro irritado por ela se focar nisso. Gostaria de saber por que minha avó colocaria uma cláusula que impede o divórcio no primeiro ano de casamento.
Acha que qualquer coisa pode mudar em um ano? Porque, diante de mim, está claramente alguém que não tem interesse em modificar nada, nem mesmo a escuridão que reside em seus olhos.
— Por que motivo você iria querer se manter agarrada a mim por um ano? — pergunto, pois, em seu lugar, eu correria para qualquer lugar, mas me manteria longe. Não sou uma pessoa com a qual ela deveria gastar seus dias.
Não serei a pessoa que impedirá a escuridão de adentrar seus olhos.
— Quem sabe eu goste de ver o quanto você pode ser ignorante — comenta. No entanto, o que era para soar como algo debochado sai estranho por seus lábios, pois, em um segundo, percebe que pode estar cometendo um erro e que isso lhe custará caro.
Mas eu não a criticaria por me chamar de babaca, porque eu sou um. Esse é mais um motivo pelo qual não podemos ficar por perto. Eu não poderei cuidar dela, de nenhuma maneira.
Não importa o que minha avó pense que pode mudar. Eu sei que não sou alguém que vai se modificar. Me conheço, sei os meus defeitos. Mesmo que ela gritasse repetidamente por socorro, eu não poderia ser a pessoa a ajudá-la.
— Ninguém vai te crucificar por falar a verdade — digo, e me recrimino em seguida.
Por que eu falaria algo assim? Não é da minha conta se ela não pode agir com sinceridade. Não há por que lhe dar conselhos. Ela não é sequer uma pessoa que deveria estar em minha vida.
Evitá-la ao máximo é o melhor que posso fazer por nós dois.
— Você pode afirmar isso com toda a certeza? — questiona, novamente interrompendo suas palavras ao perceber que as expressou em voz alta.
Começa a se afastar da cama, mas, por um instante, não percebo que foi porque segurei seu braço. O ato não dura sequer dois segundos, pois, no instante em que o terror passa por seus olhos, eu a solto automaticamente.
Mas isso não faz com que seus sentimentos se dispersem. Ela me encara, agarra o lugar onde foi tocada e se afasta, saindo do cômodo sem olhar para trás.
Eu acabei de me tornar o monstro em sua janela?