Prólogo. Não chore mais - Parte 2

1342 Words
Carolina — No que está pensando com esses olhos de peixe morto? — pergunta ao se aproximar, pondo uma mão sobre minha nuca e apertando forte no local onde se acostumou a me machucar. Quer que eu saiba que não posso sair de suas garras. Ele está me dizendo que, se eu me mexer sem pensar demais, vai acabar me surrando de novo, para que eu não saia do lugar. Teriam que me carregar assim como na primeira vez em que tentei fugir. — Em como as pessoas enxergam somente a verdade que querem ver — digo. Ele sorri de um jeito estranho. Não é uma expressão apropriada para um velório, mas Thiago nunca se importou com meus pais ou comigo. Sou apenas o cachorro que ele consegue manter na coleira. Enquanto puder ter seus dedos se entranhando em mim, manterá esse sorriso no rosto. Ele sabe que eu não tenho a quem recorrer, que a única pessoa que poderia me ajudar agora está em um caixão, esfriando, enquanto choramos por sua perda. — Não pense muito nisso. Por que eles olhariam para você? A estrela aqui hoje é o seu pai — diz sem se importar com o quanto suas palavras me incomodam. Ele não liga, porque minha dor apenas o faz mais feliz. — Você não vai continuar sorrindo assim para sempre, Thiago. Alguém vai arrancar sua cabeça um dia — digo, e em meus pensamentos ecoa o desejo de que seja eu. Quero que ele sinta toda a dor que me causou. — Acha mesmo? Se preocupa comigo, querida? — Sua voz soa como uma ameaça, mesmo que o tom seja leve. Um arrepio percorre todo o meu corpo. Quero me afastar, mas sei que isso atrairia a atenção das pessoas. Se eu for a causa de qualquer especulação, ele descontará sua raiva em mim da melhor maneira que conhece: com os punhos. — Quero ver minha mãe — digo, usando o tom mais firme que consigo. Meus olhos secaram. Não há lágrimas quando ele está por perto, porque o ódio que sinto consome todas elas, uma a uma, até que o rio seque e fique escuro como meu coração. — Sua mãe não tem estado bem desde que seu papai morreu. Tudo o que tem feito desde que acordou e descobriu que não foi um sonho é beber — fala com um sorriso demoníaco no canto da boca. Não posso acreditar que ele realmente está sorrindo nesse momento. — Não sabia que sua mãe era alcoólatra. — Não fale assim da minha mãe — peço, sentindo seus dedos apertando minha carne. Ele considerou que meu tom se elevou mais do que deveria para a ocasião. “Seja como um cachorro que apenas abana o r**o, Carolina. Não vê que o demônio na sua frente não vai tirar as garras de você? Você é o brinquedo dele.” Penso com desgosto. — O que posso fazer quando os genes da sua família são tão ruins? — “Como ele se atreve?” Me pergunto, sentindo meus olhos queimarem de novo. Mas a falta de lágrimas não me permite chorar. — Continue fazendo seu papel de filha enlutada antes que as pessoas comentem. Não estou fingindo. Como ele pode falar desse jeito? — Se agir direitinho, posso deixar que veja sua mãe — sussurra em meu ouvido, descendo a mão para minha cintura e me abraçando. Sibila um monte de porcarias que ignoro. Tudo o que importa é que poderei ver minha mãe. Mas, como ele disse, ela se perdeu na dor. A encontrei na cozinha, agarrada a uma garrafa de bebida, já apagada pela quantidade de álcool consumida. Thiago sorriu enquanto eu tentava ajudá-la. Gostou de me ver implorando para que se levantasse e fosse para um lugar mais tranquilo. Todos falam sobre o dia de hoje, mas só se importam com o fato de que a viúva não compareceu ao enterro, tomada pela dor. Por isso, ele se sentiu satisfeito o bastante para me deixar vê-la. E eu achei que poderia ser minha oportunidade de contar a alguém que não estou bem. Mas, com ela nesse estado, seria impossível. Apenas pioraria sua dor. E eu não posso aumentar seu fardo, porque o demônio que me acorrenta não permitiria que eu ficasse ao lado dela por muito tempo. Consegui, com dificuldade, levá-la de volta para o quarto. Limpei seu corpo e implorei para que não se entregasse dessa forma. Meu pai odiaria vê-la assim. Mas sei que não posso controlar isso. Ninguém comanda o coração. E, agora, tudo o que ela tem é sua dor, porque até sua filha foi tomada de suas mãos e jogada num canto inalcançável. Me sento ao seu lado na cama, apertando minhas mãos nas dela. Gostaria de dizer que tudo vai ficar bem, que as coisas vão melhorar. Mas, no momento, não sou capaz nem de salvar minha própria vida. Como impediria que ela se machucasse também? — Já teve o seu momento, não é? — pergunta, olhando para mim como se eu estivesse passando do ponto, ultrapassando suas regras. — Agora preciso que a deixe aí e tenha uma conversa comigo. Não gosto quando menciona uma conversa, porque elas nunca terminam bem para mim. Mas não posso simplesmente fugir. A única opção seria me jogar pela janela, e, embora a ideia pareça cada vez mais tentadora, não posso deixar minha mãe nesse estado. — Vamos, não me deixe esperando — ordena, impaciente. Inclino-me para deixar um beijo leve na testa da minha mãe, esperando que, de alguma forma, ela sinta minha presença. — Estou indo — respondo, seguindo-o. Não me surpreende vê-lo caminhar em direção ao escritório do meu pai. Sempre disse que negócios devem ser resolvidos em um ambiente controlado. Talvez seja por isso que goste tanto de garantir que o controle esteja sempre em suas mãos — através de surras. Ele se senta na cadeira onde meu pai costumava beber chá antes de se perder no trabalho até a cabeça latejar. Posso visualizar meu pai ali, mas a imagem se desfaz com a voz de Thiago chamando minha atenção. — Lembra que o acidente do seu pai envolveu outra pessoa? — pergunta. Meneio a cabeça em resposta. Ele não me mandou sentar, então permaneço onde estou, imóvel, para evitar uma punição. — Além de quase f***r com a minha vida, esse homem também nos colocou em um problema enorme — diz, irritado, como se uma pessoa morta ainda pudesse atrapalhar seus planos. — O que quer dizer? — pergunto. Afinal, foi comprovado que tudo não passou de um acidente. A polícia concluiu que houve uma falha mecânica, algo que meu pai não pôde evitar. Thiago sorri de um jeito ganancioso antes de responder: — O cara que o seu pai quase matou vem de uma família muito influente. Ele era o único herdeiro, e agora está em coma. Você não tem ideia de como eles estão irritados. — Foi um acidente. Eu entendo a dor deles, mas... — Se atreve a falar quando eu não permiti? — sua voz gélida congela minhas entranhas. Engulo em seco. — Não importa o que você acha — continua. — Eles não estão felizes e querem que alguém pague pelo que aconteceu. Meu coração aperta. — Como assim, pagar? Meu pai está morto. O que mais poderia ser feito? — Minha voz quase falha. As lágrimas ameaçam cair, mas sei que se eu chorar, ele me baterá de novo. — Sim, seu pai não pode pagar, então você irá cumprir todos os desejos deles, Carolina. Afinal, é uma Herrera — diz, abrindo um sorriso triunfante, como se estivesse terminando de selar meu destino. Nesse instante, percebo que ele já fez todos os acordos necessários. Minha única escolha é aceitar em silêncio. Caso contrário, antes mesmo de cair nas mãos dessas pessoas, serei torturada pelas dele. Talvez eu devesse ter escolhido a janela. — Vamos iniciar nosso processo de divórcio — anuncia. Mas não posso me alegrar. Não estou recebendo minha liberdade. Apenas novas correntes.
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