A semana seguinte às "lições" foi um turbilhão de descobertas para Yona. Seu corpo e sua mente, antes campos minados de receio, agora floresciam sob a atenção implacável de Caleb e Seth. A oficina se tornou seu santuário, e o som da chave batendo na porta de aço ao fim do dia era o anúncio de mais uma noite de paixão e de um amor que desafiava todas as convenções. Ela aprendeu a navegar entre a possessividade protetora de Caleb e a intensidade ardente de Seth, e em cada toque, cada suspiro, encontrava um pedaço de si que nem sabia estar perdido.
Mas a paz da oficina era frágil, como vidro temperado. A sombra que Yona temia espreitava, e o destino, com sua ironia c***l, escolheu o pior momento para lançá-la sobre eles.
Era uma terça-feira chuvosa. Caleb estava debaixo de um Impala 67, sujo de graxa, enquanto Seth polia o capô de uma picape Ford F-100, assobiando uma melodia despreocupada. Yona, vestindo um moletom oversized de Caleb que a engolia, estava no pequeno escritório improvisado, tentando organizar alguns pedidos de peças, um sorriso nos lábios enquanto ouvia a conversa dos irmãos.
De repente, o ranger dos pneus molhados na rua chamou a atenção dos três. Um carro de luxo preto, reluzente e deslocado naquele bairro industrial, parou bruscamente em frente à oficina.
— Clientes novos? — Yona murmurou, franzindo a testa. O carro exalava uma aura de prepotência que a fez encolher.
Caleb escorregou para fora de debaixo do carro, com uma chave de roda na mão, seus olhos negros fixos no veículo. Seth parou de polir, o pano em suas mãos subitamente tenso. Eles sentiram a mudança no ar, um calafrio que não tinha a ver com o clima.
A porta do motorista se abriu, e um homem alto, impecavelmente vestido em um terno sob medida, saiu. Tinha cabelos bem penteados, um sorriso calculista e um olhar que Yona reconheceria em qualquer escuridão. Alfredo deu um passo à frente, ajustando os punhos da camisa com uma calma que enojava... o Coração de Yona despencou para o estômago.
— Yona, querida... — a voz de Alfredo era um veneno doce. — Você sempre teve esse hábito de se esconder em buracos imundos. Pensei que o contrato estivesse claro.
Caleb e Seth se posicionaram à frente de Yona, mas não como quem guarda um objeto valioso, e sim como quem protege o coração de um lar. Caleb tinha a chave de f***a pesada em mãos, mas seu olhar era de uma raiva fria e analítica. Seth, por outro lado, parecia uma mola tensionada, pronto para o bote.
Yona saiu de trás de Caleb, os ombros subindo até as orelhas, o corpo tremendo tanto que o barulho dos seus dentes batendo era audível no silêncio tenso.
— Não existe... não existe contrato — ela sussurrou, a voz saindo em um fio quebrado. — Eu não sou... um pagamento.
Alfredo riu, um som seco que não atingia os olhos. Ele olhou para os irmãos Guedes com um desdém aristocrático.
— Vocês dois parecem homens práticos. Devem entender de transações. A mãe da Yona, a "estimada" Helena, era a vigarista mais habilidosa que já cruzou o meu caminho. Mas até os melhores blefam na hora errada. Ela acumulou dívidas que nem dez vidas de trabalho honesto pagariam.
Yona soltou um soluço sufocado, cobrindo a boca com as mãos manchadas de uma graxa que ela agora via como seu único batismo de liberdade.
— Ela... — Yona começou, as palavras saindo trêmulas e úmidas. — Ela assinou os papéis enquanto eu ainda chorava a morte do meu pai. Ela me deu para você como se eu fosse um relógio de ouro empenhado para pagar uma dívida.
Alfredo deu um passo à frente, mas parou quando Caleb ergueu o queixo, uma barreira de músculos e determinação.
— Ela não é uma moeda de troca — Caleb disse, a voz num tom baixo que vibrava no concreto. — O que quer que a mãe dela tenha feito, Yona não é uma moeda de troca, ela é livre para escolher seu caminho.
— Yona... — Seth chamou, a voz suave contrastando com a violência da situação. — Olhe para mim. Esse homem... esse contrato de papel... ele não tem poder sobre quem você escolhe ser. Você fugiu porque sabia que o seu valor não tem preço.
— Eu tive tanto medo... — Yona confessou, olhando para os irmãos com os olhos inundados. — Tive medo de que, se vocês soubessem que eu fui "vendida", me vissem da mesma forma. Como algo que se pode comprar ou descartar.
Caleb virou-se ligeiramente para ela, sua expressão suavizando-se em uma promessa de lealdade.
— Nós não somos o Alfredo, Yona. Nós consertamos máquinas, mas sabemos que pessoas não são peças que se trocam. Você está aqui porque quis. E, enquanto quiser ficar, o aço desta oficina vai se dobrar antes que qualquer um encoste em você.
— Vocês estão se metendo com a pessoa errada — Alfredo ameaçou — Helena assinou. O nome dela está no papel me dando Yona como garantia.
— "Direito"? — Seth riu, um som seco. — Você não entende, não é? Nós não estamos aqui porque achamos que ela nos pertence, seu verme. Estamos aqui porque ela escolheu esse lugar. E aqui, contratos de gente como você servem apenas para limpar a graxa do chão.
Alfredo percebeu que a dinâmica ali era inquebrável. Ele não estava enfrentando apenas dois mecânicos; estava enfrentando uma muralha de devoção voluntária.
— Vocês vão se arrepender disso — Alfredo ameaçou, recuando para a chuva. — Isso ainda não acabou, Yona será minha e usarei ela de todas as formas.
O carro partiu, deixando apenas o rastro dos pneus na lama. Yona desabou, mas desta vez, Caleb e Seth a ampararam juntos, não como donos, mas como o solo firme que ela nunca teve.
Caleb virou-se parcialmente para ela. Seus olhos pretos, antes tão focados na ameaça, agora suavizaram-se em uma promessa de lealdade.
— Yona... — Ele estendeu a mão, mas não a tocou, respeitando o espaço dela. — Sua mãe pode ter tentado vender sua vida, mas ela não era a dona da sua alma. Você não é uma dívida a ser paga. Você é a mulher que entrou por aquela porta e nos deu um motivo para proteger algo além de ferro e motor.
Seth inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dela para que apenas ela ouvisse:
— O aço e o ímã não se prendem por contrato, pequena. Eles se prendem por natureza. Se você quiser ir, a porta está aberta. Mas se quiser ficar, ninguém — absolutamente ninguém — vai encostar um dedo em você enquanto houver fôlego em nossos pulmões.