O Imã e o Aço

698 Words
CALEB O calor de agosto na oficina estava insuportável, mas não era o clima que estava me deixando inquieto. Era o silêncio de Seth. Meu irmão raramente ficava em silêncio, a menos que estivesse focado em algo que realmente valesse a pena. Eu estava debaixo do chassi de um Mustang 69, com as mãos manchadas de graxa e o suor escorrendo pelas têmporas, quando a vi pela primeira vez. Ela parou na entrada da garagem, a silhueta recortada contra a luz forte do sol que vinha da rua. — Com licença... — a voz dela era suave, mas cortou o barulho do rádio velho como uma navalha em seda. — Disseram que aqui talvez tivessem uma peça para o meu projetor antigo. Saí debaixo do carro, limpando as mãos em um pano imundo, e congelei. Ela era jovem — dezoito anos, eu estimaria —, mas havia uma pureza nela que parecia deslocada naquele ambiente cheio de óleo e metal bruto. O nome dela, descobri segundos depois, era Yona. Olhei para o lado e vi Seth. Ele estava encostado na bancada de ferramentas, com um cigarro apagado entre os lábios, paralisado. Meus olhos encontraram os dele por um breve segundo. Havia um entendimento silencioso ali, algo que compartilhávamos desde a infância: quando algo nos fascinava, nós dois mergulhávamos de cabeça. E Yona era o abismo mais bonito que já tínhamos visto. — Um projetor, hein? — Seth deu um passo à frente, com aquele sorriso de lado que ele usava para desarmar qualquer um. — Você veio ao lugar certo, boneca. Mas peças de museu exigem mãos delicadas. Yona corou instantaneamente. O tom rosado subindo pelo pescoço dela até as maçãs do rosto foi a coisa mais hipnotizante que presenciei em anos. Ela apertou a alça da bolsa contra o corpo, visivelmente intimidada, mas curiosa. — Eu... eu posso pagar. Só não quero que ele estrague. É uma lembrança de família — ela explicou, os olhos castanhos saltando entre mim e Seth. Eu me aproximei, ficando propositalmente mais perto do que o necessário. O cheiro dela era de baunilha e algo floral, um contraste violento com o cheiro de gasolina que impregnava meus pulmões. — Não se preocupe com o dinheiro agora — eu disse, minha voz saindo mais grossa do que eu planejava. — Vamos dar uma olhada. Seth, pegue o kit de precisão. Enquanto ela colocava o aparelho sobre a mesa, notei como as mãos dela tremiam levemente. Ela sentia a nossa pressão. Éramos dois homens feitos, maiores que ela, cercando seu espaço pessoal. Eu conseguia sentir a respiração de Seth ao meu lado, pesada, no mesmo ritmo que a minha. Havia um magnetismo ali. Yona era o imã, e nós éramos o aço sendo arrastado para o centro. Eu vi Seth observar o movimento dos lábios dela enquanto ela falava, e eu mesmo não conseguia desviar o olhar da curva do seu pescoço. Ela era intocada. Dava para sentir isso na forma como ela recuava quando nossos dedos quase se tocavam sobre o projetor. Uma virgindade que não era apenas física, mas uma aura de quem ainda não conhecia o peso do desejo de um homem — muito menos de dois. — Volte amanhã no final da tarde — Seth disse, a voz num tom baixo, quase um segredo. — Estará pronto. E talvez a gente possa te mostrar como operar... cada detalhe dele. Yona assentiu, soltando um suspiro que pareceu um convite involuntário. Ela se despediu e saiu, mas o rastro do seu perfume ficou na oficina, tornando o ar mais denso. Seth se virou para mim, o sorriso sumindo, dando lugar a uma expressão de intensidade pura. — Você sentiu isso, Caleb? — Senti — respondi, voltando para o Mustang, mas sabendo que não conseguiria me concentrar em mais nada. — Ela é perigosa. — Não — Seth corrigiu, pegando a peça do projetor com uma reverência estranha. — Ela é o que a gente estava esperando. E eu não pretendo deixar ela ir embora tão cedo. Naquela noite, eu soube que as coisas mudariam. Yona não sabia, mas já tinha entrado em um jogo onde as regras seriam ditadas por nós dois.
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