O silêncio que se seguiu àquela noite de entrega não era apenas de exaustão, mas de uma curiosidade latente. A sombra de Alfredo havia deixado perguntas que o prazer não podia calar. Alguns dias depois, enquanto a poeira dançava sob a luz da oficina. Yona trouxe uma pequena caixa de madeira para a bancada central da oficina.
Seth aproximou-se, secando as mãos em um pano, o olhar fixo nos papéis amarelados que Yona retirava do fundo falso da caixa. Entre eles, uma foto que não estava no projetor: Helena, a mãe de Yona, jovem e radiante, rindo entre dois homens de ombros largos e mãos sujas de graxa — o pai e o tio dos irmãos Guedes.
Yona sentiu o estômago revirar enquanto lia as entrelinhas de uma correspondência nunca enviada. As palavras de Helena eram carregadas de uma paixão crua, quase doentia.
— Ela não veio para cá por acaso — sussurrou Yona, a voz falhando enquanto as lágrimas começavam a brotar. — Olhem isso... ela escreve sobre como o prazer que sentia com eles era a única coisa que a fazia se sentir viva. Mais do que a maternidade. Mais do que eu. Seth pegou uma das cartas, seus olhos escaneando as linhas rápidas.
— Ela era viciada em jogo, mas o vício real dela era esse... essa intensidade que a gente tem. — Seth olhou para Caleb, um entendimento sombrio passando entre eles. — Ela conheceu o Alfredo em uma mesa de pôquer, tentando financiar a vida de luxo que queria levar longe daqui, mas ela se envolveu com as pessoas erradas.
Yona sentou-se em um banco alto, as pernas bambas. O segredo da mãe era uma facada em sua autopercepção.
— Ela me vendeu para o Alfredo não só para pagar a dívida — Yona disse, com a voz embargada e trêmula. — Ela sabia se Alfredo descobrisse sobre esse relacionamento dela ele os mataria. Ela escreveu aqui: "Eu os deixei para que o Alfredo não os destruísse, pois os amava mais do que à minha própria carne.
— Ela amava o prazer que eles davam a ela mais do que amava você, Yona? — perguntou Caleb, a voz saindo como um trovão contido, enquanto ele se aproximava e envolvia os ombros dela com suas mãos massivas.
— Sim — Yona soltou um soluço quebrado. — Eu fui a moeda de troca para que ela pudesse continuar jogando, enquanto mantinha a lembrança do pai e tio de vocês intacta, longe da sujeira em que ela se meteu. Ela me usou como escudo para proteger o passado dela.
O ar na oficina subitamente pareceu rarefeito. A revelação de que Helena amara o pai e o tio dos irmãos Guedes com uma intensidade devota — a ponto de abandonar a própria filha para "protegê-los" de seu mundo de dívidas — deixou um rastro de dúvida gelada.
Yona segurava a carta com tanta força que o papel antigo ameaçava rasgar. Seus olhos saltavam entre as datas das cartas e o rosto de Caleb.
— Caleb... Seth... — a voz de Yona saiu num fio trêmulo, quase inaudível. — As datas... Minha mãe diz que se entregou ao pai e o tio de vocês logo depois que a mãe de vocês partiu. Ela diz que eles foram os únicos que realmente a possuiram por inteiro.
Ela olhou para o próprio reflexo em um pedaço de cromo polido sobre a mesa.
— Se o destino me trouxe para cá... e se eu não for apenas a filha da mulher que os amou? E se eu for... do mesmo sangue? — O terror de um amor proibido brilhou em seus olhos.
Caleb paralisou. Sua mão, que antes acariciava o ombro de Yona, ficou rígida. Seth, que sempre tinha uma resposta rápida, sentiu o sangue sumir do rosto. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo tique-tique do metal de um motor resfriando.
Caleb foi o primeiro a se mover. Ele pegou a carta da mão dela com uma urgência bruta, lendo as entrelinhas. Ele comparou a data do nascimento de Yona com os relatos de Helena. Foram minutos de uma tensão insuportável, onde o destino de três pessoas parecia balançar em um abismo.
— Não — Caleb finalmente soltou o ar, sua voz saindo rouca e profunda. — Olhe aqui, Yona.
Ele apontou para um parágrafo mais abaixo, onde Helena confessava sua angústia a uma amiga em um rascunho nunca enviado: "Tive que me deitar com Alfredo para pagar o que perdi no jogo, e o fruto desse erro cresce em mim, lembrando-me do que perdi com os Guedes."
— Você é filha do Alfredo, Yona — Caleb sentenciou, os olhos pretos queimando com um alívio feroz. — Deve ser por isso que ele é tão obcecado por você, Alfredo deve ter descoberto que você é filha dele, sua mãe lhe vendeu já sabendo que você tem o sangue dele.
Yona desabou contra o peito de Caleb, as pernas cedendo. Seth ajoelhou-se ao lado dela, pegando sua mão.
— O destino não te trouxe para cá por causa de sangue, pequena — Seth sussurrou, a voz vibrando com convicção. — Ele te trouxe porque o que a sua mãe viveu aqui foi a única coisa pura na vida dela. Ela te mandou para o único lugar onde o Alfredo nunca teria coragem de entrar de cabeça.
— Eu me senti atraída por vocês desde o primeiro segundo — Yona confessou, olhando para os dois. — Achei que era pecado, achei que era loucura amar dois homens ao mesmo tempo.
— Não é loucura — Caleb disse, segurando o rosto dela com as duas mãos. — É o acerto de contas. Alfredo tirou a Helena do meu pai e do meu tio. Ele usou a fraqueza dela para destruir o que eles tinham. E agora, o destino entregou a filha dele nas nossas mãos. Mas não como posse... como a nossa salvação.
Yona sentiu uma clareza avassaladora. O magnetismo que a puxava para a oficina não era genético, era cármico. Ela estava ali para curar uma ferida que vinha de gerações.
— Então — Yona disse, limpando as lágrimas e olhando para Seth e Caleb com uma determinação nova — se eu sou o sangue dele, eu sou a arma que vai destruí-lo. Ele acha que pode me levar porque o papel diz que eu pertenço a ele.
— Ele vai descobrir — Seth sorriu, um brilho letal nos olhos — que o ímã agora está blindado por aço.
Caleb inclinou-se e beijou Yona com uma posse que não era de dono, mas de protetor. A dúvida se fora, deixando apenas a certeza de que a guerra contra Alfredo não seria apenas por liberdade, mas por vingança por tudo o que ele roubara de suas famílias.