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1825 Words
Ana narrando Meu nome é Ana Silva. Tenho 22 anos. Sou morena, tenho o cabelo bem liso, preto, daqueles que caem retos pelas costas. Meu corpo sempre chama mais atenção do que eu gostaria: cintura marcada, b***a grande, p****s pequenos. Nunca fiz nada para provocar — acontece sozinho, e isso sempre me trouxe mais problemas do que vantagens. Sou a filha mais nova. Minha mãe morreu no meu parto, então cresci ouvindo, mesmo que ninguém dissesse em voz alta, que eu era a lembrança viva da ausência dela. Aprendi cedo a ocupar pouco espaço, a falar baixo, a observar mais do que reagir. Sou simples. Sou inteligente. E não pertenço a esse mundo — mesmo tendo nascido nele. Meu pai é narcotraficante, rico, influente. Sempre tentou me proteger do lado mais sujo das coisas, mas nunca me deu escolha de verdade. Ainda assim, ele me mandou embora por um tempo. Morei dois anos na Europa, longe do Rio, longe do morro, longe das armas, longe das regras impostas por homens. Foram os dois anos mais livres da minha vida. Lá, eu estudei, trabalhei, andei sozinha pelas ruas sem sentir medo. Descobri que eu podia ser mais do que filha, irmã ou promessa de casamento. Mas liberdade, pra mim, sempre foi temporária. Voltei. Voltei porque família não pede. Exige. Nunca fui apaixonada. Nunca tive um grande amor. Talvez porque eu sempre soubesse que, no final, meu destino não seria meu. Mas também nunca fui fraca. Sei quem eu sou. Sei o que eu valho. E se estão achando que eu vou abaixar a cabeça… Não me conhecem. Miguel narrando Meu nome é Miguel Andrade. Tenho 33 anos. Nasci e cresci dentro do tráfico. Não cheguei aqui por acaso, nem por sorte. Cheguei porque aprendi desde cedo como esse mundo funciona. Meu pai sempre disse que poder não se pede — se toma. E eu aprendi a tomar. Sou moreno, corpo fechado, malhado. Gosto de treinar. Academia é o único lugar onde minha cabeça realmente fica em silêncio. Peso, suor, dor controlada. É simples. É direto. É honesto. Tenho várias motos, carros, armas. Mas tenho uma coisa que não negocio: minha Dodge Ram preta. É minha preferida. Forte, bruta, imponente. Combina comigo. Não sou de muita conversa. Quem fala demais costuma errar. Prefiro observar, analisar, decidir. Cresci vendo homens caírem por falhas pequenas. Aqui, erro custa caro. Sou o herdeiro do maior morro do Rio de Janeiro. Da maior facção. Do comando que todo mundo respeita — ou teme. Nunca quis casar. Mas existe uma regra antiga, que ninguém quebra. Pra assumir o comando, eu preciso ter uma esposa. Não por amor. Por imagem. Um líder casado passa estabilidade. Fecha a boca dos inimigos. Impõe respeito. Casamento, pra mim, sempre foi negócio. Até agora. Não acredito em conto de fadas. Não acredito em mulher frágil. E não acredito que alguém entre na minha vida sem deixar marca. Se essa história começou com imposição… Ela não vai terminar do mesmo jeito. Porque quando eu assumo algo é pra valer. Augusto Andrade narrando A sala de comando nunca foi lugar pra conversa fácil. Quem entra ali já sabe: ou escuta, ou sai menor do que entrou. As paredes são grossas, o ar é pesado, cheiro de cigarro, pólvora antiga e respeito forçado. Mapa do morro aberto na mesa, rádio chiando baixo, dois homens armados parados na porta, imóveis como estátua. Miguel estava de frente pra mim. Braços cruzados, maxilar travado, aquele jeito de quem já nasceu achando que não devia satisfação pra ninguém. Igual a mim quando tinha a idade dele. Talvez por isso a discussão fosse inevitável. — Já tá tudo alinhado — falei, sem rodeio. — Tá na hora de você assumir o que é seu. Ele soltou uma risada curta, sem humor. — Assumir eu já assumo faz tempo, pai. Quem segura essa p***a aqui sou eu no dia a dia. — Segura porque eu deixo — respondi, seco. — Comando não é só arma e medo, Miguel. É imagem. É regra. Ele se aproximou da mesa, apoiando as mãos na madeira. — De novo essa história? — De novo não. Sempre — rebati. — E você sabe muito bem do que eu tô falando. Miguel respirou fundo, visivelmente se controlando. — Eu já sou homem. Já mando em gente grande. Não preciso de coleira, muito menos de casamento arranjado. — Não fala merda — rosnei. — Aqui não é sobre você querer ou não querer. É sobre o que mantém essa facção de pé há décadas. Ele passou a mão pelo cabelo, andando de um lado pro outro. — Então agora eu tenho que escolher mulher como se escolhe arma? Pelo calibre? — Exatamente — respondi, sem piscar. Ele parou na minha frente. — Eu escolho com quem eu durmo. — Dormir é uma coisa. Casar é outra — falei, firme. — E não vai ser qualquer prostituta que você traz aqui toda semana que vai sentar do teu lado quando você assumir o comando. O clima pesou. Miguel virou o rosto, rindo de nervoso. — Engraçado você falar isso. Quando foi que você virou padre? Levantei da cadeira devagar. Bem devagar. — Cuidado com o tom, moleque. Ele me encarou. — Moleque não. Eu já matei, já decidi, já enterrei gente por esse morro. Não sou mais criança pra você escolher minha mulher. — Mas ainda é meu filho — rebati. — E enquanto esse nome Andrade for meu, quem decide sou eu. O silêncio caiu pesado. Só o rádio chiando. Miguel bateu a mão na mesa com força. — Você quer o quê? Uma mulher pra fazer pose? Pra fingir família feliz enquanto tudo continua sujo por baixo? — Eu quero estabilidade — falei. — Quero respeito fechado. Quero inimigo calado. Quero você blindado. — Blindado com uma esposa que eu nem conheço? — Melhor do que desmoralizado por causa de mulher errada. Ele deu um passo pra trás, respirando forte. — Você não pode me obrigar a isso. — Posso — respondi, firme. — E vou. Voltei a sentar, encarando-o de baixo pra cima. — E talvez eu já tenha encontrado uma menina de família influente. Do jeito que precisa ser. Miguel arregalou os olhos, incrédulo. — Você já tá escolhendo sem me consultar? — Aliança não se consulta. Se impõe. Ele riu, mas agora era raiva pura. — Isso é loucura. — Isso é poder — corrigi. — E se você quer sentar nessa cadeira… vai ter que aceitar. Miguel ficou parado por alguns segundos. Depois pegou o casaco. — Eu não sou teu fantoche. — Não — respondi. — Mas é meu herdeiro. E herdeiro segue a lei. Ele se virou na porta. — Essa conversa não acabou. — Nunca acaba — falei. — Mas o tempo tá correndo. A porta bateu forte quando ele saiu. Fiquei ali, olhando o mapa do morro, sabendo de uma coisa só: Miguel podia até resistir. Mas o casamento… Ia acontecer. Com ou sem a vontade dele. A porta ainda vibrava quando o silêncio voltou a dominar a sala. Miguel sempre teve esse jeito de sair como se o mundo fosse menor do que ele. Igualzinho a mim quando era mais novo. A diferença é que eu aprendi cedo que poder não é só força — é paciência. Esperei alguns segundos antes de pegar o celular. Não por dúvida. Por cálculo. Disquei o número que já estava salvo havia tempo. Do outro lado, não demorou a atender. — Augusto — a voz veio firme, educada demais pra quem vive do crime. — Achei que ia ligar mais tarde. Sorri de canto. — Quando o assunto é negócio grande, eu não gosto de perder tempo. Ouvi o barulho de gelo batendo em copo. — Imagino. E então? — ele perguntou. — Seu filho aceitou? Encostei as costas na cadeira. — Aceitar não é bem a palavra. Mas ele vai entender. — Eles sempre entendem — respondeu. — Mais cedo ou mais tarde. Ficamos alguns segundos em silêncio. Nenhum dos dois precisava preencher o vazio com conversa inútil. — Vamos ao que interessa — ele continuou. — A união das famílias resolve muita coisa. Fecha rotas. Fortalece território. Abre porta onde hoje ainda tem resistência. — Eu sei exatamente o que resolve — falei. — Por isso tô ouvindo. Ele pigarreou, como quem se prepara pra vender algo valioso. — Nós temos capital suficiente pra sustentar qualquer expansão que você queira fazer. Lavagem limpa, contatos fora, acesso fácil a fornecedor europeu. Sem contar os imóveis, as empresas, as rotas que ninguém mais consegue tocar. Deixei ele falar. Homem quando quer impressionar, fala demais. — Depois que as famílias se juntarem — ele continuou —, tudo isso passa a ser nosso. Seu comando começa já blindado. Sem guerra. Sem desgaste. Soltei uma risada baixa. — Você fala bonito — comentei. — Do jeito que tá parecendo, parece até que você tá leiloando a própria filha. Do outro lado, houve uma pausa curta demais pra ser surpresa, longa demais pra ser indiferença. — Não veja dessa forma — ele respondeu, sério agora. — Eu tô oferecendo o que tenho de melhor. — Bastante coisa pra uma oferta só — provoquei. — É pelo bem da família — ele disse, sem hesitar. — Sempre foi assim. Meu pai fez isso. O seu também. Não somos diferentes. Girei o copo de uísque devagar, observando o líquido. — Verdade — concordei. — Ninguém aqui construiu império pensando só em sentimento. — Exatamente — ele reforçou. — Isso não é sobre amor. É sobre continuidade. Sobre manter tudo de pé quando a gente não estiver mais aqui. — Meu filho não vê assim — falei. — Nenhum filho vê — respondeu. — Até entender que o trono pesa mais que o ego. Sorri de novo, dessa vez sem humor. — Você sabe que ele vai resistir. — E você sabe que ele vai ceder. Ficamos em silêncio outra vez. — Eu não entregaria qualquer coisa nas mãos de qualquer um — ele acrescentou. — Mas seu filho… ele é do tamanho do império que você construiu. Olhei para o mapa do morro aberto sobre a mesa. — E a menina? — perguntei, sem entrar em detalhe. — Ela entende o que tá em jogo? — Vai entender — respondeu. — Assim como todos entendem. Aquilo confirmou tudo o que eu já sabia. — Então estamos alinhados — falei. — No tempo certo, eu resolvo com ele. — Ótimo — ele respondeu. — Porque depois disso, ninguém segura a gente. Desliguei sem despedida. Fiquei sozinho na sala de comando, encarando o lugar onde Miguel tinha estado minutos antes. Ele podia bater o pé, gritar, se revoltar. Mas no fim, o sangue sempre falava mais alto. Esse casamento não era sobre duas pessoas. Era sobre poder. Sobre herança. Sobre sobrevivência. E quando a escolha é entre sentimento e império… O império sempre vence.
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