Capítulo 03

1270 Words
Felix passou o restante da semana enfiado em trabalho, não queria pensar muito no assunto, não que Luca fosse um completo erro em sua vida. Era somente o momento, e o rosto de Luciana que ainda lhe assustava. A mídia enlouquecia a procura do assassino da acompanhante de luxo. Ligavam para a empresa Olivar&Smith quase que todo dia, alguns até seguiram Felix e tentaram entrar sem a permissão da portaria. Era sexta-feira, ele já havia encerrado o expediente quando o celular tocou. Kirah já havia ido, então ele muito a contragosto o atendeu. - Sim. - Senhor Smith, quem fala é o Doutor Hélio Gasparini. Seu irmão me ligou referente á uma profissional para cuidar do seu garotinho. Felix emudeceu, Fernando havia dito que seria um segredo, pelo menos até o menino estar bem mais forte. - Ele também me disse que era um segredo de família. - Hélio disse, havia cautela na voz. - Sim. Peço que guarde essas informações, pelo menos por agora. - Pois então. Posso lhe indicar uma excelente profissional. - Ótimo. - Felix recostou as costas na cadeira. - Como podemos conversar melhor? - Amanhã irei falar com ela, quando o pequeno tiver alta ela começará a trabalhar para você. - Quando Luca sair do hospital eu retorno sua ligação e lhe passo meu endereço. - Ok, um abraço e melhoras para o seu filho. - Obrigado. Felix encerrou a ligação, pelo menos uma parte daquela bagunça estava arrumada. Ele teria uma profissional para cuidar de Luca. Rumou para casa sem pressa alguma, aproveitou para comprar algumas coisas e pegar uma encomenda que havia feito. No início da semana um dos sócios de Londres, Doutor Ciro Menin desembarcou no Brasil, ao lado dele uma jovem de beleza lasciva, Sofia. Ciro e Sofia viviam um casamento de fachada, e não foi difícil conseguir uma transa com ela. Sofia era quente, bonita e rasa. Sofia cumpriu com o combinado, as dez horas em ponto estava na porta de Felix, usando somente uma calcinha preta e saltos altos. - Boa noite. - Ela sorriu. - Achei que não tivesse coragem de vir até aqui, nua. Sofia sorriu mais uma vez, lançou um olhar para o carro e voltou a olhar para Felix. - Eu te falei. Saí de casa assim. E voltarei assim. - Sofia molhou os lábios vermelhos com a língua. - Disse que não sei brincar. Felix a pegou pela cintura e a puxou para si. A noite seria longa. (***) Cecília pulou da cama, toques de celular ainda a assustava. Ao olhar na tela constatou que ainda eram sete horas da manhã. O pai estava ligando, era melhor ela atender. - Pai. - Libera minha entrada Ceci. - Oi? - Estou aqui na porta do seu bloco. Me libera a entrada por favor. Cecília destravou a porta de acesso ao bloco, enquanto o pai subia ela ajeitou o cabelo, colocou um shorts e bateu uma água no rosto. Hélio tinha uma chave extra da porta da sala e entrou no momento que ela saiu da cozinha. - O que aconteceu? - Cecília indagou. - Já tomou café? - Ainda não. Estava dormindo. Hélio levantou um saco de papel pardo, pelo cheiro Cecília sabia o que era, e sentiu a boca salivar. - Coxinha. - Ela viu o pai sorrir de lado. - Certo vou preparar um café. Quando o café ficou pronto ela se sentou na frente do pai, abriu a embalagem e procurou pela maior. - Como está a Mari? - Ela está bem. Sente saudades. - Hélio encheu uma xícara com café, respirou fundo, era a primeira vez que falaria sobre o estado da filha. - Cecília, não vim aqui somente tomar café com você. - Celina não vai mais casar? - Esse assunto deixamos para depois. O que vim fazer aqui é tentar acordar você desse pesadelo diário. - Porque isso agora? - Cecília congelou a mão com a coxinha. - Porque você ainda está viva filha. Nosso pequeno se foi, mas você está aqui. - Você não sabe como me sinto. - Cecília largou a coxinha na mesa, os lábios se curvaram para baixo. - Eu amaldiçoo todas as minhas manhãs. Peço para Deus me levar todas as noites, e quando acordo ainda sinto esse buraco no peito que ainda sangra. - E vai sangrar para o resto da sua vida. - Hélio engoliu em seco. - Se esqueceu que perdi seu irmão Ramon? Ele não tinha dias Cecília. Ramon tinha doze anos quando um motorista bêbado o atropelou na saída da escola. Ele estava na calçada, e eu o vi morrer. E sabe do mais? Todos os anos estudados não me valeram de nada. Eu o perdi em meus braços. E sabe o que aconteceu depois? Sua mãe sofreu calada, cuidando de você, grávida da sua irmã. - Hélio balançou a cabeça repetidas vezes. - Nunca mais fomos os mesmos. Celina nasceu e logo depois nos separamos. E não foi falta de amor. È que, eu via Ramon nela, e ela o via em mim. Cecília não sabia o que dizer. O pai mantinha uma foto do primogênito na sala de casa. Ramon segurava um troféu de natação. Era loiro assim como o pai, e tinha os mesmos cabelos cacheados dela. Ele seria um homem lindo. - Eu precisei viver Ceci. Sei como dói, eu também tenho esse buraco no peito, todas as vezes que o vejo com aquele troféu e penso que poderia ter tido outras fotos. Com diploma, ou uma namorada, ou ao lado de uma noiva linda. Eu ainda sonho com aquele dia. Hélio não se abria facilmente, as visitas á Cecilia eram como uma terapia para ele. - Quero que abra essas janelas, corte esse cabelo, troque o preto do luto pelas cores, e principalmente, volte a viver. - Mas.. Eu não consigo. - Ela sentia os lábios tremer. - Consegue sim. Leve alguma coisa do Miguel consigo, feche esse lugar. Cecília fechou os olhos por um minuto, e pensou que talvez Miguel gostaria de vê-la viver outra vez. De todo caso, ela passaria os dias mais rápido. - Sei que não está preparada para entrar de novo em um hospital. Não ainda. Tomei a liberdade de conversar com um dos meus patrões e lhe indicar como babá. - Não! Não vou cuidar de um bebê. - Me deixa continuar. - Hélio engoliu em seco. - Ele se chama Luca, a mãe morreu no parto. Luca é prematuro, assim como Miguel. Ele não tem a mãe, e você é uma mãe de um anjinho. Não é qualquer uma que saberá lidar com isso. Ademais, o salário é o dobro do que você costumava ganhar como enfermeira padrão. Cecília não sabia o que pensar, comeu em silêncio. Não tinha um dia que não pensava em seu pequeno. Se a mãe pudesse sentir algo, com certeza iria querer que o filho estivesse em boas mãos. - Ele precisa ficar no hospital, quando sair entraram em contato comigo, e eu volto aqui. Pense bem Ceci. Não é justo o Diego ter uma vida e você não. Hélio foi embora, não havia contado para a filha que Celina iria se casar com o velho, e queria que ela entrasse com o pai. Deixaria a conversa para outro café da manhã. Cecília fechou a porta e sentou-se no sofá, a cabeça doía de tanto pensar no assunto. De todo caso teria tempo de negar, ou aceitar. Enquanto isso faria as coisas aos poucos. Voltaria a sair de casa, reativaria as redes sociais, na esperança de estar pronta para viver outra vez.
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