Em poucos minutos ficou evidente que a jovem Júlia não estava pronta para lidar com a morte da sua mãe, mesmo sabendo há muitos meses que isso poderia acontecer a qualquer momento. Como médico já tive que dar essa mesma notícias mais vezes do que eu gostaria, mas confesso que nunca antes foi tão difícil quanto agora.
Ver Júlia perdendo a consciência depois de se desesperar com a notícia recebida foi angustiante demais para mim. Para sua sorte, embora estivesse afetado com a iminente morte consegui segurá-la antes que ela chegasse ao chão. A fragilidade que ela apresentou foi gritante demais para que eu simplesmente siga apenas com a conduta profissional ensinada na faculdade. Ela é gigantesca e me envolveu de um jeito que tudo o que pude fazer foi permanecer ao seu lado, mas não mais apenas como o médico da sua mãe ou do hospital, mas sim como o suporte emocional e físico que ela tanto precisa nesse momento e não tem.
Imediatamente a amparei, pegando-a no colo já chamando a atenção da equipe ainda dentro do quarto para que algo fosse feito emergencialmente.
—Preciso de um leito, agora!
A movimentação dentro do ambiente foi rápida e em poucos minutos um leito apareceu na minha frente onde a depositei com cuidado já começando em seguida as verificações e procedimentos necessários.
Para o meu alívio ela tinha sofrido apenas de uma síncope vasovagal, mais conhecida como queda de pressão após o recebimento da notícia que gerou um estresse emocional muito intenso e repentino. Então depois de deixá-la confortável e ter a certeza que assim que seu corpo estivesse pronto, ela acordaria, tratei de dispensar a equipe que logo saiu levando o corpo da sua mãe para os trâmites necessários, nos deixando sozinhos.
Parado diante dela, sozinho dentro do ambiente agora silencioso pude notar seu rosto frágil com mais atenção enquanto penso na dor e dificuldade que ela enfrentará depois que acordar. E nesse momento lembrei-me da minha própria dor quando recebi a notícia que me esmagou e que mudou totalmente minha vida há alguns anos atrás. Tudo o que eu consegui fazer nesse momento foi levar a mão em sua cabeça em uma tentativa vã de consolá-la, como se eu quisesse prepará-la para o que está por vir.
‘Como se eu pudesse.’
Meu objetivo é permanecer presente para ela com o intuito de facilitar o máximo as coisas, orientando em tudo o que ela vier a precisar, então permaneci ao seu lado, aguardando ansioso o seu despertar me sentindo extremamente envolvido na sua história.
Aṕos alguns minutos ela acordou e aí sim meu nervosismo voltou com força total afinal eu precisaria lidar com uma adolescente que conheço parcialmente e que acaba de ficar sozinha no mundo, perdendo a pessoa mais importante da sua vida.
‘Com certeza esse estava sendo o maior desafio da minha vida profissional porque nenhum treinamento havia me preparado para isso.’
Tentei ser gentil com ela, mas como esperado ela precisou do seu tempo para digerir a situação e se acalmar quando lembrou o que tinha acontecido, piorando ainda mais depois de ouvir a minha confirmação. Mais uma vez me lembrei como reagir quando passei pela minha perda, então entendendo bem a sua situação, apenas permaneci ao seu lado, em silêncio, com apenas uma ligação física para que ela saiba que não está sozinha nesse momento porque sei que nenhuma palavra é o suficiente para aplacar com a dor que ela sente agora.
Foi difícil vê-la externando seus sentimentos sem envolvê-la em meus braços para confortá-la melhor, ela claramente estava sofrendo demais. Me fazendo pensar:
‘Como deixá-la sair daqui sozinha quando se estabilizar?’
Quando enfim começou a se acalmar, me deu novamente a sua atenção e aí sim tentei explicar que fiz tudo o que era possível e para o meu choque agora já mais calma, ela foi completamente doce comigo mesmo em meio ao seu sofrimento.
‘Como isso é possível?’
E nesse momento eu soube que hoje eu não poderia ser apenas o profissional que iria dispensá-la e deixá-la seguir para a sua casa sozinha quando recebesse alta, eu precisaria ser bem mais que isso. Então permaneci com ela, pensando em como ajudá-la.
Os minutos foram passando e a única coisa que vinha na minha cabeça é que eu não podia deixá-la sozinha.
‘Vou hospedá-la até que ela esteja pronta para seguir sozinha.’
Eu sabia que iria assumir uma responsabilidade enorme, afinal ela é de menor e eu teria que tomar algumas precauções para não ter problemas com a vara da infância e juventude, além de que poderia estar me metendo em um enorme problema colocando uma pessoa relativamente desconhecida dentro da minha casa, mas mesmo assim tomei minha decisão, afastando-me apenas para fazer uma ligação.
No corredor e sentindo um leve nervosismo, disquei, sendo atendido após alguns toques pela voz doce da senhora.
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Ligação On.
—Oi senhor Mário, como posso ajudá-lo?
—Oi dona Vânia, preciso que prepare o quarto de hóspedes…
A ligação foi rápida e em seguida eu voltava para junto dela, pronto para tirá-la desse hospital o quanto antes, afinal, ela ainda teria que lidar com muitas coisas difíceis e quanto antes passássemos por isso, melhor seria.
Com cuidado, eu a ajudei a sentar me preparando para ter uma conversa nada agradável com ela.
—Júlia, você sabe o que acontece agora?
Como imaginei, ela negou com a cabeça e eu fui obrigado a explicar o que precisaríamos fazer antes de sair do hospital. Júlia ficou em choque, voltou a chorar, dessa vez de forma mais contida, mas eu a estimulei a passarmos logo por isso e ela aceitou.
Juntos, seguimos para a sala da assistência social onde explicamos toda a situação para a profissional que entendeu e nós orientou depois de se certificar que Júlia concorda com tudo. Eu me comprometi a ficar com ela, realizando todos os trâmites necessários junto aos órgãos responsáveis. Depois disso veio a parte mais difícil, a liberação do corpo para o enterro onde eu mais uma vez me responsabilizei a ser o adulto responsável pois não havia outra pessoa para fazer. Por sorte tínhamos todos os documentos necessários em mãos, acabando rapidamente com essa parte também. O fato de ser médico e trabalhar no hospital acelerou muito o processo e quando enfim tudo havia sido resolvido, nós dois saímos juntos pelas largas portas do hospital com ela andando em silêncio ao meu lado, me deixando saber que embora tenha concordado em me acompanhar, ainda se sente deslocada e sem saber como agir.
‘Tomara que eu esteja fazendo a coisa certa.’